Fundamentação Filosófica

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Estudo da Conclusão de O Livro dos Espíritos 

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Fundamentação Filosófica

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Proposições

 

  • De que os princípios espíritas estão na ordem das coisas
  • Da impossibilidade do materialismo
  • De que a incredulidade também é causa da desordem social
  • De que o progresso tem seu coroamento na realização moral da humanidade
  • Da força do Espiritismo
  • De que o Espiritismo não é obra de um homem
  • Das oposições ao Espiritismo
  • De que a moral espírita é a moral do Cristo
  • Da unidade da Doutrina Espírita

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De que os princípios espíritas estão na ordem das coisas

(Fundamentação I, a partir da primeira secção da conclusão de O Livro dos Espíritos)

“Eu me encontrava, pois, no ciclo de um fato inexplicado, contrário, na aparência, às leis da Natureza e que minha razão repelia. Nada tinha ainda visto nem observado; as experiências feitas em presença de pessoas honradas e dignas de fé me firmavam na possibilidade do efeito puramente material; mas a ideia, de uma mesa falante, não me entrava ainda no cérebro.

(…)Entrevi, sob essas aparentes futilidades e a espécie de divertimento que com esses fenômenos se fazia, alguma coisa de sério e como que a revelação de uma nova lei, que a mim mesmo prometi aprofundar.” – Allan Kardec, Obras Póstumas

Na primeira secção da conclusão de O Livro dos Espíritos é defendida a tese de que o Espiritismo surgiu a partir de fatos naturais e um tanto vulgares, como as mesas girantes ou mesas falantes. E assim, para reafirmar o valor de uma observação rigorosa que quer realmente alcançar a verdade, e não desfigurar os fatos em prol de algumas opiniões, há a alusão a outras importantes descobertas da ciência que se ocupa propriamente com a matéria, descobertas que também foram iniciadas a partir da observação de ocorrências vulgares, como a força que o vapor pode aplicar para movimentar pesados corpos, como as locomotivas, ao verificar que ele ergue a tampa de uma panela que aquece em alta temperatura um líquido qualquer.

Desse modo, as mais comezinhas ocorrências da natureza podem encerrar princípios e leis que dão a chave de fenômenos mais complexos. Entretanto, o olhar do observador pode estar distorcido quando se encontra diante de fatos que necessariamente se contrapõem às ideias sistemáticas que defende; e assim se permanece na indiferença ou elabora teorias estranhas para derrubá-los.

Contudo, é necessária a disposição sincera, deixar que o fenômeno, por assim dizer, indique vagamente a sua própria determinação.

Ora, Allan Kardec, após verificar todas as possibilidades de embuste, de charlatanismo, bem como supor inúmeras causas materiais para explicar o fenômeno mediúnico, percebe que nenhum desses fatores podem resolver o problema, não abarcam a totalidade do fenômeno, até estabelecer que sua causa é efetivamente espiritual.

Decorre disso que os Espíritos são uma das forças da Natureza que concorrem para determinados fenômenos que só o Espiritismo, ciência nascente então, pode explicar, pois seu objeto central de investigação é a natureza dos Espíritos, as leis que os regem e seus meios de ação sobre o mundo material.

Assim, de fatos aparentemente simplórios, e até supersticiosos para alguns, se deduz toda uma filosofia; se descobre uma nova força da natureza que se encontra ininterruptamente atuante e, portanto, exerce significativa influência no cotidiano dos homens; traz à luz, de modo objetivo, sem orientação dogmática, o fator espiritual que enriquecerá incomparavelmente as análises da Sociologia, da Antropologia, da História, da Filosofia, da Religião, enfim, de todos os problemas da cultura. Isso porque Allan Kardec se lançou à observação rigorosa, sem deixar que as ideias sistemática, tanto religiosas como cépticas, lhe dominassem, para extrair da Natureza os princípios de elevada Sabedoria.

Verificamos, portanto, o grande perigo que as ideias sistemáticas podem causar: uma espécie de “esquizofrenia intelectual” que distorce em parte o real para se manter intactas um punhado de ideias inconsistentes, ante os fatos.

