O primado da humildade

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O primado da humildade

 

     A virtude da humildade não impõe a negação da inteligência, como se fosse uma exigência moral que determina a manutenção da ignorância, ou ainda que a ignorância é condição necessária para se acreditar em Deus. Um dos maiores estratagemas do Continuar lendo

Espiritualismo… mas com muitas ressalvas

Por que o Livro dos Espíritos apresenta-se sob a denominação de Filosofia Espiritualista? 

     Com esta proposição – Filosofia Espiritualista – Kardec já deixa claro a classificação geral em que se enquadra a cosmovisão espírita que se apresenta na paisagem cultural do mundo.   Continuar lendo

Filosofia e Filosofia Espírita

1- O que desperta no homem o gosto pela filosofia?

A resposta para essa pergunta nos remonta a um exame geral da atividade pensante do homem na natureza, isto é, não examinar aquilo que ela produz, mas percebê-la como aspecto essencial desse animal homem entre outros animais.

Desse modo, o que caracteriza o homem e o diferencia na natureza é a sua capacidade de pensar. Naturalmente, o homem também sente, em virtude de sua afetividade, mas ele não apenas sente, ele sabe que sente, e nisso está a sua essência: um saber fundamental (consciência) de si e um saber do mundo, do outro.

Mas essa diferença não se limita na percepção de si e do mundo, ela se completa, por assim dizer, na necessidade incontornável de conhecer, compreender racionalmente a realidade e, por consequência, a si mesmo.

A célebre frase que inicia o livro alfa da metafísica de Aristóteles – “Todo homem, por natureza, tem o desejo de conhecer.” – já acentua que por natureza, quer dizer essência, o homem tem o desejo, o impulso de conhecer. Alguns tradutores afirmam que “natureza” não está no sentido de essência, mas sim de meio, de intermediária, ou seja: “todo o homem, por meio da natureza, tem o desejo de conhecer.” Entretanto, mesmo diante de aparentes contradições, vemos na sentença milenar o desejo, o impulso primeiro e constitutivo, portanto, próprio da natureza humana, que impele o homem a conhecer ou tentar conhecer nas formas interrogativas da linguagem: por que? O que é isso (ti tó ov)? Qual a origem? … etc.

Ora, uma vez que a filosofia consiste numa atividade espiritual exaustiva em que o homem mobiliza todo o seu ser para penetrar o quanto puder em todos os meandros do real e abarcá-lo num conhecimento total, sintético, então, à medida que o homem sente o apelo de sua essência, a ânsia voraz do pensamento em entender, ele vê, nessa atividade espiritual exaustiva, nesse procedimento rigoroso e coerente de suas faculdade cognitivas, os meios de realizar a si mesmo e de se integrar de forma consciente na totalidade do real, isto é, vidente de suas causas, origem e seu fim. Eis o que desperta o gosto pela filosofia.

2- Em que Ciência e Filosofia diferem-se e em que se complementam?

De uma forma geral, a ciência transita entre observação e experimentação. Observa algum fenômeno, tenta classificar todos os momentos de seu comportamento, levanta uma ou um conjunto de hipóteses para indicar sua causa próxima ou imediata e então faz uma série de experimentos para derrubar as hipóteses, a que persistir será elevada a categoria de teoria. Contudo, isso tudo não garante a validade absoluta da teoria que tem status de científica, pois seja na observação ou na experimentação pode ocorrer vários tipos de falhas, não ter dado certa importância ou nem perceber algumas características do comportamento fenomênico que mudariam consideravelmente os rumos da pesquisa, tais como imprecisão dos aparelhos de observação e experimentação e tantos outros fatores extremamente contingentes. Nisso podemos perceber, ao contrário do senso comum, que o conhecimento científico também tem suas doses de fragilidade e precariedade.

Em virtude dessa relação estrita entre observação e experiência, a forma do raciocínio indutivo é a que orienta em grande parte o procedimento científico. O raciocínio indutivo consiste no exame dos particulares para remontar a uma causa geral. E, como vimos, o exame desses particulares é mais ou menos preciso.

