Aprender a morrer

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Aprender a morrer

 

     Um dos períodos mais fecundos da filosofia se encontra na antiguidade clássica. Julgamos que é neste momento histórico que ela melhor revela suas potências para a elevação do espírito humano precisamente porque Continuar lendo

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Platão: A metafísica

“A desgraça, enfim, é o ópio do esquecimento, que buscais com o mais ardente desejo.”

                           (Delphine de Girardin, A verdadeira Desgraça, ESE)

Objetivo: Entender por que Platão é precursor do Cristianismo, o que existe de comum entre Platão e a Filosofia Espíirita, assim como as diferenças e perceber as várias formas de conhecimento até atingir o ser-em-si.

1-Podemos relacionar o mundo platônico das ideias com a pátria espiritual espírita?

O mundo das ideias é uma realidade em si mesma, divina e imutável, que constitui o conjunto das essências e ideias modelos de todas as formas materiais e valores éticos e estéticos, de modo que o mundo fenomênico é um simulacro da única realidade.

A pátria espiritual na concepção espírita não tem relação conceptual com o mundo das ideias, pois o plano espiritual também é fenomênico, dinâmico, está no espaço e no tempo. A concepção de realidade no Espiritismo comporta tanto as dimensões materiais como espirituais, uma vez que há dois elementos gerais do universo, substancias em si mesmas que integrando-se constituem o real: o princípio inteligente e o princípio material.

Desse modo, a totalidade do real se expressa em hipóstases, em planos de existência que variam de características segundo a predominância do elemento material ou espiritual. Naturalmente, nas hipóstases da existência onde o Espírito se expressa na plenitude de sua natureza igualmente transforma a tal ponto o elemento material que o envolve – perispírito -, sofrendo quase que uma transmutação de sua natureza material pela sublimação de seus elementos.

O mundo das ideias, numa perspectiva ética, pode infundir certa aversão ao mundo material, que é entendido como simulacro, como algo menor e que por vezes merece menosprezo. No Espiritismo não há nenhum desmerecimento aos mundos materiais. Eles são entendidos como “as muitas moradas na casa do Pai”, os educandários celestes em que Deus lança as centelhas divinas – os Espíritos – para germinar e desenvolver a sua natureza, e mais ainda, tais mundos materiais concorrem para a harmonia geral de toda a criação.

2- O conceito platônico de ideias inatas é o mesmo abordado em O Livro dos Espíritos? Justifique.

As ideias inatas em Platão estão na base de sua teoria do conhecimento, porque elas justificam o processo de reminiscência em que a alma encarnada pode relembrar a visão que teve das ideias que dão origem a todas as formas sensíveis, portanto, das essências que pairam no mundo das ideias de onde ela partiu.

Nessa perspectiva, as almas, antes de encarnar, tem a visão das ideias originárias. No Espiritismo, a origem das ideias inatas é totalmente outra. Não nega as ideias inatas, mas lhe são atribuídas outra causa.

Pelo fato de o Espírito não se encontrar encarnado, isto é, preso por uma rede sensorial que limita sua capacidade de percepção, não decorre que ele esteja apto a contemplar as altas verdades da existência, pois ele é criado simples e ignorante, e isso quer dizer que tem tudo a fazer e a desenvolver a si mesmo, de modo a aprender a utilizar a razão e a intuição para apreender a essência do real e dos valores. Assim, o Espírito alterna do plano espiritual para o material, em contínuo processo de amadurecimento de suas potências.

Desse modo, a causa das ideias inatas está no trabalho do Espírito no tempo, seja na matéria densa ou não; são o conjunto das aquisições penosamente conquistadas num espaço de tempo que tornam-se-lhe atributos inalienáveis, porque estão relacionados à sua essência. Essas aquisições, em uma nova encarnação, se manifestam como disposições intelectuais ou morais, muitas vezes sem ação da educação e do incentivo do meio, como habilidade admirável para determinada tarefa, como uma facilidade incomum para aprender determinadas disciplinas.

Numa perspectiva ainda mais radical, ou seja, no tocante as origens, a Filosofia Espírita aponta para princípios inatos que não são oriundos do trabalho do Espírito no tempo, tais como: o impulso de transcendência que determina de modo a priori a saga pelo progresso; o sentimento intuitivo e a priori da existência de Deus,que posteriormente recebe formulação conceptual; e a própria estrutura da consciência que traz em si mesma as leis morais e estéticas.

Dizemos a priori, no sentido de que tais impulsos e princípios não são introjetados pela experiência, educação, domesticação ou pelo processo civilizatório, como pretendem algumas filosofias relativistas e encerradas no paradigma antropológico e historicista.

3- Do ponto de vista da moral, a qual nível da caverna corresponde a humanidade hoje? Desenvolva.

