A ética cristã para além do aspecto jurídico

A ética cristã para além do aspecto jurídico em PDF

A ética cristã para além do aspecto jurídico

A proporcionalidade entre injúria e assassinato segundo o ensino ético de Jesus

 

     Na análise moral do ensino de Jesus a abordagem de Kardec revela uma eficácia interpretativa precisamente porque ela se sustenta em três grandes fatores: o referencial transcendente instituído por Jesus; a verdade ontológica da Continuar lendo

O primado da humildade

O primado da humildade em PDF

 

O primado da humildade

 

     A virtude da humildade não impõe a negação da inteligência, como se fosse uma exigência moral que determina a manutenção da ignorância, ou ainda que a ignorância é condição necessária para se acreditar em Deus. Um dos maiores estratagemas do Continuar lendo

Filosofia, uma expressão do ser

O que desperta no homem o gosto pela filosofia? 

     O homem está inserido no seio da matéria e participa da natureza animal. Entretanto, suas ações não se limitam ao círculo da vida biológica, pulsa nele uma vida subjetiva, dotada de consciência, que à medida que se afirma no contato com a matéria, Continuar lendo

Homenagem ao Sr. Mário Ferreira dos Santos

Um bom repasto para a mente, uma análise comedida sob o influxo da legislação da razão, uma constante presença do Espírito no mundo pela atividade metódica, monótona, ininterrupta de seus poderes; eis o que os efetivos Continuar lendo

Opinião e Conhecimento

Uma vida sem investigação não merece ser vivida.” – Platão

                                                                      

Qual o valor da opinião? Tem ela alguma real legitimidade no processo de compreensão paulatina da realidade? Todas as conquistas efetivas da civilização, das Continuar lendo

Sócrates, Espiritismo e Revolução Conceptual

Objetivo: Compreender a diferença filosófica entre conceito e opinião, o processo de representação conceptual da realidade e de como o autoconhecimento converge pedagogia e terapia da alma.

 

“A filosofia é um treino de morrer e estar morto”  Sócrates – Fédon

 

1- Como podemos associar o autoconhecimento pregado por Sócrates com a Filosofia Espírita?

Com os sofistas o conhecimento se torna uma espécie de invenção da medida humana, isto é, da faculdade de julgar que submete todas as coisas aos seus critérios particulares. Então, o conhecimento é um conjunto de opiniões razoáveis acerca de qualquer assunto e a legitimidade dessas opiniões se sustentam em critérios subjetivos e retóricos e não em critérios objetivos e lógicos. O conhecimento cujo referencial é puramente subjetivo não permite uma unidade do saber e das ideias no tocante aos problemas e objetos universais da experiência humana, tais como: coragem, destino, felicidade, justiça, dever, beleza, virtude, etc.

Assim, Sócrates, em um primeiro momento, se preocupa com o conjunto das opiniões que dominam a mente das pessoas, opiniões que elas defendem e nem sabem por quê e qual o seu fundamento. Então, convida o indivíduo a mergulhar em sua própria interioridade. Através do diálogo, insta-o a fazer uma introspecção investigativa, analisando o seu próprio pensamento, sua visão de mundo, as noções morais que acalenta e se há realmente uma compreensão dessas noções. Desse modo, faz perceber que no fundo de seu saber há uma ignorância originária, que é precisamente perigosa por não ser percebida ou confusamente camuflada, escondida.

Esse autoconhecimento que Sócrates propõe faz com que o indivíduo, ao invés de ficar proferindo uma avalanche de opiniões e ideias, segundo as conveniências e os interesses particulares do momento, sem se preocupar com a ética do discurso, antes perceba a confusão de seu pensamento, a inconsistência de suas ideias, em uma palavra, em perceber que de fato não sabe praticamente nada e que é necessário passar da postura de mero opinador ao sujeito que detém o conceito do objeto de que se quer tratar.

Na Filosofia Espírita a interioridade, cujo núcleo essencial é a consciência, também é fator preponderante para o conhecimento e vivência da verdade. Pois o objetivo de Sócrates com a maiêutica, que leva ao autoconhecimento, é fazer com que o indivíduo manifeste sua própria razão a fim de julgar a si mesmo com coerência e reconhecer os limites que lhe são próprios e, na Filosofia Espírita, a consciência encerra em si mesma os princípios éticos universais que devem orientar o homem na sua existência. Assim, o homem deve conhecer a si mesmo, ou seja, pela reflexão, debruçar sobre si mesmo e reconhecer as paixões que o dominam, as inferioridades que tisnam seu caráter e, orientado pelos imperativos salutares da consciência, iniciar sua educação, seu melhoramento, efetivamente, seu desenvolvimento intecto-moral.

Tanto em Sócrates como na Filosofia Espírita, o autoconhecimento tem um aspecto pedagógico e terapêutico: ambos querem libertar o homem da ignorância do verdadeiro Bem e da Verdade, e curar, por assim dizer, o homem das doenças morais e fazê-lo alcançar a felicidade pela prática da virtude (areté). O conhecimento tem uma finalidade ética, diferente dos sofistas que querem uma promoção do sujeito a qualquer custo, mesmo em detrimento da Verdade.

2- Sócrates distingue os predicados essenciais dos predicados acidentais do sujeito. Como podemos associar tal concepção com o pensamento cristão?

Ao abordar o homem, Sócrates se detém naquilo que o determina e o permite ser tal como é. Então, os predicados essenciais são concernentes as qualidades fundamentais do homem, de maneira que sem essas determinações ele não existiria. De outro modo, os predicados acidentais se referem aos elementos contingentes da constituição humana, sem os quais não alteram em nada seu verdadeiro ser.

Como vimos, em face do relativismo sustentado pelos sofistas, Sócrates propõe que o conhecimento e antes a sua busca seja baseada na apreensão da essência do objeto, superando com isso a mera opinião no esforço dialético de dizer o que é tal coisa. À pergunta: o que é? Interroga-se pela essência, por aquilo que permite o objeto ser.

Assim, a essência do homem é a alma, sem a qual ele deixa de ser; seu corpo pode sofrer inúmeras transformações, como sofre, seja pelo fluir natural ou por patologias várias, e isso caracteriza os predicados acidentais, contudo ele não deixa de ser humano. Na perspectiva do pensamento cristão isso é extremamente importante, pois se aborda o homem também a partir de sua essência, de sua realidade fundamental. Sócrates prepara as bases do pensamento cristão, oferecendo elementos conceptuais para a ideia de igualdade, fundamentada na realidade essencial do homem e não nas suas variações biológicas, fisiológicas e sociais; para a ética igualmente voltada ao essencial e para uma possível relação com o corpo de modo a evitar escravidão, submissão e aviltamento da realidade fundamental humana, a saber, a alma.

3- Em que medida os conceitos socráticos de alma e de Deus preparam o pensamento espírita?

Vemos os princípios elementares da Filosofia Espírita serem elaborados lentamente no próprio processo histórico do conhecimento, tanto nos pré-socráticos como agora com Sócrates, pois esse concebia não só a independência da alma em relação ao corpo, como a sua pré existência e que seu destino também está sujeito a palingenesia (vidas sucessivas).

4- Em que consiste o conceito? A Filosofia Espírita é conceptual? Exemplifique.

O conceito consiste precisamente em apreender a essência do objeto, ele é uma representação mental tanto de fatos como de valores. Por apreender a essência, ele se detém nos aspectos gerais e universais do objeto, por isso o conceito, quando é realmente concebido, ele se mostra atemporal, não é passível de mudança, pois seus sentido repousa na representação conceptual da essência. Dizemos – quando é concebido – porque nos mantemos na perspectiva do método socrático. Com efeito, Sócrates, através do diálogo, insta o interlocutor a executar dois movimentos no processo de autoconhecimento: primeiro a descida, em que purga a mente das opiniões e ideias confusas; segundo, a ascese, em que, por meio de interrogações sucessivas, faz a alma ascender paulatinamente à visão do objeto a ser concebido, então, concebe o conceito do objeto, porque vislumbrou sua realidade sem a deturpação das opiniões que lhe embaralhavam a mente.

A filosofia é esse exercício lento, rigoroso e meticuloso do conjunto dos conceitos com os quais tentamos conhecer a nós mesmos e toda a realidade, pois geralmente as ideias e os conceitos que acalentamos na mente são concebidos de forma errônea, sem exame, sem reflexão, são inconsistentes e representam de forma muito vaga e imprecisa a realidade do objeto.

Há posições filosóficas que sustentam que os conceitos são fabricados, são invenções, elaborações da mente humana, porque o que existe é apenas o particular, o contingente, o singular, o inapreensível pelas categorias da razão, e o conceito pretende abarcar os aspectos universais do objeto e aquilo que o fundamenta. A representação conceptual da realidade é uma representação fixista e incapaz de apreender as contingências dos objetos particulares – e é só isso que na verdade existe.