Se, na ciência, de uma forma geral e bem resumida, examina-se exaustivamente os particulares para se remontar a uma certa generalização mais ou menos válida, até que um evento qualquer não contradiga a teoria, por outro lado, na filosofia temos um movimento inverso, isto é, a meta suprema de indicar os princípios gerais de todo e qualquer evento particular, ou seja, de compreender o múltiplo e o diverso da realidade – totalidade das coisas que são – a partir de sua unidade substancial, e antes ainda, perguntar se há uma unidade que delimita a origem, a essência e a finalidade das coisas que são. No desenvolvimento histórico do pensamento filosófico surgirão três matrizes fundamentais para todas as outras correntes de pensamento: a) a afirmação da unidade no diverso e a sua dimensão qualitativa; b) a negação dessa unidade e, portanto, a relatividade qualitativa das coisas e c) a posição filosófica que sustenta a impossibilidade de afirmar ou negar a unidade do real e, portanto, a impossibilidade do conhecimento humano no que concerne a filosofia, enquanto saber do princípio e da essência.

Outra importante diferença entre Ciência e Filosofia está precisamente na ingenuidade (sem sentido pejorativo) de afirmar o senso de objetividade que impulsiona o cientista: ele pressupõem que há de fato uma realidade independente do sujeito cognoscente,que há uma ordem nessa realidade e que ela é passível de ser apreendida pela capacidade humana de julgar e examinar racionalmente. Ora, essas afirmações implícitas na postura do cientista estão, na mente do filósofo, de forma interrogativa e que o assombram em todo o seu percurso dando origem aos ramos do conhecimento filosófico designados como: cosmologia, ontologia e teoria do conhecimento.

Assim, em verdade o filósofo, desde o inicio, ensaia uma crítica da razão, da natureza humana e da natureza do mundo. Por mais que os avanços indiscutíveis da ciência – porque eles eles estão aí, como materialização do conhecimento realmente conquistado – indicam essa capacidade de conhecimento humano e, portanto, uma certa ordem no real, o filósofo quer demonstrá-las, explicitá-las no discurso racional ou então saber porque isso não é possível.

3- Por que o Livro dos Espíritos apresenta-se sob a denominação de Filosofia Espiritualista?

Essa denominação é para classificar o livro numa identidade generalizada, isto é, indicar que o livro tem algo de comum com aquelas concepções que sustentam a presença atuante de um princípio espiritual na natureza. Toda a filosofia que não apenas tem por objeto o princípio espiritual, mas que sustenta e demonstra sua existência, é espiritualista, mas, ao mesmo tempo, mantém sua unidade conceptual na medida que aborda de um modo extremamente diferente esse princípio espiritual em relação as outras filosofia espiritualistas. Assim, o Espiritismo é uma filosofia espiritualista, mas as outras filosofias espiritualistas não são o espiritismo, uma vez que seu método de abordagem do princípio espiritual difere de modo fundamental das outras filosofias e seu corpo de conceitos delimita de um modo próprio a origem, natureza e destino do princípio espiritual.

Quanto ao objeto, está no rol das filosofias espiritualistas; quanto ao método e as conclusões, difere essencialmente.

4- Por que o Espiritismo é filosofia ?

A Filosofia Espírita se detém na interpretação racional e rigorosa das manifestações do princípio espiritual na natureza, seja individualizado ou não.

Todavia, essa interpretação se ergue numa mundividência, numa visão de mundo, que determina uma ética, uma teodiceia, uma ontologia e todos os ramos principais da filosofia. Seu arsenal conceitual nos fornece elementos para perscrutar o homem, o fenômeno religioso, o mundo em seu constante devir. Não é apenas um método, uma forma de conduzir a razão. É o pensamento humano descobrindo os seus poderes na medida em que desafia os problemas eternamente iguais da existência. Desse modo, o Espiritismo é filosofia, porque desvela o ser no discurso humano, na linguagem dos homens e não dos deuses ou de Deus, como pretende as visões de mundo absolutamente reveladas, cujos postulados comumente contradizem a razão e põem de lado a inquietação e o esforço humanos, em prol de uma aceitação aviltante, estacionando o ser prenhe de possibilidades.