Referência:

Primeira secção da conclusão de O Livro dos Espíritos.

Da impossibilidade do materialismo

(Fundamentação II, a partir da segunda secção da conclusão de O Livro dos Espíritos)

As doutrinas materialistas encontram naturalmente no Espiritismo o seu mais ferrenho adversário. O materialismo não admite que haja nada fora da matéria, reduzindo toda a realidade as modificações incessantes da matéria, que chegam mesmo a produzir o pensamento, a memória, a vontade e até a consciência, de modo que, alterando-se radicalmente na desintegração molecular faz, assim, se extinguir por completo a personalidade humana, uma vez que os fenômenos psicológicos estão essencialmente dependentes da organização da matéria, quando atinge o nível complexo do orgânico.

Entretanto, o Espiritismo surgi igualmente alicerçado em fenômenos que permitem a constatação que a personalidade humana, isto é, o pensamento, a memória, a vontade e a consciência, continuam em plena atividade para além da desintegração do corpo físico. E isso se constata pela peculiaridade do fenômeno mediúnico, que nunca é inteiramente mecânico, pois encerra sempre a possibilidade de comunicação, e aquilo que se comunica é capaz do mínimo de abstração e das operações do pensamento, denunciando aí uma inteligência que se revela por trás do fenômeno. Da natureza da causa compreende-se que é nada mais do que a alma daqueles que outrora viveram na terra.

Contudo, se esforçam por descaracterizar o Espiritismo como uma doutrina que decorre de princípios inerentes à Natureza, lançando-o para a esfera do maravilhoso e do sobrenatural. Ora, para que o materialismo não se desmorone, não venha a se transformar em mera abstração de pseudo-sábios e sistemáticos, essa estratégia é extremamente necessária, pois os materialistas julgam se basear também na Natureza, no real, que para eles é puramente e unicamente material. Se uma outra ciência, respeitando o critério de objetividade, universalidade e metodologia, vem desvelar o aspecto espiritual do real, a começar pela definição da natureza humana, então o materialismo não tem mais nenhuma causa objetiva e racional de ser sustentado e menos ainda de ser propagado.

Com efeito, o Espiritismo não se fundamenta nem de perto no sobrenatural e maravilhoso. Seus princípios estão na natureza, como a gravidade, como os elementos químicos, como calor, como o mundo microscópico das bactéria e micróbios e etc. Há um universo de fenômenos com os quais ele se ocupa, deduzindo seus princípios e suas leis. Porém, ele não incorre na insensatez de negar a matéria, como os materialistas negam sistematicamente o Espírito, porque ela está aí, mas o real não se reduz a ela, de modo que o fator espiritual também constitui o real.

O Espiritismo é sintético, nunca polariza, se fundamenta na relação dialética: Espírito e Matéria, imanente à Natureza, ou à totalidade do real.

Referência:

Segunda secção da conclusão de O Livro dos Espíritos.

De que a incredulidade também é causa da desordem social

(Fundamentação III, a partir da terceira secção da conclusão de O Livro dos Espíritos)

Já verificamos a impossibilidade do materialismo de se fundamentar na própria Natureza, uma vez que o Espiritismo vem desvelar o fator espiritual inerente à sua constituição. Entretanto, também podemos avaliar as influências perniciosas que o materialismo exerce sobre a massa, determinando o declínio moral da sociedade, de modo que se ele continuar a ser sustentado, só poderá fomentar a ignorância, quanto a realidade, e a imoralidade, quanto ao comportamento. Também é preciso ressaltar que embora um grande número de indivíduos nem se quer professem ideologicamente o materialismo como visão de mundo, não deixam, porém, de sustentá-lo no plano ético, isto é, de propagá-lo no modo de vida, que é, de fato, o mais pernicioso: não declaram de modo teórico os postulados materialistas, seja pelo baixo nível cultural que os estigmatizam ou por outras razões que ignoramos, mas os reafirmam constantemente no modo de conduzir a vida, nos valores que expressam e defendem, de modo que só o Espiritismo demonstra positivamente o quadro das consequências de uma vida dissoluta, cujos interesses e as forças foram apenas empregadas na satisfação dos sentidos, nos desregramentos do egoísmo, sem haver nenhum preparo efetivo para a vida perene, que é a vida espiritual.