Todavia, a Filosofia Espírita é conceptual, isto é, pensa a realidade, os fatos e os valores por meio dos conceitos. Fundamentada em princípios da razão, seja por dedução de regras gerais e axiomas ou por indução, através de inferências da observação da realidade e de experiências mediúnicas, elabora conceitos, mas não reduz o real à representação conceptual, pois admite a intuição como meio de conhecer aquilo que o conceito não apreende. Não compreende o conceito tão somente como invenção, no sentido de que não revela ou não corresponde a uma realidade em si mesma e passível de ser apreendida, tanto na ordem dos fatos como na ordem dos valores. Se mantém na posição socrática: o intelecto pode gradativamente apreender a totalidade das coisas que são em si mesmas, independes da mente; a ordem do pensamento deve se ajustar a ordem do ser; o logos do indivíduo pode se ajustar ao logos imanente do Cosmos.

Por isso que o campo de batalha do Espiritismo é precisamente no campo da ideias, dos conceitos que encerram a mente humana na perspectiva materialista e organocêntrica. Sua missão é promover uma revolução conceptual, ou seja, uma renovação completa das ideias, dos princípios, da concepção de vida, dor e destino.

O conceito é como um intermediário entre sujeito e realidade. O sujeito só poder acessar o real pela representação conceptual. Quando o conceito não apreende de fato o real, se estabelece uma esquizofrenia intelectual, e o Espiritismo vem precisamente estreitar essa relação do sujeito com sua realidade espiritual, reelaborando o conceito de vida, corpo, espírito, destino, etc., para que seu intelecto se adeque verdadeiramente a realidade em que ele está inserido ontológica e existencialmente, mas que não pode ainda perceber pela inconsistência e imprecisão das ideias que pavoneiam em sua mente e que devem sofrer rigoroso exame à luz dos fatos mediúnicos, donde dimana toda a Filosofia Espírita.

O Espiritismo, renovando a concepção geral da vida e estabelecendo o paradigma imortal do Espírito, é também a força propulsora e a substância de um novo ciclo civilizatório que se inicia e uma transformação imponderável de todas as ramificações da cultura, porque repousa nos fundamentos do real, instituídos por Deus.

Bibliografia

IEEF. Princípios da filosofia espírita. São Paulo: IEEF, 2012.

KARDEC, ALLAN . O livro dos Espíritos. São Paulo: Lake, 2010.

KARDEC, ALLAN. A Gênese. São Paulo: Lake, 1999.

MORENTE, M. G. Fundamentos de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

PIRES, J. HERCULANO. Introdução à filosofia espírita. São Paulo: Paidéia, 2005.

Os sofistas e a relatividade do conhecimento

Objetivo: Demonstrar a formação da ideia de lei natural e lei humana, assim como a concepção da relatividade do conhecimento e a perspectiva da Filosofia Espírita entorno da problemática sofística.

1- Em que consistia a lei natural e a lei humana à época dos sofistas?

A physis é a totalidade das manifestações que são regidas por uma lei (nomos) que garante a ordem e a harmonia do todo. Essa lei é entendida como natural, isto é, própria da physis, cuja a regulação abrange todas as instâncias da natureza, incluindo nisso a regulação dos agrupamentos humanos. De tal modo, que a ordem social estabelecida, bem como os valores inerentes a essa organização, é também uma ordem natural, ou seja, sua estrutura segue as determinações da própria physis. Então, as diferentes castas da sociedade são determinações de uma lei natural, que não só ordena a sociedade humana, como estrutura todo o Cosmos. Está identidade entre ordem social e ordem cósmica, determinadas pela lei (nomos), é o que sustentava a hegemonia da aristocracia na liderança e administração das cidades-estado – tal casta está ali pela ordem das coisas e ali deve continuar.

Os sofistas vem precisamente por em questão a origem da lei (nomos) e consequentemente de toda uma estrutura social, que supostamente é determinada por uma ordem divina, por uma ordem cósmica, e sustentam que a lei (nomos) é antes convenção humana, que se impõe pelo poder e pelo costume, pela tradição, e não uma determinação divina intrínseca a manifestação da physis.

Colocando a lei (nomos) no âmbito humano e retirando sua roupagem natural e divina, então ela pode ser discutida, reelaborada. E, uma vez que a lei (nomos) tem um caráter extremamente flexível, pois é dependente da medida humana, consequentemente a estrutura social também é passível de infinitas reelaborações, bem como os valores acerca do bem e do mal, belo, útil, dever e etc. Desse modo, as especulações políticas e as ambições sociais ganham peso irreversível na Grécia antiga e os sofistas se pretendem mestres da juventude que deve se impor e renovar os quadros sociais segundo, em última instância, seus interesses pessoais. Com os sofistas a sociedade humana se desprende do suposto determinismo cósmico, para se reelaborar constantemente, segundo as medidas e interesses humanos.

2- Em que esse conceito difere da Lei Natural para a Filosofia Espírita?

Dizer que há lei natural é antes sustentar que há um princípio objetivo, independente das relações entre os homens e que garante a origem da ordem, do bem e de todos os valores que os homens mais ou menos compreendem.

O Espiritismo sustenta que há a lei natural, porque há um princípio absoluto do qual provém toda a ordem e todos os valores para a manifestação da vida. Esse princípio é Deus.

Assim, a Lei Natural é o conjunto das leis divinas estabelecidas por Deus e a sua finalidade última é manter a soberana Justiça em todas as manifestações da natureza, diferente da concepção grega de lei natural que por ela justifica as desigualdades sociais e a predominância abusiva de uma casta e por isso mesmo foi passível da crítica sofística.

3- O homem é a medida de todas as coisas, afirma Protágoras. Explique essa frase com suas palavras.

O homem é o centro das reflexões dos sofistas, que se distanciam das questões da natureza e da cosmologia para se preocuparem com o homem inserido na cidade e na sua formação para atuar nessa cidade. Ele é a medida porque a sua percepção da realidade está condicionada aos sentidos, de modo que as coisas são ou não são em virtude de como ele as percebe. Assim, o conhecimento é subjetivo, no sentido de que as coisas, para serem percebidas, se adequam aos meios de percepção humana.

Desse modo, a natureza e a sua possível verdade está sujeita ao homem, aos seus critérios humanos, que podem variar ao infinito. E os sofistas se ocupam de oferecer as melhores técnicas da retórica para que os homens consigam fazer prevalecer suas percepções particulares acerca de qualquer assunto, objeto, problema. Pois, sendo o homem a medida de todas as coisas, não existe “a verdade” acima de sua medida particular, mas apenas opiniões verdadeiras que se destacam pela aplicação da melhor técnica oratória.

4- Em que sentido a Filosofia Espírita admite o relativismo do conhecimento?

Para a Filosofia Espírita o relativismo do conhecimento é concernente a condição evolutiva do sujeito cognoscente e não ao objeto do conhecimento. Por exemplo:

O homem é um Espírito encarnado que sofre inúmeras influencias do seu condicionamento, tais como a organização do corpo físico e a disposição dos órgãos que servem para a captação das impressões do real, assim, a precisão e qualidade de sua percepção do real depende dos instrumentos do seu corpo físico. Por isso que seu conhecimento é sempre relativo e a causa da relatividade está no seu condicionamento e no grau de evolução em que estagia, e não no objeto a ser conhecido. Sendo assim, independente da percepção relativa do homem, há uma realidade objetiva, em si mesma e com sua dinâmica própria, para além da medida humana.

Assim, é do mesmo modo passando dos fatos aos valores. Por exemplo:

Os sentimentos morais, as noções de Justiça, Beleza, Verdade, são a priori no Espírito, constituem sua estrutura consciencial. Mas a compreensão desses princípios morais e estéticos é relativa e também gradativa. A razão se desenvolve no tempo e assim o homem se aproxima progressivamente do sentido intrínseco desses princípios. Todas as culturas e as civilizações são uma materialização ou concretização, por assim dizer, da compreensão relativa dos princípios inatos da consciência. Portanto, não são as relações e os costumes humanos que engendram variadas concepções de Verdade, Justiça e Beleza, pelo contrário, essas concepções relativas são simples consequências de um nível de compreensão que um determinado agrupamento humano alcançou, por isso há concepções que variam do grotesco ao sublime, dependendo isso unicamente do desenvolvimento racional e espiritual.

Desse modo, os sentimentos e valores morais e estéticos são em si mesmos, constituem uma realidade própria e, portanto, não são relativos, isto é, dependentes tão somente da medida humana. Sua origem não é histórica nem antropológica, pois independem do ser humano para existirem e se manifestarem na criação, pois sua origem está na realidade divina, única causa da Justiça, do Bem e do Belo.

Bibliografia

IEEF. Princípios da filosofia espírita. São Paulo: IEEF, 2012.

