O paradoxo da aflição

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 O paradoxo da aflição

Bem-aventurados os aflitos

 

 

“Sede como o militar, e não aspireis a um repouso que enfraqueceria o vosso corpo e entorpeceria a vossa alma.”  – Lacordaire

Introdução

     Deus existe e, entretanto, o “infortúnio é múltiplo; a infelicidade sobre a Continuar lendo

Da eternidade dos sofrimentos

 

Em virtude da experiência do sofrimento após a morte ser tão singular, a linguagem não encontra pontos de referência autênticos para representar tal realidade, e seus aspectos variando ao infinito, fica difícil especificar o sofrimento dos Espíritos inferiores. Todavia, o que se apresenta como constante na observação das condições dolorosas após o desencarne, é a sensação de eternidade das aflições, das penas que torturam os Espíritos inferiores.

De fato, estar no seio de uma situação dolorosa e não poder nem conjecturar as possibilidades de seu término, vê-la como incessante continuidade na horas que passam – uma cadência de dor a marcar todos os momentos da temporalidade da consciência -, é uma experiência atroz e de abalar os mais endurecidos.

No que toca a esse aspecto do sofrimento após a morte, a intervenção da providência divina nas penas que os Espíritos inferiores devem sofrer se caracteriza numa dilatação da temporalidade da consciência no formato do presente, ou seja, a perspectiva do futuro é como que aniquilada da subjetividade e o presente se agiganta como um limite intransponível em que a consciência se debate em seu momento degradante.

O impulso de transcendência inerente à subjetividade faz com que o indivíduo sempre esteja em relação com o futuro no formato do ideal, do dever ser. Assim, o tempo acolhe o indivíduo para a sua constante renovação e evolução. Poder vislumbrar o futuro no plano do ideal e lutar por determiná-lo segundo os fins da consciência, é ao mesmo tempo alimentar o impulso de transcendência e realizá-lo na contínua transição qualitativa do que é (potência) ao que deve ser (atualização da essência).

Desse modo, quando a perspectiva do futuro é aniquilada da subjetividade, fazendo-a experienciar tão somente um presente que se agiganta no preciso momento de sua degradação moral, é opor uma condição fundamentalmente oposta à dinâmica existencial: o indivíduo não compreende a possibilidade de sua renovação, de sua evolução e superação de sua condição dolorosa, só percebe uma cadência no seu tempo existencial – a frustração de sua própria ascensão.

Eternidade dos sofrimentos é a impossibilidade de toda e qualquer esperança. Nenhuma criatura está ou estará condenada a isso, pois tal sentença negaria a misericórdia e bondade divinas como sendo infinitas. Mas a tal sensação de eternidade dos sofrimentos, quando sentida num tempo limitado, não deixa de transmitir a horrível experiência do “sem fim”.

 

 

Referência:

 Questão 973 do Livro dos Espíritos – IV Natureza das Penas e Gozos Futuros.