Com efeito, o primeiro sentimento que desponta sob a influência das ideias materialistas é o da incredulidade quanto as questões concernentes à esfera dos problemas espirituais, que também dão justificativas e fundamentos às questões morais. O pensamento se restringe à matéria, vê na crença de cunho religioso apenas a insistência do medo e da infantilidade humana.

Sob tais premissas é forçoso reconhecer que o futuro de fato nada representa de muito importante, porque o mergulho no nada, no reino do inconsciente, espera a todos. Os valores morais, que requerem renúncia e sacrifício para serem vividos, são apenas criações elaboradas da inteligência humana, que por sua vez é fruto de complicadas explosões químicas no cérebro. Tudo é matéria que movimenta a si mesma e gera modificações de si mesma e nada mais.

Então, pergunta-se: Que efetiva contribuição a incredulidade pode oferecer a ordem social? Se a crença dogmática encerra o indivíduo no medo e na alienação, então é preferível a incredulidade que dá vazão aos instintos, que fundamenta uma moral relativa e de conveniência, que diz que a vida é apenas a agitação incessante de um turbilhão de moléculas? Que perspicácia é essa que se sai de um abismo para entrar em outro? Se a humanidade só pode escolher entre a crença dogmática ou a incredulidade, então realmente ela é infeliz, e só pode encontrar no entorpecimento da consciência um pálido alívio.

Desse modo, a incredulidade destrói toda a noção do futuro após a morte e prepara um campo fértil para a desordem social, pois uma vez que tudo é matéria, a responsabilidade, o dever, a fraternidade, a consciência, tudo o que é concernente ao Espírito não tem justificativa plausível, objetiva, e muito menos a abstenção dos interesses egoístas, que requer muito esforço. O que importa na verdade é a satisfação de tudo aquilo que se pode tirar proveito, enquanto a morte não vem fazer desaparecer a consciência que gera a ilusão do eu. Assim, é o que verificamos na contemporaneidade, onde a sociedade, ao lado da miséria material e moral, tenta se transformar em um imenso parque de entretenimento, sustentado pelo avanço tecnológico; o lema do momento é conforto e euforia, o quanto se puder pagar, e nada mais, apenas isso. E depois… não tem depois, a vida é agora, apenas isso. “Sem utopias, sem vida no além, nada disso. O prazer que temos é o que o corpo pode proporcionar, exploremos o corpo e os outros corpos, e nada mais”, essa é uma das conclusões da contemporaneidade, baseada naquelas premissas.

Portanto, sem um ideal elevado a ser atingido, sem uma noção positiva do futuro espiritual que se deve alcançar por um lento e persistente labor de aprimoramento moral, a organização social do cotidiano se torna em uma constante manifestação da mediocridade, do raso, do superficial, onde os indivíduos se entregam a uma agitação febril que chamam de trabalho e quando se veem com tempo livre, deixam-se arrastar pelas volúpias dos instintos, da rotina sufocante, das relações entorpecentes e negligentes; passam a vida numa semiconsciência delirante, sem se darem conta das imensas possibilidades que lhes são inerentes, pois preferem a euforia e a satisfação barata dos instintos e das paixões, e nada mais.

Contudo, que se apresente aos homens a noção de um futuro espiritual positivo, isto é, fundamentado na própria Natureza, e então o ideal do progresso intelecto-moral, que deve ser realizado por cada indivíduo, suplantará aos poucos o império da mediocridade.

Referência:

Terceira secção da conclusão de O Livro dos Espíritos.