KARDEC, ALLAN . O livro dos Espíritos. São Paulo: Lake, 2010.

KARDEC, ALLAN. A Gênese. São Paulo: Lake, 1999.

MORENTE, M. G. Fundamentos de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

PIRES, J. HERCULANO. Introdução à filosofia espírita. São Paulo: Paidéia, 2005.

Anaxágoras e Demócrito – A teoria do átomo

Objetivo: Aproximar o conceito de homeomerias com o conceito de Fluido Cósmico, assim como perceber o início da concepção de uma Inteligência ordenadora da natureza; compreender o conceito filosófico de átomo, a origem e o devir das formas materiais, assim como a concepção de percepção sensorial para Demócrito.

1- Como explicar, à luz do pensamento de Anaxágoras, a afirmação de que tudo está em tudo, consoante a pergunta 33 de O Livro dos Espíritos?

Parmênides, ao sustentar a imutabilidade, unidade e eternidade do ser e Heráclito, por outro lado, ao demonstrar o vir-a-ser do mundo, a impermanência e o movimento como a realidade de todas as coisas, faz com que os filósofos tentem conciliar essas duas posições muito bem fundamentadas.

Assim, Anaxágoras afirma que as coisas não nascem, são apenas combinações de corpúsculos elementares, que unidos dão a aparência de existência a coisas consistentes e em si mesmas; e do mesmo modo, as coisas não acabam, não deixam de ser, porque o que ocorre é apenas a desagregação dos corpúsculos elementares. Esses corpúsculos são denominados de homeomerias – partes semelhantes – que se diferenciam por qualidades elementares.

É desse modo que todas as coisas participam da constituição de todas as outras, porque tudo é feito das homeomerias – de corpúsculos elementares, que se combinando possibilitam o advento das propriedades secundárias e, portanto, a diversidade das substâncias. Tudo está em tudo, porque o fundo de tudo é homogêneo e se fundamenta numa única realidade: as homeomerias.

Em convergência com a Doutrina Espírita, no tocante ao estado da matéria, encontra-se também a formulação do conceito de fluido cósmico universal, que vem de encontro as homeomerias de Anaxágoras. O fluido cósmico é a matéria elementar do universo e a partir do qual todas as coisas são feitas por um processo de modificação do fluido, que passa a ter novas propriedades secundárias.

Assim, a substância nociva, salutar, vaporosa, sólida, seja qual for o estado que se manifeste, é apenas modificação de uma única matéria elementar.

2- Qual a importância do conceito de Nous (võus) de Anaxágoras para a história do pensamento?

Anaxágoras é um dos pré-socráticos que começa a esboçar os primeiros princípios de uma teologia racional, porque o Nous se caracteriza em sua filosofia como uma inteligência suprema que preside todos os fenômenos do Cosmos.

O Cosmos, na verdade, é a própria manifestação da ordem ou do impulso ordenador do Nous, isso porque as homeomerias não se ordenam por si mesmas. Assim há uma distinção entre a matéria elementar de todas as coisas e a causa do movimento ordenado dessa matéria.

Vemos que os pré-socráticos não ficam apenas encerrados na questão “qual é o princípio (arché) das coisas?”, mas também especulam sobre a causa do movimento ordenado. Essa questão tomará proporções imensas e será o núcleo da metafísica a partir de Platão e Aristóteles.

3- Como se originam as formas da natureza, segundo Demócrito? Isso de dá por acaso?

Se em Anaxágoras vemos a indicação de uma força ordenadora sob a matéria elementar, em Demócrito se configura uma outra ordem de ideias. Nele podemos entrever as raízes do materialismo e do mecanicismo.

Os átomos são partículas elementares e indivisíveis que constituem todo o real, entre eles há o vazio e por isso a possibilidade de movimento. Entretanto, esse movimento se dá na relação entre os átomos no vazio de forma mecânica e necessária, sem a ação de uma força estranha aos próprios átomos.

Desse modo, as formas do real se originam do movimento mecânico e necessário dos átomos, onde nem o acaso nem uma inteligência ordenadora precisam atuar para a manifestação da natureza.

Com Demócrito podemos dizer que com o conhecimento da matéria elementar e seu movimento, compreendemos todos os eventos da natureza, que com a matéria se explica tudo, que não há razões para se especular fora do âmbito da matéria.

4- Poder-se-ia deduzir alguma relação entre os átomos de fogo de Demócrito e o perispírito? Explique.

Como todas as coisas são constituídas por partículas indivisíveis – os átomos -, Demócrito também concebia que a alma do homem era formada por átomos. Esses átomos da alma são de natureza mais sutil, denominados átomos de fogo, sendo, pois, a alma humana dotada da mesma sutileza.

No Espiritismo a alma não é algo abstrato, um ente de razão, mas tem uma realidade concreta, ocupa um lugar no espaço, em virtude da matéria sutilíssima que a envolve e forma o perispírito.

O perispírito é o órgão sensitivo da alma (Espírito encarnado), cuja constituição deriva do fluido cósmico, mas muito mais rarefeito em relação ao corpo físico, extremamente denso. A natureza dos átomos de fogo de Demócrito se assemelham com a natureza do perispírito, que tende a se purificar e se tornar cada vez mais sutil e rarefeito, na medida da elevação do Espírito.

Em virtude do Espírito estar envolto de matéria sutilíssima, não decorre daí que seja passível de corrupção, como a matéria, porque a parte essencial do seu ser está toda no Espírito, que é imortal. O perispírito, por ainda ser matéria, também sofre inúmeras transformações, todavia, o ser continua idêntico a si mesmo.

Dizemos isso porque Epicuro, ao adotar a física atomista, sustenta que não devemos temer a morte, uma vez que nossa alma também é feita de átomos e que a morte significa, então, apenas a dispersão dos átomos, decorrendo disso a dissolução da personalidade no torvelinho do desarranjo atômico.

Contudo, o Espírito é a unidade ontológica, indivisível e incorruptível e essencialmente espiritual e não material. Apenas o perispírito e o corpo físico são passíveis de transformações. O Espírito não está no espaço, nem no tempo, não pode vir-a-ser nem deixar de ser. Apenas é.

Bibliografia

IEEF. Princípios da filosofia espírita. São Paulo: IEEF, 2012.

KARDEC, ALLAN . O livro dos Espíritos. São Paulo: Lake, 2010.

KARDEC, ALLAN. A Gênese. São Paulo: Lake, 1999.

MORENTE, M. G. Fundamentos de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

PIRES, J. HERCULANO. Introdução à filosofia espírita. São Paulo: Paidéia, 2005.

Parmênides – Os atributos do Ser

Objetivo: Compreender o conceito de “Ser” e relacioná-lo com o ser segundo o ponto de vista da Filosofia Espírita (Deus, espírito, Espírito).

1- Por que, segundo Parmênides, a via dos sentidos não nos permite conhecer o ser?

Porque o sentidos só apreendem a mudança, o constante vir-a-ser do mundo. O que o homem conhece pelos sentidos é a multiplicidade, a mobilidade, a mutabilidade de todas as coisas.

Parmênides percebe que não pode se basear na transitoriedade ou em qualquer aparência para proferir juízos acerca do ser. Isso porque descobre dois princípios fundamentais do pensamento que servem como critério para entender o ser e elaborar o seu conceito: o princípio de identidade e o princípio da não contradição. É a partir dessa descoberta que também se inicia mais propriamente a ontologia – o estudo do ser enquanto ser, o exame da sua realidade a partir das leis do pensamento.

O princípio de identidade diz: o ser é o ser, idêntico a si mesmo, porque aquilo que é, simplesmente é, de modo que a geração e corrupção do ser é ilusão. Assim, Parmênides investiga o ser por meio das exigências elementares do que no futuro se chamará lógica, isto é, das leis do pensamento.

O princípio da não contradição diz: que algo não pode ser e ser também o seu contrário – o ser é o não-ser não é.

E esse conhecimento só pode ser adquirido pela via da razão, apartando-se da ilusão dos sentidos que fazem tomar o ser pelo não-ser. Então, conhecer o ser é ao mesmo tempo desvelar as leis imanentes da razão (logos) e saber conduzir o pensamento sob essa luz para apreender a verdade do ser.

Da proposição “o ser é o não-ser não é”, decorre seus atributos deduzidos de forma rigorosa:

    • aquilo que é não pode vir-a-ser, porque então não seria, e se não é e passasse a ser, viria do nada. Ora, o nada não pode fazer com que algo seja. Portanto não tem começo.

    • E aquilo que é também não pode deixar de ser, porque então passaria a não-ser e o não-ser não é. Portanto, não tem fim.

    • Aquilo que é, mas não tem começo e nem fim, não está no tempo. Portanto, é eterno.

    • Aquilo que não está no tempo também não está no espaço, desse modo não sofre mudança, logo, é imutável, e se é imutável é também imaterial.