O mito da caverna apresenta os diferentes graus de percepção da realidade que a alma encarnada vai alcançando no desenvolvimento de suas potências. Encerrada em si mesma, no torvelinho da imaginação, se relaciona com uma realidade que é mais produzida por si mesma do que de fato percebida; aos poucos abre-se para as coisas visíveis, transpondo lentamente suas imagens mentais para se entreter quase que absolutamente com os objetos. Então, nesses dois primeiros momentos da percepção, a realidade que se apresenta ao Espírito é tão somente o conjunto da suas imagens mentais e das coisas sensíveis. Sua visão não vai além disso, seu pensamento não consegue ultrapassar a fronteira das imagens e das coisas.

Porém, o desenvolvimento da alma continua e entre as exigências da vida sensível a razão se insinua, suas luzes começam a despontar e a alma se apropria do raciocínio dedutivo (dianóia). Então, a luz natural da razão se fazendo presente, a percepção da realidade se transforma, se amplia, e o pensamento rompe o círculo das imagens e das coisas para se ocupar com os objetos matemáticos e os entes de razão. A caverna será superada, ela já não mais limita de modo completo a percepção da alma, que aos poucos se identifica mais com os objetos ideais do que com os sensíveis. Com o desenvolvimento da intuição (noesis), a alma conquista sua faculdade mais elevada, pois a intuição permite a percepção imediata da realidade em si, para além do simulacro e dos fenômenos que mais ocultam a essência das coisas.

Vemos que a alma percorre um longo caminho em que suas potências se afloram até a visão da suprema realidade. Nessa perspectiva platônica, a humanidade contemporânea se encontra no limar da percepção intuitiva, que a colocará em franca relação com a realidade espiritual imanente ao mundo, mas que não é conhecida. Então, será o golpe fatal ao paradigma materialista, ou seja, ao conjunto de ideias que reduz toda a realidade ao princípio material ou que exclui toda e qualquer possibilidade da existência do princípio espiritual. Na verdade, desde a explosão mediúnica nos anos do século XIX, essa realidade espiritual já se faz patente, por suas manifestações, mas poderemos entender como causas exógenas. Por outro lado, a erupção da faculdade intuitiva entre os homens é uma causa endógena, advinda da sua própria constituição.

É necessário explicitar que a intuição também se constitui de inúmeros graus até a visão do Bem. Desse modo, a filosofia da educação em Platão é voltada inteiramente para a alma, no sentido de aprender a ver pelo Espírito e alcançar o estante supremo da contemplação.

4- Busque, com suas palavras, relacionar algumas ideias que justifiquem o fato de Platão ser precursor do Espiritismo.

Allan Kardec, na introdução em O evangelho segundo o Espiritismo, estabelece Sócrates e Platão como precursores da doutrina cristã e do Espiritismo, e isso se justifica porque os filósofos sustentam os seguintes princípios:

    • A pré-existência da alma e sua sobrevivência após a destruição do corpo. A imortalidade da alma é sustentada não como a mera permanência de um princípio anímico em geral, e sim a individualidade indestrutível, ou seja, a consciência que permanece em face da corrupção sensível.

    • A palingenesia como processo de múltiplas gerações ou encarnações em que se realiza a paideia (educação) da alma até a contemplação do Bem absoluto;

    • O Bem absoluto entendido como realidade suprema e, portanto, a fonte dos valores morais e estéticos que, assim, não se reduzem ao relativismo das épocas e das conveniências.

Desse modo, as luzes do monoteísmo, da imortalidade da alma e da sua elevação pelas vidas sucessivas, já são lançadas em grande profusão nas paragens terrenas, pois, como ensina Kardec: “As grandes ideias nunca aparecem de súbito. As que tem a verdade por base contam sempre com precursores, que lhes preparam parcialmente o caminho. Depois, quando o tempo é chegado, Deus envia um homem com a missão de resumir, coordenar e completar o elementos esparsos, com eles formando um corpo de doutrina”. Naturalmente, o Espiritismo é essa síntese dos conhecimentos mais elevados da vida que foram propagados no lento processo civilizatório; reune em si as verdades esparsas e ao que estava confuso e velado, traz a chave da interpretação racional à luz da fenomenologia mediúnica. Não é obra de um homem tão somente, mas dos “Espíritos do Senhor, que são as virtudes dos céus, como um imenso exercito que se movimenta, ao receber a ordem de comando, espalham-se sobre toda a face da terra. Semelhantes as estrelas cadentes, vêm iluminar o caminho e abrir os olhos aos cegos.”

Bibliografia

IEEF. Princípios da filosofia espírita. São Paulo: IEEF, 2012.

KARDEC, ALLAN. O evangelho segundo o Espiritismo. São Paulo: Lake, 2011.