De que o progresso tem seu coroamento na realização moral da humanidade

(Fundamentação IV, a partir da quarta secção da conclusão de O Livro dos Espíritos)

“O dever se engrandece e esplende, sob uma forma sempre mais elevada, em cada uma das etapas superiores da humanidade. A obrigação moral da criatura para com Deus jamais cessa, porque ela deve refletir as virtudes do Eterno, que não aceita um esboço imperfeito, mas deseja que a grandeza da sua obra resplandeça aos seus olhos.” – Lázaro – O Dever, Evangelho Segundo o Espiritismo

“O progresso da Humanidade tem como princípio a aplicação da lei de justiça, amor e caridade, e essa lei se funda sobre a certeza do futuro. Tirai essa certeza e lhe tirareis sua pedra angular. Dessa lei derivam todas as outras porque ela encerra todas as condições da felicidade humana. Somente ela pode curar as chagas da sociedade. E isso podemos julgar pela comparação das épocas e dos povos, porquanto melhoram a sua condição à medida que essa lei é melhor compreendida e melhor praticada. Se uma aplicação parcial e incompleta produz o que será quando a tomarem por base de todas as instituições sociais?” – Allan Kardec, O Livro dos Espíritos

Qual a finalidade do progresso senão melhorar a condição da existência humana. É para isso que o homem trabalha desde que é homem. Luta para vencer os obstáculos, as privações; se esforça para determinar as causas das doenças e combatê-las; se sacrifica para derrubar os abusos da sociedade; tudo por um pouco de estabilidade para si e, quando menos egoísta, também para os seus semelhantes.

Contudo, por mais que a inteligência humana se desenvolva, desbravando com profundidade variadas áreas do conhecimento, concretizando as suas amplas conquistas teóricas na prática tecnológica, fazendo surgir os mais estranhos instrumentos que facilitam em certos aspectos a vida humana, enfim, mesmo assim esse progresso intelectual mais do que constatado ainda não fez os homens avançarem para a conquista de efetiva felicidade, de uma tranquilidade d´alma e contentamento com a vida e consigo mesmo. Qual a razão desse paradoxo: tanto desenvolvimento intelectual e tanta barbárie? Seria a felicidade apenas utopia? Por que a civilização encerra ainda inúmeras misérias?

Tudo isso ocorre porque o progresso desenvolveu apenas a intelectualidade, mas a moralidade inerente à criatura ainda se encontra em estado de gérmen, pouco desenvolvida, inculta, necessitando, assim, de um longo trabalho persistente pra o enobrecimento do caráter. Com a tecnologia, que é a aplicação instrumental das conquistas intelectuais, o homem aprimora e transforma as coisas, a matéria, mas só a moral, que faz com que as nobres exigências da consciência venham a determinar o comportamento, pode cultivar as virtudes do coração que querem florescer para o advento da aurora da felicidade humana.

Desse modo, as condições da felicidade, e não tão somente aquele almejado bem-estar que consiste na satisfação dos sentidos, que por vezes entedia a criatura e lhe acentua a estranha sensação de vazio existencial, se fundamentam necessariamente nos princípios morais da justiça, do amor e da caridade. Ora, é mais do que evidente que onde a aplicação da justiça, do amor e da caridade se fazem mais presentes, aí reina também mais harmonia, mais concórdia, menos competitividade e mais fraternidade, menos egoísmo e indiferença e mais compaixão e compreensão, enfim, todas as virtudes que advém do amor, porque o amor encerra em si todas elas.

Na própria análise da história os povos que menos sofreram, de modo geral, são aqueles que mesmo vacilantes conseguem aplicar os princípios da justiça, do amor e da caridade em sua organização social. Com efeito, quando a aplicação de tais princípios se torna patente, mesmo diante das intempéries e desgraças da natureza, conseguem abrandar seus sofrimentos, porque olham ao seu lado e percebem irmãos de luta, de sofrimento, e não inimigos e algozes; companheiros que se esforçarão pelo bem de todos, porque trazem em seu íntimo a reverência aos princípios éticos da consciência, cuja síntese é a lei de justiça, amor e caridade.