2- O que é o ser, ou o Ser, do ponto de vista da Filosofia Espírita?

Na Filosofia Espírita o Ser é Deus, que também comporta os atributos parmenídicos e o da justiça e bondade, respeitando os critérios que a própria razão (logos) impõem no atual estágio de seu desenvolvimento. Portanto, na Filosofia Espírita só podemos conceber Deus, sem cair em contradições ou se aprisionar em ilusões da aparência e dos dogmas, pela via da razão. É por isso que a fé não pode se apartar da razão, pois é somente nela que encontra o entendimento correto do Ser e o coração pode se devotar a uma adoração esclarecida.

Também, na Filosofia Espírita, encontramos o conceito de ser, que é o princípio inteligente do universo, princípio ordenador que anima e organiza toda a matéria do universo, sendo mesmo a essência de todos os fenômenos, pois sem o princípio inteligente nada no campo das formas pode ser ou vir-a-ser. O princípio inteligente individualizado constitui o Espírito, centelha consciente do universo e a essência do ser humano, sem a qual também não seria.

3- Jesus nos ensina os valores espirituais. Por que? Explique racionalmente.

Os ensinos de Jesus conduzem a religião pra uma efetiva espiritualização dos meios de se relacionar com o Absoluto e de harmonizar o homem com as leis universais.

Jesus apresenta o que é essencial e universal na religião, despojando-a das conveniências e interesses mundanos, fazendo valer apenas os valores espirituais. Esses valores se fundamentam na realidade essencial do homem: o Espírito.

Assim, a religião deve oferecer um efetivo espaço de realização da essência humana, pela dignidade dos valores que consagra aos homens.

Ensinar os valores espirituais, então, significa demonstrar o caminho pelo qual o homem manifesta o seu ser divino; que a verdade é a do Espírito e que a vida é fundamentalmente espiritual.

Na perspectiva da investigação de Parmênides, vemos que ele pensa o ser com seus atributos necessários e Jesus, por sua vez, busca orientar os homens para que se ajustem à realidade perene do Ser e deixem de errar indefinidamente no não-ser, na ilusão, na aparência, na matéria, nas conveniências, nos interesses transitórios e mundanos.

Assim, a religião não consiste nas práticas exteriores e sim na vivência dos valores espirituais que se encontram na sublime moral evangélica, valores que estão estritamente ligados a realidade fundamental do homem, a saber, o seu ser espiritual.

4- Podemos de algum modo associar os atributos do ser para Parmênides com os atributos do ser para a Filosofia Espírita?

Os atributos do ser para Parmênides são deduzidos por um exame rigoroso da razão (logos). A Filosofia Espírita concorda com esses atributos, uma vez que a razão levará qualquer um a deduzir esses atributos a partir do princípio de identidade e o princípio da não contradição. Portanto, é uma concepção de Deus universal, sem elementos obscurantistas ou dogmáticos.

Todavia, a Filosofia Espírita não sustenta que esses são os atributos definitivos e únicos do Absoluto, porque a capacidade de conhecimento e abstração estão sempre condicionados pelo grau de evolução do sujeito cognoscente. Desse modo, quanto ao Ser, não podemos dizer algo em definitivo, uma vez que a razão e os meios de conhecimento, ou antes a totalidade do Espírito, estão em constante desenvolvimento.

 Bibliografia

IEEF. Princípios da filosofia espírita. São Paulo: IEEF, 2012.

KARDEC, ALLAN . O livro dos Espíritos. São Paulo: Lake, 2010.

KARDEC, ALLAN. A Gênese. São Paulo: Lake, 1999.

MORENTE, M. G. Fundamentos de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

PIRES, J. HERCULANO. Introdução à filosofia espírita. São Paulo: Paidéia, 2005.

Cultura e Espiritismo

798- O Espiritismo se tornará uma crença comum ou será apenas a de algumas pessoas?

  • Certamente ele se tornará uma crença comum e marcará uma nova era da História da Humanidade, porque pertence à Natureza e chegou o tempo em que deve tomar lugar entre os conhecimentos humanos. Haverá, entretanto, grandes lutas a sustentar, mais contra os interesses do que contra as convicções, porque não se pode dissimular que há pessoas interessadas em combatê-lo, umas por amor próprio e outras por motivos puramente materiais. Mas os seus contraditores, ficando cada vez mais isolados, serão afinal forçados a pensar como todos os outros, sob pena de se tornarem ridículos.

(O Livro dos Espíritos – Cap. VIII Lei do Progresso; item VI Influência do Espiritismo no Progresso)

Não é uma pretensão absurda e exclusivista dizer que o Espiritismo se tornará uma crença comum, pois esta afirmação decorre do fato de que o Espiritismo não é doutrina inventada, imaginada, e sim, apenas deduzida de fenômenos que ocorrem em a Natureza. Nisso está a essência de sua diferença e de sua irrefutabilidade.

Desse modo, inevitavelmente fará parte dos conhecimentos humanos, tal como a descoberta do mundo infinitamente pequeno e invisível dos micróbios, vírus, bactérias e etc., que hoje a aceitação é generalizada e outrora era motivo de ridicularização.

Por isso é impossível impedir o progresso dos conhecimentos humanos no tocante ao aspecto espiritual da realidade, uma vez que o elemento espiritual constitui a própria Natureza. Ainda mais quando a inteligência continuamente se aprimora, mesmo sob pressupostos materialistas, pois então, goza de condições racionais para a compreensão do aspecto espiritual do real.

Allan Kardec esboça a dinâmica inerente no progresso das ideias:

  • Os ensinos de Jesus de Nazaré aparecem no mundo como quadro conceptual inteiramente novo e diferente diante do paganismo. São recebidos pela mentalidade judaica – único povo da época apto a germinar ideias que em essência estão sob base monoteísta e assinalam para uma espiritualização da própria religião.

  • Todavia, quase toda a potência dos ensinos de Jesus são velados pelo formalismo judaico e pelas extravagâncias pagãs. Essas duas mentalidades se fundem num processo histórico, originando a religião sincrética que é denominada Cristianismo. Porém, as bases vigorosas que Jesus lançou, ali estão e uma lenta depuração das ideias e de ambas mentalidades se inicia desde o advento do Divino Mestre.

  • Nesse longo processo histórico-conceptual surge o Espiritismo para arrematar e desenvolver em sua plenitude a Aurora Cristã sobre a mentalidade humana. Assim, vemos o Espiritismo como força divina de realização e atualização das potências latentes dos ensinos de Jesus; como o momento de acabamento da obra de edificação de novas ideias mais condizentes com a realidade universal e com a essência divina. Por isso dizer: o Espiritismo é o Cristianismo redivivo, ou seja, puro, sem máculas, sem sincretismo, livre dos acanhamentos judaicos e pagãos, é a apresentação de Jesus sem os condicionamentos mentais e histórico-sociais – a Verdade, trazida pelo Espírito de Verdade, guardião da nova era. Esse “momento” é de fato um longo processo em que as ideias acanhadas do passado digladiam com o renovado corpo conceptual que é o Espiritismo, cuja a invulnerabilidade descansa na essência do Real.

Assim, Kardec nos ajuda a perceber a extrema importância do Espiritismo na cultura e na elevação da mesma.

Teoria do Conhecimento III – A Intuição

O homem é finito, mas tem a intuição do Infinito. O princípio espiritual, de que é detentor, incita-o a perscrutar os problemas que excedem os limites atuais de seu entendimento. Seu Espírito, prisioneiro na carne, separa-se dela, às vezes, e eleva-se aos domínios superiores do pensamento, donde lhe vêm essas altas aspirações, as quais muitas vezes são seguidas de recaídas na matéria. (O grande enigma, Léon Denis)

1- O que podemos conhecer? Como podemos conhecer?

O conhecimento está condicionado ao nosso aparato cognitivo. Assim, podemos conhecer tudo aquilo que nossas faculdades permitirem. Quais são essas faculdades? Que objetos elas permitem apreender?

O sensório, a razão e a intuição sintetizam o aparato cognitivo humano. Pelos sentidos captamos as impressões exteriores, puramente materiais. Pela razão elaboramos ideias, conceitos, abstrações em geral, sistematizando na mente os dados captados do exterior e os relacionando em processos intelectuais. Pela intuição acessamos de modo direto a essência das coisas, num instante extremamente enriquecedor, em que todos os aspectos do objeto são percebidos simultaneamente.

Assim, verificamos que há momentos específicos em que uma faculdade atua mais que as outras no processo de conhecimento, mas isso não quer dizer que são separadas, isoladas.

2- Qual a diferença entre raciocínio discursivo e a intuição?

Como há diferentes faculdades que permitem formas de percepção igualmente diferentes dos objetos de conhecimento, deflagramos, então, o método racional discursivo e o método intuitivo como recursos de investigação.