KARDEC, ALLAN . O livro dos Espíritos. São Paulo: Lake, 2010.

KARDEC, ALLAN. A Gênese. São Paulo: Lake, 1999.

MORENTE, M. G. Fundamentos de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

PIRES, J. HERCULANO. Introdução à filosofia espírita. São Paulo: Paidéia, 2005.

Sócrates, Espiritismo e Revolução Conceptual

Objetivo: Compreender a diferença filosófica entre conceito e opinião, o processo de representação conceptual da realidade e de como o autoconhecimento converge pedagogia e terapia da alma.

 

“A filosofia é um treino de morrer e estar morto”  Sócrates – Fédon

 

1- Como podemos associar o autoconhecimento pregado por Sócrates com a Filosofia Espírita?

Com os sofistas o conhecimento se torna uma espécie de invenção da medida humana, isto é, da faculdade de julgar que submete todas as coisas aos seus critérios particulares. Então, o conhecimento é um conjunto de opiniões razoáveis acerca de qualquer assunto e a legitimidade dessas opiniões se sustentam em critérios subjetivos e retóricos e não em critérios objetivos e lógicos. O conhecimento cujo referencial é puramente subjetivo não permite uma unidade do saber e das ideias no tocante aos problemas e objetos universais da experiência humana, tais como: coragem, destino, felicidade, justiça, dever, beleza, virtude, etc.

Assim, Sócrates, em um primeiro momento, se preocupa com o conjunto das opiniões que dominam a mente das pessoas, opiniões que elas defendem e nem sabem por quê e qual o seu fundamento. Então, convida o indivíduo a mergulhar em sua própria interioridade. Através do diálogo, insta-o a fazer uma introspecção investigativa, analisando o seu próprio pensamento, sua visão de mundo, as noções morais que acalenta e se há realmente uma compreensão dessas noções. Desse modo, faz perceber que no fundo de seu saber há uma ignorância originária, que é precisamente perigosa por não ser percebida ou confusamente camuflada, escondida.

Esse autoconhecimento que Sócrates propõe faz com que o indivíduo, ao invés de ficar proferindo uma avalanche de opiniões e ideias, segundo as conveniências e os interesses particulares do momento, sem se preocupar com a ética do discurso, antes perceba a confusão de seu pensamento, a inconsistência de suas ideias, em uma palavra, em perceber que de fato não sabe praticamente nada e que é necessário passar da postura de mero opinador ao sujeito que detém o conceito do objeto de que se quer tratar.

Na Filosofia Espírita a interioridade, cujo núcleo essencial é a consciência, também é fator preponderante para o conhecimento e vivência da verdade. Pois o objetivo de Sócrates com a maiêutica, que leva ao autoconhecimento, é fazer com que o indivíduo manifeste sua própria razão a fim de julgar a si mesmo com coerência e reconhecer os limites que lhe são próprios e, na Filosofia Espírita, a consciência encerra em si mesma os princípios éticos universais que devem orientar o homem na sua existência. Assim, o homem deve conhecer a si mesmo, ou seja, pela reflexão, debruçar sobre si mesmo e reconhecer as paixões que o dominam, as inferioridades que tisnam seu caráter e, orientado pelos imperativos salutares da consciência, iniciar sua educação, seu melhoramento, efetivamente, seu desenvolvimento intecto-moral.

Tanto em Sócrates como na Filosofia Espírita, o autoconhecimento tem um aspecto pedagógico e terapêutico: ambos querem libertar o homem da ignorância do verdadeiro Bem e da Verdade, e curar, por assim dizer, o homem das doenças morais e fazê-lo alcançar a felicidade pela prática da virtude (areté). O conhecimento tem uma finalidade ética, diferente dos sofistas que querem uma promoção do sujeito a qualquer custo, mesmo em detrimento da Verdade.

2- Sócrates distingue os predicados essenciais dos predicados acidentais do sujeito. Como podemos associar tal concepção com o pensamento cristão?

Ao abordar o homem, Sócrates se detém naquilo que o determina e o permite ser tal como é. Então, os predicados essenciais são concernentes as qualidades fundamentais do homem, de maneira que sem essas determinações ele não existiria. De outro modo, os predicados acidentais se referem aos elementos contingentes da constituição humana, sem os quais não alteram em nada seu verdadeiro ser.

Como vimos, em face do relativismo sustentado pelos sofistas, Sócrates propõe que o conhecimento e antes a sua busca seja baseada na apreensão da essência do objeto, superando com isso a mera opinião no esforço dialético de dizer o que é tal coisa. À pergunta: o que é? Interroga-se pela essência, por aquilo que permite o objeto ser.