Portanto, o homem pode descobrir a cura das doenças mais atrozes, e até desenvolver substâncias que protejam o corpo de um modo nunca conhecido, conquistando assim para as futuras gerações uma saúde mais perene e quase inabalável. Dizemos talvez. Porém, por mais que esse “paraíso” artificial construído pela tecnologia, a nova deusa da modernidade, venha a se instalar na terra, as chagas sociais permanecerão, porque o mal do mundo vem do coração impuro, isto é, do egoísmo, da vaidade, da cobiça e de toda a sorte de paixões e vícios. Só a aplicação, na ordem social e privada, da justiça, do amor e da caridade resolverá os difíceis problemas da existência.

O único “remédio” é a educação moral dos homens, ou seja, o desenvolvimento da moralidade inerente à criatura humana; florescer as virtudes do coração, para que estas embelezem a terra e o homem. A obra de beleza e sublimidade ainda está por fazer: ver o homem, na dignidade de sua herança divina, resplandecer diante da Criação.

A obra moral é a mais terna manifestação do Belo.

Referência:

Quarta secção da conclusão de O Livro dos Espíritos.

Da força do Espiritismo

(Fundamentação V, a partir da quinta secção da conclusão de O Livro dos Espíritos)

A força do Espiritismo consiste precisamente no apelo que ele faz à razão, nos critérios lógicos com os quais ele alicerça uma visão geral do mundo, oferecendo a chave racional, a partir da dedução do princípio espiritual presente em a Natureza, para a compreensão dos problemas existenciais. Após o atrativo dos fenômenos mediúnicos, quando a atenção se volta para o raciocínio e a reflexão, então a força viva do Espiritismo começa a resplandecer diante dos olhares perscrutadores, porque verificam que sua essência é antes filosófica, e sua importância está nas explicações que pode oferecer dos problemas existenciais, do ser, do destino e da dor. Com efeito, se não passasse de mero passatempo com fenômenos divertidos e estranhos, a curiosidade haveria de acabar e o esquecimento seria seu fim.

Contudo, o Espiritismo se propaga precisamente porque superou o período, por assim dizer, fenomênico, e adentrou no período filosófico onde se discuti e investiga, com base em seus princípios, as mais graves questões da existência humana.

Desse modo, sua força, sua pujança, está naturalmente na filosofia que apresenta aos homens. Portanto, seu campo de batalha é nas ideias, sua revolução é conceptual e, consequentemente, cultural. Vem renovar, com base na razão e na Natureza, a noção do futuro espiritual, tão caro a toda consciência, mesmo que se manifeste incrédula e indiferente, porque sua realidade é independente das opiniões e desejos particulares; demonstra a importância da moral que se baseia nas exigências da consciência para que o homem efetivamente realize a si mesmo e conquiste a felicidade.

Se o Espiritismo tem a sua força na filosofia que apresenta para a renovação cultural da Humanidade, por sua vez, a Filosofia Espírita angaria as suas luzes, a sua coesão e invulnerabilidade nos princípios da Religião, ou seja: parte da existência da alma e dos infinitos atributos de Deus; o seu critério epistemológico é mesmo os atributos da divindade, pois tudo o que fere ou não se compatibiliza com tais atributos não pode de modo algum fazer parte de seu corpo conceptual, assim ensina o gênio de Allan Kardec:

“(…)Tal é também o critério infalível de todas as doutrinas filosóficas e religiosas; para julgá-las, o homem tem um padrão rigorosamente exato nos atributos de Deus, ele pode afirmar a si mesmo, com certeza, que toda teoria, todo princípio, todo dogma, toda crença, toda prática, que esteja em contradição com um só destes atributos, que tenda não só a anulá-los, mas simplesmente a enfraquecê-los, não pode estar com a verdade.

Em Filosofia, em Psicologia, em Moral, em Religião, nada há de verdadeiro que não esteja conforme às qualidades essenciais da Divindade.” – Allan Kardec – A Gênese, Da natureza divina.