O raciocínio discursivo é o pleno exercício da razão, determinado pelo tempo lógico, que orienta o desencadeamento das ideias e conceitos ao redor do objeto. Nesse método, o conhecimento do objeto se dá de forma mediata, indireta, vagaroso, veiculado pelos conceitos.

O método intuitivo se caracteriza por um único instante enriquecedor que cumula o Espírito do conhecimento da essência do objeto, diferente dos vários atos sucessivos do discurso. A intuição não é um ato racional e nem precedida pelo pensamento; é visão espiritual superior em que o espírito entra em contato direto com o objeto de conhecimento, sem a mediação da representação ou de qualquer abstração.

3- Qual a diferença entre a intuição do senso comum e a intuição do ponto de vista filosófico?

É importante ressaltar: a intuição é um ato espiritual; é uma faculdade que exige exercício, atividade, para que dê os resultados que é capaz, assim como a razão, que, se não for exercitada mal consegue formular ou entender um axioma.

O senso comum reduz a intuição à sensibilidade de perceber o advento de acontecimentos próximos, à inspiração supersticiosa, onde o sujeito apenas sofre influências estranhas e que comumente ele se quer tem controle.

Do ponto de vista filosófico, pelo contrário, a intuição é um ato espiritual em que o espírito se esforça para apreender o objeto sem a mediação do pensamento. A intuição, quando alcança seu êxito, confere resultados bem diferentes do que meros pressentimentos ou inspirações. Possibilita uma certeza inviolável, um enriquecimento do sujeito que conseguiu descobrir algo, embora tenha dificuldades, muitas vezes, de passar o conhecimento intuitivo para o plano do discurso, seja pela deficiência dos conceitos em voga ou pela singularidade do conhecimento intuitivo que não se enquadra nos rígidos esquemas racionais. Desse modo, vemos muitos filósofos invocando a poesia e as artes em geral para tentar comunicar ao mundo o seu instante intuitivo e fecundo.

A intuição, encarada de um ponto de vista filosófico, está estritamente relacionada com os três aspectos do Espírito: intelectual, emotivo e volitivo. Dependendo do conhecimento que a intuição confere ao sujeito, ela se enquadra na intuição intelectual, que concerne aquilo que o objeto é; a intuição emocional, que concerne aquilo que o objeto vale; e a intuição volitiva, que concerne a necessidade que o objeto seja, relativo a vontade, ao dever e a ação no mundo.

4- Qual a atitude do sujeito na intuição intelectual e na intuição emotiva? Qual delas prevalece para a Filosofia Espírita?

Na intuição intelectual, o sujeito determina como meta a apreensão do aspecto inteligível do objeto, sua essência, aquilo que o fundamenta. Assim, as tendências intelectuais do Espírito impulsionam o ato intuitivo, concebendo-lhe uma determinada direção e finalidade. É por esse tipo de intuição, muitas vezes, que grandes pensadores são tomados nos primórdios de seus labores, quando ainda jovens, e acabam se dedicando a vida inteira para comunicar no plano do discurso e do pensamento sistematizado aquilo que já entreviram pelo conhecimento intuitivo, num lapso fulgurante, num instante enriquecedor.

Na intuição emotiva são as tendências da afetividade que determinam o ato intuitivo, donde o sujeito conhece o valor do objeto, num rompante de emoções indescritíveis. O sujeito se põe em relação com o objeto na esfera do sentimento, captando o seu valor na grandeza e qualidade das emoções que ele provoca. É um tipo de intuição absolutamente fecunda, pois toca a alma em suas fibras e impulsiona o pensamento a alturas que o mero raciocínio não alcança, pois a emoção se faz seiva da atividade intelectual.

No inesquecível livro de León Denis – O problema do Ser, do Destino e da Dor – logo percebemos que o filósofo espírita é mestre na arte da intuição emotiva. Por toda parte, em seu livro, ele quebra a cadência lógica da demonstração e dos argumentos em prol da exaltação de um rompante de emoções que borbulham em seu peito. Então vemos o druida da Lorena vibrar bem alto a lira de seu Espírito, num transporte comovente – luzes emergem das páginas!

Também, em O Livro dos Espíritos, Allan Kardec estabelece como uma das primeiras questões que abrem o livro o tema da intuição emotiva:

Na questão 5, indaga sobre o sentimento intuitivo da existência de Deus presente em todos os homens. E, na seguinte, a questão 6, interroga quanto a origem desse sentimento intuitivo, se não seria fruto da educação e de ideias adquiridas, ao que o Espírito de Verdade responde: “Se fosse assim, porque os vossos selvagens também teriam esse sentimento?”

Desse modo, nas raízes de nossa afetividade está a intuição emotiva primordial da existência de Deus, anterior a qualquer pensamento, educação ou ideias adquiridas. É esse sentimento intuitivo que marca a experiência existencial mais profunda do homem e que gera uma carga emotiva incontrolável, impulsionando todo o processo civilizatório, na ânsia de se realizar na compreensão e relação com o Absoluto.

Bibliografia

DENIS, LEÓN. O problema do Ser, do Destino e da Dor. Rio de Janeiro: FEB, 1947.

____________. O grande enigma. Rio de Janeiro: FEB, 1992.

IEEF. Princípios da filosofia espírita. São Paulo: IEEF, 2012.

KARDEC, ALLAN . O livro dos Espíritos. São Paulo: Lake, 2010.

MORENTE, M. G. Fundamentos de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

PIRES, J. HERCULANO. Introdução à filosofia espírita. São Paulo: Paidéia, 2005.

____________. O Espírito e o Tempo. São Paulo: Edicel, 1979.

Teoria do Conhecimento II – Sistemas e Conceitos

1- O homem pode tudo conhecer? Fundamente.

Aprofundando as questões da Gnosiologia, encaramos o problema da possibilidade do conhecimento e seus limites, no que diz respeito ao acesso à verdade.

Na teoria do conhecimento, dois sistemas encaram o problema de forma diferente, quais sejam: ceticismo e dogmatismo.

O ceticismo, de forma geral, argumenta a partir dos recursos do conhecimento humano, que não goza de critérios absolutos para garantir sua legitimidade. A certeza está comumente baseada em um erro que não foi percebido ou em pressupostos inverificáveis, temerários, arquitetados. De forma específica, o ceticismo absoluto busca demonstrar que as fontes do conhecimento, tanto pelos sentidos como pela razão, são insuficientes para o homem conhecer a verdade, uma vez que permitem inúmeros erros, que podem ser verificados na experiência e na história das teorias, que em uma época eram tidas como verdadeira e em outras como equivocadas e até absurdas. Com isso, o homem não deixa de tentar conhecer, mas seu conhecimento não é legítimo, ou só é em uma determinada época e num contexto social, e, portanto, nada tem haver com conhecimento universal e atemporal; sempre estará determinado por conveniências e crenças – elementos não racionais e arbitrários. Uma outra modalidade é o ceticismo relativo ou moderado que sustenta a possibilidade do conhecimento apenas no plano da aparência, do fenômeno, do particular, sendo possível a apreensão de algumas verdades, mas nunca a verdade total.

Encarando de outra forma a possibilidade do conhecimento humano temos o dogmatismo. É importante encarar a palavra dogmatismo em seu sentido filosófico – como sistema de pensamento baseado em princípios – dogmas de razão, isso porque a palavra dogma significa princípio. Dizemos isso, porque, tal como se sabe, ao longo da história da filosofia, dogmatismo terá um sentido estritamente pejorativo, como negação do legítimo pensamento filosófico.

Assim, o dogmatismo sustenta que podemos conhecer o real, e até a verdade, a partir de princípios que examinados conferem critérios de juízos e orientação à deduções que nos remontem às causas últimas. Porém, dentro do dogmatismo, há outras modalidades que são realmente antifilosóficas, tais como:

Dogmatismo ingênuo que caracteriza o senso comum, na sua extrema passividade e aceitação intelectual. De forma alguma examinam os fundamentos de suas crenças; geralmente, no aspecto psicológico, são alheios a si mesmos e estão quase sempre ao sabor das circunstâncias e dos impulsos que facilmente lhes dominam. Tudo isso pela forma com a qual conduzem os seus pensamentos, ou melhor, por se tornarem tão indiferentes ao uso da própria razão e da reflexão.

Dogmatismo fideísta que é quase uma consequência necessária da atitude do dogmático ingênuo, pois aquele que não consegue pensar por si próprio é facilmente persuadido por um conjunto de ideias mais ou menos convenientes. O dogmatismo fideísta se caracteriza por um conjunto de ideias fechadas e alicerçadas em princípios invioláveis, em dogmas de fé, que devem ser aceitos sem o exame da razão ou a razão deve a eles se conformar. Nesse sistema, tudo pode ser conhecido a partir de seus dogmas de fé. Mas que isso seja o conhecimento da Verdade, há uma distância abissal.