Assim, a essência do homem é a alma, sem a qual ele deixa de ser; seu corpo pode sofrer inúmeras transformações, como sofre, seja pelo fluir natural ou por patologias várias, e isso caracteriza os predicados acidentais, contudo ele não deixa de ser humano. Na perspectiva do pensamento cristão isso é extremamente importante, pois se aborda o homem também a partir de sua essência, de sua realidade fundamental. Sócrates prepara as bases do pensamento cristão, oferecendo elementos conceptuais para a ideia de igualdade, fundamentada na realidade essencial do homem e não nas suas variações biológicas, fisiológicas e sociais; para a ética igualmente voltada ao essencial e para uma possível relação com o corpo de modo a evitar escravidão, submissão e aviltamento da realidade fundamental humana, a saber, a alma.

3- Em que medida os conceitos socráticos de alma e de Deus preparam o pensamento espírita?

Vemos os princípios elementares da Filosofia Espírita serem elaborados lentamente no próprio processo histórico do conhecimento, tanto nos pré-socráticos como agora com Sócrates, pois esse concebia não só a independência da alma em relação ao corpo, como a sua pré existência e que seu destino também está sujeito a palingenesia (vidas sucessivas).

4- Em que consiste o conceito? A Filosofia Espírita é conceptual? Exemplifique.

O conceito consiste precisamente em apreender a essência do objeto, ele é uma representação mental tanto de fatos como de valores. Por apreender a essência, ele se detém nos aspectos gerais e universais do objeto, por isso o conceito, quando é realmente concebido, ele se mostra atemporal, não é passível de mudança, pois seus sentido repousa na representação conceptual da essência. Dizemos – quando é concebido – porque nos mantemos na perspectiva do método socrático. Com efeito, Sócrates, através do diálogo, insta o interlocutor a executar dois movimentos no processo de autoconhecimento: primeiro a descida, em que purga a mente das opiniões e ideias confusas; segundo, a ascese, em que, por meio de interrogações sucessivas, faz a alma ascender paulatinamente à visão do objeto a ser concebido, então, concebe o conceito do objeto, porque vislumbrou sua realidade sem a deturpação das opiniões que lhe embaralhavam a mente.

A filosofia é esse exercício lento, rigoroso e meticuloso do conjunto dos conceitos com os quais tentamos conhecer a nós mesmos e toda a realidade, pois geralmente as ideias e os conceitos que acalentamos na mente são concebidos de forma errônea, sem exame, sem reflexão, são inconsistentes e representam de forma muito vaga e imprecisa a realidade do objeto.

Há posições filosóficas que sustentam que os conceitos são fabricados, são invenções, elaborações da mente humana, porque o que existe é apenas o particular, o contingente, o singular, o inapreensível pelas categorias da razão, e o conceito pretende abarcar os aspectos universais do objeto e aquilo que o fundamenta. A representação conceptual da realidade é uma representação fixista e incapaz de apreender as contingências dos objetos particulares – e é só isso que na verdade existe.

Todavia, a Filosofia Espírita é conceptual, isto é, pensa a realidade, os fatos e os valores por meio dos conceitos. Fundamentada em princípios da razão, seja por dedução de regras gerais e axiomas ou por indução, através de inferências da observação da realidade e de experiências mediúnicas, elabora conceitos, mas não reduz o real à representação conceptual, pois admite a intuição como meio de conhecer aquilo que o conceito não apreende. Não compreende o conceito tão somente como invenção, no sentido de que não revela ou não corresponde a uma realidade em si mesma e passível de ser apreendida, tanto na ordem dos fatos como na ordem dos valores. Se mantém na posição socrática: o intelecto pode gradativamente apreender a totalidade das coisas que são em si mesmas, independes da mente; a ordem do pensamento deve se ajustar a ordem do ser; o logos do indivíduo pode se ajustar ao logos imanente do Cosmos.

Por isso que o campo de batalha do Espiritismo é precisamente no campo da ideias, dos conceitos que encerram a mente humana na perspectiva materialista e organocêntrica. Sua missão é promover uma revolução conceptual, ou seja, uma renovação completa das ideias, dos princípios, da concepção de vida, dor e destino.

O conceito é como um intermediário entre sujeito e realidade. O sujeito só poder acessar o real pela representação conceptual. Quando o conceito não apreende de fato o real, se estabelece uma esquizofrenia intelectual, e o Espiritismo vem precisamente estreitar essa relação do sujeito com sua realidade espiritual, reelaborando o conceito de vida, corpo, espírito, destino, etc., para que seu intelecto se adeque verdadeiramente a realidade em que ele está inserido ontológica e existencialmente, mas que não pode ainda perceber pela inconsistência e imprecisão das ideias que pavoneiam em sua mente e que devem sofrer rigoroso exame à luz dos fatos mediúnicos, donde dimana toda a Filosofia Espírita.

