A fé que a razão não despreza

Efetivamente, a ideia da eternidade das penas é uma das fontes da incredulidade, pois essa ideia causa aversão ao ser que assim rege.

Sendo tal ideia uma contradição em relação a justiça e bondade infinitas de Deus, então os meios de combatê-la é tão somente pela via da fé raciocinada, ou seja, não mais pela contradição, onde as ideias que se relacionam à fé não se conciliam com os critérios da razão. O estágio cultural em que a humanidade terrena se encontra, já iniciada no lento esclarecimento de si mesma, reclama, inevitavelmente, uma visão geral do mundo, e dos problemas concernentes à vida e ao Espírito, baseadas em princípios racionais. Agora, instintivamente o homem repele as ideias dogmáticas, cuja consistência está na suposta autoridade escriturística, divina e burocrática. Portanto, só há um meio de combater os últimos vestígios do dogmatismo religioso e indicar a via mais coerente e sintética dos problemas da fé: o desenvolvimento da fé raciocinada entre os homens, a iniciação na religião natural. Esse é o combate que o momento cultual, que já abarca muitos anos, reclama.

Desse modo, a ação do Espiritismo no mundo tem por finalidade promover uma imensa revolução cultural, começando por uma renovação dos princípios fundamentais que determinam a ideia da natureza humana, rompendo definitivamente com a concepção organocêntrica, em que o corpo é direta ou indiretamente o elemento principal para a compreensão do homem; e trazendo para a análise dos variados problemas humanos o fator espiritual com suas necessárias implicações morais. Essas ideias, como uma meditação rigorosa e profunda do Espiritismo demonstra, não estão fundamentadas, por sua vez, em algum conjunto de pressupostos arbitrários ou fruto de alguma tradição dogmática, mas sim baseadas nos fatos, na realidade, são deduzidas de inúmeras observações de fenômenos. Os princípios espíritas estão na natureza, não são frutos da imaginação.

Assim, o homem de razão encontra nele a serena aceitação da razão, sem seu abaixamento até o absurdo. Pode possuir a fé que a razão não despreza e se libertar por definitivo da autoridade dogmática e dos formalismos ritualísticos, encontrando na vivência da caridade o culto supremo à Divindade. 

Que a densa névoa das ideias confusas acerca de Deus e de seus meios de ação se dissipem ante a luminosidade da fé que se baseia na razão para poder compreender parcialmente a suprema bondade divina. Que essa certeza racional nasça e permaneça no coração dos homens: de que Deus é bom, infinitamente bom; e que a poesia de sua bondade possa se fazer sentida no sofrido coração da humanidade. Se abrigar ao sol da bondade divina, sentindo o efetivo contentamento de ser criado por Ele, que todo coração assim possa se refazer sob o influxo de tão doce sentimento.

 

Referência: 

Questão 1009 de O Livro dos Espíritos – VII Duração das Penas Futuras.

Da impossibilidade de amar a Deus por meio do absurdo

“Consultai o vosso bom senso, a vossa razão e perguntai se uma condenação perpétua, em consequência de alguns momentos de erro, não seria a negação da bondade de Deus. Que é, com efeito, a duração da vida, mesmo que fosse de cem anos, em relação à eternidade? Eternidade! Compreendeis bem essa palavra? Sofrimento, tortura sem fim e sem esperança, apenas por algumas faltas. Não repugna ao vosso próprio critério semelhante pensamento?” – Santo Agostinho

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