2- O Espiritismo é uma filosofia empirista ou racionalista? Argumente.

Se vimos a questão da possibilidade do conhecimento, agora outra forma de abordar o conhecimento vem compor a problemática gnosiológica: o problema do fundamento do conhecimento, se ele se funda na experiência ou na razão, dando origem as posições empirista e racionalista.

Essas posições se baseiam na diferença com que abordam as faculdades cognitivas. No empirismo a mente é vista como uma folha em branco, sem conteúdo algum, sem princípios inatos, somente a experiência vai elaborando os conteúdos da mente, daí a célebre frase: “não há nada na mente que não tenha passado pelos sentidos.” É uma forma radical de encarar a origem do conhecimento e também as faculdades cognitivas e as categorias da razão. Em Hume, por exemplo, o princípio de causalidade é apenas a fixação de um hábito na mente dos homens, após muitas experiências em que o homem associava um evento qualquer como efeito de um evento anterior, bem como o Eu, que é simples ilusão, pois é mero feixe de sensações que se agregam no tempo, dando a ilusão da existência de uma personalidade subjacente. Vemos, assim, os princípios lógicos, as categorias da razão, reduzidos ao plano psicológico.

Diante dessa exposição geral, já intuímos que o Espiritismo de forma alguma é empirista. A começar pelo Eu, que não é ilusão, muito menos efeito de sensações agregadas. Contudo, o Espiritismo também não ignora a irremovível necessidade da experiência, tal como é postulado em O Livro dos Espíritos: a inteligência só pode se manifestar na matéria, daí a importância da encarnação. Interessante é, no mesmo livro, na questão 22-a, quando Kardec pede uma definição de matéria, o Espírito de Verdade dá uma definição filosófica existencial, e não física: “a matéria é o liame que escraviza o espírito, é o instrumento que ele usa, e sobre o qual, ao mesmo tempo, exerce a sua ação.”

Assim, as categorias da razão, as faculdades cognitivas, são inatas no Espírito, mas se encontram em estado latente, e só no fenômeno da encarnação, que permite a experiência sensível, é que elas se desenvolvem, bem diferente de provirem da experiência.

Tal como postula Kant de forma brilhante na Crítica da Razão Pura: “a unidade sintética a priori da percepção deve acompanhar necessariamente todas as minhas representações”; respondendo aos empiristas que o Eu transcendental, com suas faculdades e categorias, é a condição de possibilidade da experiência.

Eis porque o Espiritismo é racionalista, sem deixar de considerar a importância da experiência para a manifestação da consciência, pois não se encerra em nenhum sistema em detrimento da compreensão dinâmica da realidade.

3- À pergunta, o que existe, o que respondem o idealismo e o realismo?

Dependendo da perspectiva com que se encara os fundamentos do conhecimento, pode-se assegurar pressupostos que sustentem diferentes teses acerca daquilo que existe, do ser enquanto realidade fundamental das coisas.

Nesse momento verificamos como a teoria do conhecimento transita para a ontologia – teoria do ser. Pois a tese idealista ou realista também está sustentada em pressupostos gnosiológicos.

Na tese idealista, à pergunta: o que existe? Existe os conteúdos da mente, as representações do sujeito cognoscente. O que equivale dizer, existe tudo aquilo que está no campo da percepção humana, cuja capacidade de apreensão das coisas vai além de simples passividade, mas sim de atividade constituinte, isto é: que eleva o sujeito a categoria de participante da constituição do objeto a ser conhecido.

Na tese realista verificamos o oposto. As coisas existem independente do sujeito. Estão aí, tem sua própria ordem e dinâmica e podem ser apreendidas ou não pela mente humana. Essa tese não fere o senso natural de objetividade presente em todos os homens. Pois, se perguntarmos ao senso comum, o que existe? Dirão: existe o mundo, as coisas, os seres.

Então, de primeiro instante, a tese idealista, além de ousada, parece não poder se justificar, em virtude da própria realidade que nos cerca. Todavia, por ela não ser óbvia, se torna extremamente interessante, e vemos inúmeros filósofos determinados a defendê-la, elaborando várias razões e ideias bem consistentes e coerentes ao seu favor.

4- Segundo afirmação em prolegômenos a O Livro dos Espíritos, o espiritismo é uma filosofia racional, livre dos preconceitos do espírito de sistema? Fundamente.

Por sistema entendemos o conjunto de ideias e conceitos logicamente interligados, necessariamente relacionados, deduzidos de pressupostos e princípios que lhes dão base e não podem ser removidos ou refutados, pois senão tornam inconsistentes os conceitos que deles foram derivados. Disso, diremos que esta é uma forma natural de a razão proceder; tudo se complica quando a realidade desmente ou supera tais princípios. Os sistemas filosóficos tem por meta abarcar todo o complexo da realidade, arquitetando um monumento teórico a fim de conformá-la. Nisso está o problema, a realidade é dinâmica e não pode se conformar nos esquemas rígidos de nossos conhecimentos. O espírito de sistema é uma tendência psicológica que atrapalha e embota toda a investigação, porque faz que sustentemos ideias e princípios que a própria realidade contradiz, não permite uma efetiva elevação e ampliação dos conhecimento humanos, apartando a mente humana de uma integração mais profunda e consciente com o real, e, portanto, mantém os homens numa espécie de esquizofrenia intelectual – incapazes de vencerem seus fantasmas teóricos para contemplarem a realidade.

Ora, como vimos, o Espiritismo não pode defender os pressupostos e princípios empiristas de modo exclusivo, sob pena de contradizer e tornar inconsistentes os seus princípios e conceitos. Não o pode de modo exclusivo, isso quer dizer que também não o refuta de modo absoluto. Basta isso para entendermos que o Espiritismo não se encerra de modo fechado no sistema racionalista, em contraposição a todos os outros sistemas. Em virtude de seu caráter a-sistemático, ele estabelece uma relação de moderador de conflitos, rumando para uma síntese superior das conquistas parciais das várias ideias em jogo.

No caso da tese realista e idealista, também as reuni numa síntese superior: admite a realidade em si do mundo e das coisas, independente do sujeito cognoscente. Porém, também sustenta o postulado de que o sujeito está condicionado ao seu grau evolutivo, decorrendo disso que sua faculdade de representação e seus meios de apreensão da realidade não confere conhecimento imediato do real em si, somente na medida do seu desenvolvimento.

Assim, o Espiritismo tem uma filosofia dinâmica, aberta, que não se encerra em um molde sistemático e nem nas tendências exclusivas desse ou daquele filósofo.

Bibliografia

IEEF. Princípios da filosofia espírita. São Paulo: IEEF, 2012.

KARDEC, A . O livro dos Espíritos. São Paulo: Lake, 2010.

PIRES, J. HERCULANO. Introdução à filosofia espírita. São Paulo: Paidéia, 2005.

______. O Espírito e o Tempo. São Paulo: Edicel, 1979.

Teoria do conhecimento I

1- Quais as principais partes da filosofia? Qual a importância da teoria do conhecimento ou gnosiologia?

O ser e o conhecer se apresentam para a filosofia como a síntese de todos os problemas que motivam seus caminhos de investigação. A ontologia compreende as questões concernentes ao ser, em seu aspecto universal e necessário. Seu desenvolvimento, por vezes, determina uma antropologia filosófica, uma ética, uma política, se considerarmos que os aspectos gerais do ser compreendidos ou ignorados determinarão os rumos de todo um sistema ou escola filosófica.

A gnosiologia reuni todos os problemas referentes ao fenômeno do conhecimento: origem, fundamento, procedimento e legitimidade. Vemos como a filosofia é a busca de um momento superior de compreensão, porque se constitui como autocrítica por excelência: é o pensamento humano se debruçando sobre si mesmo, refletindo sua imagem sob judiciosa inquirição filosófica, pondo-se a descoberto a cada pergunta que lhe vasculha a essência. Nisso está toda a importância da gnosiologia, enquanto autocrítica total da faculdade de conhecer.

O filósofo é o amante da Sabedoria, aspira estar sempre ao seu lado. A Sabedoria é o coroamento dos elevados frutos da cultura que enobrecem e elevam os homens. Como o conhecimento é uma das vias que nos levam a Sabedoria, cabe ao filósofo fazer a crítica do conhecimento, de suas causas, do que podemos conhecer e como conhecer. E, desse modo, aproximar-se o quanto puder da Sabedoria, mesmo se a teoria do conhecimento denunciar impossibilidade de conhecer a essência e o sentido das coisas. Porque saber que não se sabe ou que não pode saber, já é uma aproximação à Sabedoria, e para chegar a essa conclusão, é exigido um grande percurso – o da superação de preconceitos, orgulho, falso saber, deixar o autoengano pelo autoconhecimento e suas consequências.