O Espiritismo, renovando a concepção geral da vida e estabelecendo o paradigma imortal do Espírito, é também a força propulsora e a substância de um novo ciclo civilizatório que se inicia e uma transformação imponderável de todas as ramificações da cultura, porque repousa nos fundamentos do real, instituídos por Deus.

Bibliografia

IEEF. Princípios da filosofia espírita. São Paulo: IEEF, 2012.

KARDEC, ALLAN . O livro dos Espíritos. São Paulo: Lake, 2010.

KARDEC, ALLAN. A Gênese. São Paulo: Lake, 1999.

MORENTE, M. G. Fundamentos de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

PIRES, J. HERCULANO. Introdução à filosofia espírita. São Paulo: Paidéia, 2005.

Os sofistas e a relatividade do conhecimento

Objetivo: Demonstrar a formação da ideia de lei natural e lei humana, assim como a concepção da relatividade do conhecimento e a perspectiva da Filosofia Espírita entorno da problemática sofística.

1- Em que consistia a lei natural e a lei humana à época dos sofistas?

A physis é a totalidade das manifestações que são regidas por uma lei (nomos) que garante a ordem e a harmonia do todo. Essa lei é entendida como natural, isto é, própria da physis, cuja a regulação abrange todas as instâncias da natureza, incluindo nisso a regulação dos agrupamentos humanos. De tal modo, que a ordem social estabelecida, bem como os valores inerentes a essa organização, é também uma ordem natural, ou seja, sua estrutura segue as determinações da própria physis. Então, as diferentes castas da sociedade são determinações de uma lei natural, que não só ordena a sociedade humana, como estrutura todo o Cosmos. Está identidade entre ordem social e ordem cósmica, determinadas pela lei (nomos), é o que sustentava a hegemonia da aristocracia na liderança e administração das cidades-estado – tal casta está ali pela ordem das coisas e ali deve continuar.

Os sofistas vem precisamente por em questão a origem da lei (nomos) e consequentemente de toda uma estrutura social, que supostamente é determinada por uma ordem divina, por uma ordem cósmica, e sustentam que a lei (nomos) é antes convenção humana, que se impõe pelo poder e pelo costume, pela tradição, e não uma determinação divina intrínseca a manifestação da physis.

Colocando a lei (nomos) no âmbito humano e retirando sua roupagem natural e divina, então ela pode ser discutida, reelaborada. E, uma vez que a lei (nomos) tem um caráter extremamente flexível, pois é dependente da medida humana, consequentemente a estrutura social também é passível de infinitas reelaborações, bem como os valores acerca do bem e do mal, belo, útil, dever e etc. Desse modo, as especulações políticas e as ambições sociais ganham peso irreversível na Grécia antiga e os sofistas se pretendem mestres da juventude que deve se impor e renovar os quadros sociais segundo, em última instância, seus interesses pessoais. Com os sofistas a sociedade humana se desprende do suposto determinismo cósmico, para se reelaborar constantemente, segundo as medidas e interesses humanos.

2- Em que esse conceito difere da Lei Natural para a Filosofia Espírita?

Dizer que há lei natural é antes sustentar que há um princípio objetivo, independente das relações entre os homens e que garante a origem da ordem, do bem e de todos os valores que os homens mais ou menos compreendem.

O Espiritismo sustenta que há a lei natural, porque há um princípio absoluto do qual provém toda a ordem e todos os valores para a manifestação da vida. Esse princípio é Deus.

Assim, a Lei Natural é o conjunto das leis divinas estabelecidas por Deus e a sua finalidade última é manter a soberana Justiça em todas as manifestações da natureza, diferente da concepção grega de lei natural que por ela justifica as desigualdades sociais e a predominância abusiva de uma casta e por isso mesmo foi passível da crítica sofística.

3- O homem é a medida de todas as coisas, afirma Protágoras. Explique essa frase com suas palavras.

O homem é o centro das reflexões dos sofistas, que se distanciam das questões da natureza e da cosmologia para se preocuparem com o homem inserido na cidade e na sua formação para atuar nessa cidade. Ele é a medida porque a sua percepção da realidade está condicionada aos sentidos, de modo que as coisas são ou não são em virtude de como ele as percebe. Assim, o conhecimento é subjetivo, no sentido de que as coisas, para serem percebidas, se adequam aos meios de percepção humana.

Desse modo, a natureza e a sua possível verdade está sujeita ao homem, aos seus critérios humanos, que podem variar ao infinito. E os sofistas se ocupam de oferecer as melhores técnicas da retórica para que os homens consigam fazer prevalecer suas percepções particulares acerca de qualquer assunto, objeto, problema. Pois, sendo o homem a medida de todas as coisas, não existe “a verdade” acima de sua medida particular, mas apenas opiniões verdadeiras que se destacam pela aplicação da melhor técnica oratória.

4- Em que sentido a Filosofia Espírita admite o relativismo do conhecimento?

Para a Filosofia Espírita o relativismo do conhecimento é concernente a condição evolutiva do sujeito cognoscente e não ao objeto do conhecimento. Por exemplo:

O homem é um Espírito encarnado que sofre inúmeras influencias do seu condicionamento, tais como a organização do corpo físico e a disposição dos órgãos que servem para a captação das impressões do real, assim, a precisão e qualidade de sua percepção do real depende dos instrumentos do seu corpo físico. Por isso que seu conhecimento é sempre relativo e a causa da relatividade está no seu condicionamento e no grau de evolução em que estagia, e não no objeto a ser conhecido. Sendo assim, independente da percepção relativa do homem, há uma realidade objetiva, em si mesma e com sua dinâmica própria, para além da medida humana.

Assim, é do mesmo modo passando dos fatos aos valores. Por exemplo:

Os sentimentos morais, as noções de Justiça, Beleza, Verdade, são a priori no Espírito, constituem sua estrutura consciencial. Mas a compreensão desses princípios morais e estéticos é relativa e também gradativa. A razão se desenvolve no tempo e assim o homem se aproxima progressivamente do sentido intrínseco desses princípios. Todas as culturas e as civilizações são uma materialização ou concretização, por assim dizer, da compreensão relativa dos princípios inatos da consciência. Portanto, não são as relações e os costumes humanos que engendram variadas concepções de Verdade, Justiça e Beleza, pelo contrário, essas concepções relativas são simples consequências de um nível de compreensão que um determinado agrupamento humano alcançou, por isso há concepções que variam do grotesco ao sublime, dependendo isso unicamente do desenvolvimento racional e espiritual.

Desse modo, os sentimentos e valores morais e estéticos são em si mesmos, constituem uma realidade própria e, portanto, não são relativos, isto é, dependentes tão somente da medida humana. Sua origem não é histórica nem antropológica, pois independem do ser humano para existirem e se manifestarem na criação, pois sua origem está na realidade divina, única causa da Justiça, do Bem e do Belo.

Bibliografia

IEEF. Princípios da filosofia espírita. São Paulo: IEEF, 2012.

KARDEC, ALLAN . O livro dos Espíritos. São Paulo: Lake, 2010.

KARDEC, ALLAN. A Gênese. São Paulo: Lake, 1999.

MORENTE, M. G. Fundamentos de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

PIRES, J. HERCULANO. Introdução à filosofia espírita. São Paulo: Paidéia, 2005.

Heráclito – a guerra (Πόλεμος) é mãe e rainha de todas as coisas

A única atitude sensata que poderíamos assumir, dentro do rio, seria a de nos deixarmos levar pelas águas. Mas estamos demasiado cônscios da nossa personalidade, demasiado convencidos da nossa individualidade, do nosso eu, e temos medo de nos dissolvermos nas águas, de deixarmos de ser nós mesmos. Então, cheios de angústia, nos agarramos às raízes do barranco, nos penduramos aos ramos que se debruçam sobre o rio, nos abraçamos uns aos outros ou nos troncos que rolam ao sabor das águas, ou ainda, mais desesperados, nos apegamos às pedras que repontam, agudas e ásperas, do leito lodoso. E assim nos defendemos. Mas é uma defesa desesperada, pois as águas são mais fortes do que nós e não cessam de passar. Sofremos e nos angustiamos. Entretanto, se compreendêssemos que as águas não são inimigas, que são, pelo contrário, o elemento em que vivemos e que o seu impulso é benéfico, tudo se resolveria facilmente. Sem relutância, nos entregaríamos à correnteza. E ela, suave e leve como um córrego a levar uma flor, nos conduziria através das paisagens conhecidas e desconhecidas, rumo ao nosso verdadeiro destino.

Essa imagem nos lembra aquela passagem evangélica, tão obscura para os que não compreendem o sentido da vida: “aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas aquele que a perder por amor de mim, salvá-la-á”.

Disse o padre Alta, no seu admirável livro O Cristianismo do Cristo e o dos seus vigários, que Jesus está para nós na posição de um grande nadador, ensinando-nos a nadar. A imagem condiz com a que expusemos acima. E é por isso que ele nos ensinava a nos entregarmos às águas, sem temor de perder, com isso, a nossa vida.

Quanto mais um homem se apega às suas idéias pessoais, aos seus caprichos, aos seus sistemas, mais se distancia dos outros, mais se afasta da vida. Quem não conhece esses temperamentos confinados, essas criaturas ranzinzas, cheias de “coisinhas”, que estão sempre de prevenção contra tudo e contra todos? Pois não são outra coisa senão indivíduos agarrados fortemente às raízes do barranco. Eles se defendem da vida e dos homens, querem viver a seu modo, fechados nos seus costumes. Quem quiser tirá-los para fora da cova mental e psíquica em que eles se meteram, por vontade própria, será considerado inimigo. No entanto, se os levarmos a um médico psiquiatra, este os considerará enfermos, que de fato o são, e lhes receitará os meios necessários à libertação.