2- O que é o conhecimento, qual o objeto de conhecimento para Herculano Pires?

O conhecimento, de um modo geral, se dá por em um processo de relação entre aquele que conhece e aquilo que é conhecido: sujeito e objeto. Nessa relação, o conhecimento se constitui, se define, quando o sujeito obtém a representação em sua mente do objeto a ser conhecido, seja por imagem, ideia ou conceito.

O objeto de conhecimento tem dois aspectos: objetivo e subjetivo. O objetivo é referente ao conjunto de fenômenos exteriores à mente do sujeito. O subjetivo é quando o sujeito, aquele que pensa, se torna o próprio objeto de conhecimento. A percepção dos sentidos nos permite captar as impressões dos objetos exteriores; a razão e a intuição permitem a percepção da nossa própria interioridade, o exame dos conceitos presentes em nossa mente – nisso reside o fenômeno da reflexão: refletimos a nós mesmos no espelho da mente pela percepção interior, transformando-nos em objetos de conhecimento, sem deixar de ser, também, o sujeito de conhecimento.

Quando o pensamento desvela o ser na razão e intuição humanas, é filosofia; quando o pensamento descobre a causa e a ordem dos fenômenos no mundo, é ciência.

3- O que é a verdade, de um modo geral, do ponto de vista filosófico?

Um dos conceitos tradicionais de verdade é o que assinala o princípio de correspondência: a conformidade do pensamento com o real. Mas esse princípio de correspondência tem implicações mais profundas do que parece.

A conformidade do pensamento com o real requer a apreensão da realidade última das coisas, e não a mera aparência, a apreensão da epiderme da manifestação, superficial e contingente.

Assim, a verdade tem caráter universal e necessário, porque busca abarcar os aspectos essenciais do objeto de conhecimento, diferente da opinião, que se paralisa na aparência das coisas.

Por isso que a busca pela verdade exige um exame ferrenho de todas as opiniões que dominam a nossa mente, perceber a inconsistência das várias ideias que defendemos, tentando justificá-las ou superá-las por definitivo, passando, assim, de um estado de crença ingênua ou dogmática para um estado de espírito crítico, que discerne e analisa metodicamente as ideias e conceitos que se lhe apresentam na mente.

Alias, boa parte do método maiêutico de Sócrates consiste numa cartase, numa purgação das opiniões que encarceram a mente de seu interlocutor, para só depois, empreender com ele a busca pela verdade.

4- Qual a origem do conhecimento para a filosofia espírita?

Na história, a teoria do conhecimento ora deu ênfase ao objeto como origem das ideias em nossa mente, ora ao sujeito como criador das ideias e conceitos na mente, que tenta organizar de modo mais ou menos sistemáticos as experiências no mundo.

O caráter dialético do Espiritismo reuni sujeito e objetos como elementos fundantes do conhecimento: quem conhece é o espírito, que de início traz em si todas as potências da razão, mas em estado latente, em germens. As categorias da razão, os conceitos e ideias vão se desenvolvendo, se atualizando na relação com o mundo, com os objetos que se apresentam e estimulam o espírito.

Assim, em princípio, a origem das categorias e conceitos da razão estão no espírito, mas esses só podem ser atualizados e aplicados na relação com os objetos, que em última instância é a matéria organizada em um determinado nível de condensação.

Só há conhecimento se houver objetos, e só há objetos se houver sujeito. O próprio conceito de sujeito implica o de objeto, tal como ensina Kant.

Bibliografia

IEEF. Princípios da filosofia espírita. São Paulo: IEEF, 2012.

KARDEC, A . O livro dos Espíritos. São Paulo: Lake, 2010.

PIRES, J. HERCULANO. Introdução à filosofia espírita. São Paulo: Paidéia, 2005.

Por um movimento espírita esclarecido e progressista

As crianças índigo e o movimento espírita

Como explicar a adesão de lideranças e instituições em uma tese tão absurda

Por Dora Incontri

A entrada livre do movimento índigo dentro do movimento espírita brasileiro revela apenas o que os espíritas conscientes já sabem (e estes infelizmente são em muito pequeno número): nosso movimento anda longe da trilha proposta por Kardec. Entenda-se que não tomamos aqui essa trilha como um conjunto de dogmas fixos, como um sistema fechado de pensamento. O espiritismo – como queria Kardec – deve estar inserido no mundo, na cultura de seu tempo, deve dialogar com outras correntes de pensamento, deve continuar seu caminho de ciência e de pesquisa.

Mas para isto é preciso um método. A principal contribuição de Kardec foi a criação de um método de abordagem da realidade, que inclui a observação científica, a reflexão filosófica e a revelação espiritual. Esses três caminhos convergem na busca da verdade e um elemento controla o outro. Não se pode aceitar cegamente o que vem pela revelação mediúnica – é preciso passá-la pelo crivo da razão e pela análise do método científico. Aliás, somos nós, encarnados, que fazemos a ciência, e não os Espíritos, que vêm apenas nos intuir, nos ajudar, sobretudo no plano moral. Uma ciência que supostamente nos viesse pronta do Além já deveria ser motivo de desconfiança e é própria de Espíritos pseudo-sábios.

No caso de Lee Carrol, Jan Tober e o Espírito de Kryon (que a tradução brasileira mudou para médium Kryon, quando se trata de um Espírito que se afirma extra-terrestre e o Espírito mais próximo de Deus!), defrontamo-nos com uma grande mistificação, com fins comerciais, sem nenhuma racionalidade, sem nenhum critério científico… e os espíritas embarcaram gostosamente na idéia. Por quê?

Alguns certamente o fizeram de boa-fé, outros com claros interesses financeiros, porque se trata de um tema vendável, na linha de auto-ajuda descompromissada, aquela que agrada ao leitor, por trazer receitinhas prontas de como tratar um filho índigo – e muitos podem se iludir no orgulho de ter um filho de aura azul, predestinado a mudar o mundo, um mutante genético!

Os que aceitaram a idéia de boa-fé não são menos desculpáveis, principalmente em se tratando de lideranças, formadoras de opinião, que publicam livros, fazem palestras, porque deveriam ter a responsabilidade ética e intelectual de falar apenas sobre aquilo que pesquisaram em profundidade e manifestarem uma opinião abalizada sobre o assunto. Aos que fazem publicações com fins comerciais, não temos o que dizer. Kardec advertia que contra interesses não há fatos que prevaleçam.

É preciso esclarecer bem o que criticamos na questão de fins comerciais, pois temos também uma editora e podemos ser mal interpretados. É óbvio que o setor editorial espírita precisa ser profissional, movimentar dinheiro, contratar pessoas, trabalhar na base do profissionalismo e não do amadorismo. Isto também vale para uma escola, uma universidade, um empreendimento qualquer que leve o nome de espírita. Ou seja, temos pleno direito ético de vender um livro espírita (porque senão não podemos publicar outros), de cobrar um curso ou um congresso, para cobrir os custos e, inclusive, para reinvestirmos na própria divulgação do espiritismo. O que criticamos, que é próprio da mentalidade capitalista, é quando passamos o lucro na frente do ideal. Ou seja, quando traímos os princípios da doutrina espírita, publicamos qualquer coisa, para ganhar dinheiro, fazemos qualquer negócio, para obter dividendos e buscamos com isso enriquecimento pessoal.

É isso o que o capitalismo preconiza: lucro acima de tudo e princípios éticos totalmente descartáveis e secundários. A qualidade de um produto, as responsabilidades social, ideológica, moral ficam subordinadas ao desejo de venda fácil. As editoras espíritas que trabalham seriamente, com cultura e livros de conteúdo,
sabem o quanto é preciso se sacrificar para manter bem alto o ideal!

A falta do espírito crítico

O outro aspecto comprometedor que afasta o movimento espírita do rumo de Kardec é a ausência de criticidade, debates e exame livre das questões. Quando surgem às vezes alguns críticos, cometem o deslize que discutir pessoas, ao invés de discutir idéias. Mas a grande maioria, acostumada à cultura do “brasileiro cordial”, acrescida pelo estereótipo de “espírita caridoso”, não está habituada a nenhum exercício de crítica construtiva. Considera-se que crítica é falta de caridade.

Ora, Kardec, nos 12 volumes da Revista Espírita, estabelecia um debate eloqüente, ardido e, muitas vezes, usando aquele fino espírito francês de ironia, para colocar-se ante adversários e para esclarecer questões polêmicas. Não que transformasse as páginas da Revista em arena de combate, mas não deixava de exercitar o saudável espírito da análise crítica, inclusive como instrumento de construção do conhecimento espírita.

Todos os grandes pensadores agiram assim. Basta lembrar Sócrates, com sua fina ironia, debatendo com os sofistas; basta rememorar Descartes, com seu método racionalista, desmontando a teologia jesuítica. Toda a história do pensamento humano constitui-se no debate de idéias.