                             (O Sentido da Vida, Herculano Pires)

1- Segundo a célebre afirmação de Heráclito, nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio. O que isso significa?

Esta conclusão do filósofo está baseada na observação de que tudo flui em a natureza. Para Heráclito, o que subjaz e é a causa dos fenômenos é o movimento, donde tudo nele é e a totalidade é movimento.

Assim, aquilo que é, é movimento, de modo que a permanência é mera aparência, fixação dos sentidos, decorrendo disso, que o rio, como todas as coisas, está fundado na impermanência, ou seja, num vir-a-ser constante.

2- A luta dos opostos é necessária para a transformação da natureza. Exemplifique.

O movimento inerente a manifestação da natureza segue uma ordem, que Heráclito denomina a luta dos opostos.

O vir-a-ser é a relação entre os opostos ou só se dá nessa relação, por exemplo, a criança se torna em adulto, o adulto em velho, e um só pode ser em relação ao outro, de modo que os contrários se complementam na manifestação de todos os fenômenos: o frio só pode ser em relação ao quente, o dia em relação a noite, o pequeno em relação ao grande, e etc.

A ordem natural é a ordem dos opostos que não se contrapõem, mas se complementam. Dessa forma é que Heráclito denomina a guerra (pólemos – Πόλεμος) como rainha de todos as coisas, que também fundamenta a harmonia de toda a natureza, pois sem seu contrário algo não pode ser nem vir-a-ser. A harmonia do todo vem da guerra entre as partes, no sentido de que é no constante sobrepor-se dos opostos que a unidade do real se mantém.

Então, Heráclito caracteriza o movimento (kinesis) determinado por uma lei intrínseca, que consiste na relação entre os opostos, e não num mero movimento de destruição e aparição das coisas de modo caótico e aleatório.

3- Em que consiste o conceito de multiplicidade para Heráclito.

Em Heráclito a multiplicidade é também unidade, porque nada é sem o seu oposto.

Conceber as coisas de modo separado não é conhecimento, é ilusão, é fixação por uma parte do uno que se apresenta no múltiplo.

O Ser é múltiplo, porque está constituído de oposições internas ou é unidade que contém o múltiplo. Em Heráclito essas duas ideias são essenciais para pensar o Ser.

4- Em que medida a teoria de Heráclito oferece um argumento lógico para a teoria da reencarnação?

Uma vez que o movimento é ordenado por uma lei que consiste na relação dos opostos, e a partir do qual tudo é em a natureza, podemos identificar no aforismo heraclitiano – “Dos mortais surgem os imortais e destes os mortais.” – uma espécie de princípio cosmológico da reencarnação.

A reencarnação consiste basicamente na união do princípio anímico, que é imortal, com as formas perecíveis, mortais, da natureza. Então, quando os mortais surgem no mundo, é porque estão animados pelos imortais, que ressurgirão em sua plenitude após o processo de perecimento dos mortais.

Assim, entendemos que os opostos não se anulam, mas se complementam para a manifestação da vida. Se meditarmos atentamente, perceberemos que a concepção cosmológica de Heráclito leva necessariamente ao princípio da reencarnação, claro que não exposta explicitamente e em seus detalhes, mas já implicada nas premissas e nessa visão extremamente original da natureza, posto que simples.

Bibliografia

IEEF. Princípios da filosofia espírita. São Paulo: IEEF, 2012.

KARDEC, ALLAN . O livro dos Espíritos. São Paulo: Lake, 2010.

KARDEC, ALLAN. A Gênese. São Paulo: Lake, 1999.

MORENTE, M. G. Fundamentos de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

PIRES, J. HERCULANO. Introdução à filosofia espírita. São Paulo: Paidéia, 2005.

PIRES, J. HERCULANO. O sentido da vida. São Paulo: Paidéia, 2005.

Os Pré-socráticos – A Physis e o Fluido Cósmico

 

Objetivo: Compreender a origem do pensamento que culminou nos conceitos de princípio material e fluido cósmico.

1- Em que consiste a arché e a physis dos pré-socráticos?

Importa considerar que a formulação dessas ideias caracterizam um momento superior das concepções do pensamento grego, pois elas evidenciam um esforço para o advento do discurso racional sobre o mundo e seus mistérios e um distanciamento progressivamente sistemático das explicações das narrativas míticas.

Os pré-socráticos ou fisiológoi, como também eram chamados, exercem um papel social importante, na medida em que se tornam uma força descentralizadora, mostrando outras vias de conhecimento sobre a realidade profunda da natureza que não seja a mitologia, mantida por uma tradição e guardada pela casta sacerdotal e pelo rei-sacerdote – que são efetivos representante do conhecimento das origens. Essa passagem do mito à filosofia exige um minucioso exame do quadro social da época e das muitas consequências políticas e religiosas que um pensamento racional que se vai elaborando causa.

Assim, os pré-socráticos tentam entender a natureza a partir das exigências da razão, não mais encarando seus fenômenos como efeitos de nascimentos, guerras, mortes, lutas entre os deuses ou entre os deuses e os homens.

Impelidos pela razão, tentam encontrar a arché, isto é, o princípio, a origem de todas as coisas. O pensamento filosófico nascente dos gregos se caracteriza pela sua objetividade: eles iniciam as suas indagações a partir da constatação do movimento inerente a todas as manifestações da natureza. A pergunta pela arché (princípio), é a busca pela causa primeira de todas as coisas, em face da constante transformação da natureza: o que permanece como fundamento e causa das transformações? A unidade ordenando a multiplicidade, a substância pela qual tudo deriva delimita o conceito de physis, ou seja, de natureza última das coisas, bem como o próprio processo de manifestação – aquilo que permite a coisa vir à luz da realidade.

Desse modo, no fragmento 123, Heráclito diz: “A natureza ama esconder-se”, ou seja, ao mesmo tempo em que todas as coisas se manifestam por meio da physis, ela mesma fica oculta, pois ela está “atrás” do fenômeno, lança o fenômeno à luz, sem vir à luz, então se dá o paradoxo cósmico – quando tudo se manifesta a única realidade se oculta.

2- Como associar o conceito de physis de Tales de Mileto à Filosofia Espírita?

Para Tales a água é a matéria-prima de todas as coisas e, portanto, todas as manifestações da natureza são transformações da água.

Na antiguidade a água era encarada como elemento gerador. Assim vemos em Gênesis, quando o Espírito de Deus pairava sobre as águas antes da criação, ou quando Jesus afirma a Nicodemos que “é necessário nascer da água e do Espírito para entrar no Reino de Deus.”

Assim, o Espiritismo interpreta o simbolismo da água como o elemento material primordial que constitui os seres, onde se deduz claramente que “nascer da água e do Espírito” é sofrer o processo da reencarnação, onde se elabora um novo corpo físico oriundo dessa matéria primordial para que o Espírito o habite em um tempo mais ou menos longo a fim de se depurar.

3- Em que medida o movimento do aperion para Anaximandro aproxima-se do movimento do fluido cósmico?

O conceito de movimento (kinesis) está intimamente relacionado com o conceito de natureza, pois a própria physis é ação constante, onde da unidade surge a multiplicidade e a multiplicidade retorna para a unidade.

Em Anaximandro essa unidade é o aperion, o indeterminado, o ilimitado, sendo a natureza (totalidade das coisas que são) a determinação do indeterminado. O processo de delimitação do aperion se dá por um movimento de segregação, diferenciando a uniformidade, daí surge os vários elementos e estados da matéria que, por sua vez, constituirão a multiplicidade do real. A agregação constitui o movimento inverso do múltiplo para a unidade.

O movimento do fluido cósmico se assemelha perfeitamente com o movimento do aperion de Anaximandro. Em A Gênese, Allan Kardec se aprofunda no estudo do elemento material do universo, verificando que a modificação do fluido cósmico dá origem aos seres materiais, bem como os mundo que ocupam o espaço infinito.

Essa modificação se dá por condensação ou rarefação do fluido cósmico, mantendo a diferença básica e fundamental que o princípio do movimento não está na matéria primitiva e sim no princípio inteligente, que é o agente da modificação.

4- Porque poderíamos interpretar o princípio material como sendo a arché?

O princípio material é a substância primitiva de todo o Universo, está em todas as coisas, é a base de todas as outras substância. A modificação que ele sofre pela ação do princípio inteligente é a causa das infinitas variedades e modalidades em que ele se apresenta.

A relação entre a arché dos pré-socráticos e o princípio material da Doutrina Espírita se tornam bem claras e, assim, podemos verificar como os princípios da Doutrina Espírita tem suas raízes nos mais antigos esforços racionais de grandes pensadores.

Bibliografia

IEEF. Princípios da filosofia espírita. São Paulo: IEEF, 2012.

KARDEC, ALLAN . O livro dos Espíritos. São Paulo: Lake, 2010.

KARDEC, ALLAN. A Gênese. São Paulo: Lake, 1999.

KARDEC, ALLAN. O evangelho segundo o Espiritismo. São Paulo: Lake, 2011.

MORENTE, M. G. Fundamentos de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

PIRES, J. HERCULANO. Introdução à filosofia espírita. São Paulo: Paidéia, 2005.