Quando a discussão é implicitamente proibida, cria-se o autoritarismo disfarçado, a idolatria por líderes, que passam a pontificar sem nenhum questionamento, dominando as consciências, e não há progresso e nem liberdade de pensamento.

É isso o que se vê no meio espírita atualmente. Qualquer pessoa pode publicar, falar, pontificar o que for, e ninguém rebate uma vírgula, ninguém faz uma objeção. Por isso, multiplicam-se os absurdos e estamos imersos numa avalanche de frivolidades.

Enquanto não aprendermos a debater sem melindres, a discutir idéias sem paixões pessoais, a criticar construtivamente e a exercitar o livre-exame (que já Lutero propunha há 500 anos), não teremos um movimento espírita esclarecido e progressista, que não engula mistificações tão grosseiras como essa das crianças índigo. Obviamente que só é possível criticar construtivamente a partir de um conhecimento aprofundado das questões. Para isso, é preciso estudar Kardec e procurar sempre ampliar o horizonte cultural.

Filosofia e Filosofia Espírita

1- O que desperta no homem o gosto pela filosofia?

A resposta para essa pergunta nos remonta a um exame geral da atividade pensante do homem na natureza, isto é, não examinar aquilo que ela produz, mas percebê-la como aspecto essencial desse animal homem entre outros animais.

Desse modo, o que caracteriza o homem e o diferencia na natureza é a sua capacidade de pensar. Naturalmente, o homem também sente, em virtude de sua afetividade, mas ele não apenas sente, ele sabe que sente, e nisso está a sua essência: um saber fundamental (consciência) de si e um saber do mundo, do outro.

Mas essa diferença não se limita na percepção de si e do mundo, ela se completa, por assim dizer, na necessidade incontornável de conhecer, compreender racionalmente a realidade e, por consequência, a si mesmo.

A célebre frase que inicia o livro alfa da metafísica de Aristóteles – “Todo homem, por natureza, tem o desejo de conhecer.” – já acentua que por natureza, quer dizer essência, o homem tem o desejo, o impulso de conhecer. Alguns tradutores afirmam que “natureza” não está no sentido de essência, mas sim de meio, de intermediária, ou seja: “todo o homem, por meio da natureza, tem o desejo de conhecer.” Entretanto, mesmo diante de aparentes contradições, vemos na sentença milenar o desejo, o impulso primeiro e constitutivo, portanto, próprio da natureza humana, que impele o homem a conhecer ou tentar conhecer nas formas interrogativas da linguagem: por que? O que é isso (ti tó ov)? Qual a origem? … etc.

Ora, uma vez que a filosofia consiste numa atividade espiritual exaustiva em que o homem mobiliza todo o seu ser para penetrar o quanto puder em todos os meandros do real e abarcá-lo num conhecimento total, sintético, então, à medida que o homem sente o apelo de sua essência, a ânsia voraz do pensamento em entender, ele vê, nessa atividade espiritual exaustiva, nesse procedimento rigoroso e coerente de suas faculdade cognitivas, os meios de realizar a si mesmo e de se integrar de forma consciente na totalidade do real, isto é, vidente de suas causas, origem e seu fim. Eis o que desperta o gosto pela filosofia.

2- Em que Ciência e Filosofia diferem-se e em que se complementam?

De uma forma geral, a ciência transita entre observação e experimentação. Observa algum fenômeno, tenta classificar todos os momentos de seu comportamento, levanta uma ou um conjunto de hipóteses para indicar sua causa próxima ou imediata e então faz uma série de experimentos para derrubar as hipóteses, a que persistir será elevada a categoria de teoria. Contudo, isso tudo não garante a validade absoluta da teoria que tem status de científica, pois seja na observação ou na experimentação pode ocorrer vários tipos de falhas, não ter dado certa importância ou nem perceber algumas características do comportamento fenomênico que mudariam consideravelmente os rumos da pesquisa, tais como imprecisão dos aparelhos de observação e experimentação e tantos outros fatores extremamente contingentes. Nisso podemos perceber, ao contrário do senso comum, que o conhecimento científico também tem suas doses de fragilidade e precariedade.

Em virtude dessa relação estrita entre observação e experiência, a forma do raciocínio indutivo é a que orienta em grande parte o procedimento científico. O raciocínio indutivo consiste no exame dos particulares para remontar a uma causa geral. E, como vimos, o exame desses particulares é mais ou menos preciso.

Se, na ciência, de uma forma geral e bem resumida, examina-se exaustivamente os particulares para se remontar a uma certa generalização mais ou menos válida, até que um evento qualquer não contradiga a teoria, por outro lado, na filosofia temos um movimento inverso, isto é, a meta suprema de indicar os princípios gerais de todo e qualquer evento particular, ou seja, de compreender o múltiplo e o diverso da realidade – totalidade das coisas que são – a partir de sua unidade substancial, e antes ainda, perguntar se há uma unidade que delimita a origem, a essência e a finalidade das coisas que são. No desenvolvimento histórico do pensamento filosófico surgirão três matrizes fundamentais para todas as outras correntes de pensamento: a) a afirmação da unidade no diverso e a sua dimensão qualitativa; b) a negação dessa unidade e, portanto, a relatividade qualitativa das coisas e c) a posição filosófica que sustenta a impossibilidade de afirmar ou negar a unidade do real e, portanto, a impossibilidade do conhecimento humano no que concerne a filosofia, enquanto saber do princípio e da essência.

Outra importante diferença entre Ciência e Filosofia está precisamente na ingenuidade (sem sentido pejorativo) de afirmar o senso de objetividade que impulsiona o cientista: ele pressupõem que há de fato uma realidade independente do sujeito cognoscente,que há uma ordem nessa realidade e que ela é passível de ser apreendida pela capacidade humana de julgar e examinar racionalmente. Ora, essas afirmações implícitas na postura do cientista estão, na mente do filósofo, de forma interrogativa e que o assombram em todo o seu percurso dando origem aos ramos do conhecimento filosófico designados como: cosmologia, ontologia e teoria do conhecimento.

Assim, em verdade o filósofo, desde o inicio, ensaia uma crítica da razão, da natureza humana e da natureza do mundo. Por mais que os avanços indiscutíveis da ciência – porque eles eles estão aí, como materialização do conhecimento realmente conquistado – indicam essa capacidade de conhecimento humano e, portanto, uma certa ordem no real, o filósofo quer demonstrá-las, explicitá-las no discurso racional ou então saber porque isso não é possível.

3- Por que o Livro dos Espíritos apresenta-se sob a denominação de Filosofia Espiritualista?

Essa denominação é para classificar o livro numa identidade generalizada, isto é, indicar que o livro tem algo de comum com aquelas concepções que sustentam a presença atuante de um princípio espiritual na natureza. Toda a filosofia que não apenas tem por objeto o princípio espiritual, mas que sustenta e demonstra sua existência, é espiritualista, mas, ao mesmo tempo, mantém sua unidade conceptual na medida que aborda de um modo extremamente diferente esse princípio espiritual em relação as outras filosofia espiritualistas. Assim, o Espiritismo é uma filosofia espiritualista, mas as outras filosofias espiritualistas não são o espiritismo, uma vez que seu método de abordagem do princípio espiritual difere de modo fundamental das outras filosofias e seu corpo de conceitos delimita de um modo próprio a origem, natureza e destino do princípio espiritual.

Quanto ao objeto, está no rol das filosofias espiritualistas; quanto ao método e as conclusões, difere essencialmente.

4- Por que o Espiritismo é filosofia ?

A Filosofia Espírita se detém na interpretação racional e rigorosa das manifestações do princípio espiritual na natureza, seja individualizado ou não.

Todavia, essa interpretação se ergue numa mundividência, numa visão de mundo, que determina uma ética, uma teodiceia, uma ontologia e todos os ramos principais da filosofia. Seu arsenal conceitual nos fornece elementos para perscrutar o homem, o fenômeno religioso, o mundo em seu constante devir. Não é apenas um método, uma forma de conduzir a razão. É o pensamento humano descobrindo os seus poderes na medida em que desafia os problemas eternamente iguais da existência. Desse modo, o Espiritismo é filosofia, porque desvela o ser no discurso humano, na linguagem dos homens e não dos deuses ou de Deus, como pretende as visões de mundo absolutamente reveladas, cujos postulados comumente contradizem a razão e põem de lado a inquietação e o esforço humanos, em prol de uma aceitação aviltante, estacionando o ser prenhe de possibilidades.

Encarnação do Espírito e Emancipação da Alma

1) Qual o objetivo da encarnação?

     O Espírito é qual centelha consciente do universo, monada espiritual dotada de inúmeras faculdades intelectuais e morais que nos primórdios de sua existência se manifesta simples e ignorante, quer dizer, todas as possibilidades Continuar lendo