Esse é o caráter da Filosofia Espírita: não se enquadra ao espírito de sistema, pois não é obra particular, não nasceu da cabeça de um homem, e portanto, não tenta favorecer esta ou aquela escola, e ultrapassa do círculo da mera especulação para fundamentar a moral evangélica. Portanto, o cerne de sua reflexão é a moral, porque reconhece que a razão não deve se perder na atividade teorética, e assim estabelecer princípios universais para o comportamento, para a ação, infundindo um modo de vida no mundo concernente com a essência espiritual da criatura humana. Assim, é uma visão geral do mundo que estabelece princípios práticos que, quando aplicados, desvendam lentamente a felicidade que o homem almeja. Por isso a Filosofia Espírita é a filosofia do evangelho de Jesus que fala sempre das bem-aventuranças e das ternas virtudes que permite ao homem conquistá-la.

Referência:

Quinta secção da conclusão de O Livro dos Espíritos.

De que o Espiritismo não é obra de um homem

(Fundamentação VI, a partir da sexta secção da conclusão de O Livro dos Espíritos)

“O Espiritismo não é obra de um homem. Ninguém se pode dizer seu autor porque ele é tão antigo quanto a Criação; encontra-se por toda parte, em todas as Religiões…” – Allan Kardec

O Espiritismo, que é conhecido inicialmente através dos fenômenos mediúnicos, poderia ser ocultado, impedido de ser conhecido, se se proibisse e dificultasse a manifestação de tais fenômenos. Contudo, isso não é possível, porque ele tem uma independência em relação a vontade dos homens, não se submete, precisamente porque a causa de seus fenômenos não é material e nem mecânica,e sim, inteligente, ou seja, tais fenômenos são provocados por inteligencias, por vontades livres, que se despojaram do corpo físico, mas que, com seus meios próprios, continuam atuando sobre a Natureza. Com efeito, quem pode impedir que os Espíritos se manifestem? Além do mais, o próprio homem também é um Espírito encarnado, de modo que suas faculdades espirituais podem colocá-lo em contato com o mundo invisível. A mediunidade é própria do homem, em virtude do princípio espiritual que o constitui, de modo que as leis que o Espiritismo estuda e demonstra já fazem parte de sua própria natureza.

Disso decorre o caráter objetivo e universal do Espiritismo: de que ele não é obra particular, de que não foi imaginado por um homem, e sim que está em a Natureza, pronto para ser apreendido e compreendido mediante um método rigoroso, fundado em critérios racionais e experimentais. Se está em a Natureza, então esteve presente em todos os tempos, permeando as culturas e as religiões de todos os povos. Por isso, cada época fez dele uma ideia mais ou menos justa, mas nunca suficientemente racional e criteriosa, isso porque o efetivo entendimento de suas leis está sempre sujeito ao nível de conhecimento e desenvolvimento conquistados pelos homens no transcorrer do tempo e da história, isto é, sujeito ao progresso das civilizações. Assim, verificamos seus princípios no conjunto das obras sagradas, quase que invariavelmente revestidos de símbolos e alegorias; seus fenômenos estão sempre presentes nos agrupamentos humanos, apavorando e amedrontando tanto os selvagens como ainda o homem moderno.

Desse modo, após o desenvolvimento das ciências no campo da exploração material, tendo assim os homens exercitado um pouco a razão e adquirido relativo esclarecimento, então a Ciência Espírita pôde surgir na paisagem cultural do século XIX, para empreender a investigação do princípio espiritual constituinte em a Natureza. Portanto, o advento da Ciência Espírita estava intimamente dependente do avanço dos homens em direção a uma época mais positiva e racional, onde se buscasse compreender e não apenas crer, onde o campo do maravilhoso e sobrenatural cada vez mais se tornasse restrito, em virtude de se valorizar mais aquilo que a razão pode explicar e não sentir repulsa.

Foi o que Allan Kardec precisamente fez por meio de seu esforço monumental de edificação da Ciência Espírita em meio a paisagem cultural do efervescente século XIX. Ele libertou definitivamente o Espírito, e tudo o que lhe concerne, da classificação do sobrenatural e maravilhoso (no sentido de supersticioso, absurdo, aviltante, incompreensível), onde só a fé dogmática poderia dar alguma ideia vaga de sua realidade. Compreendeu que o objeto de investigação não sendo propriamente material, exigia uma abordagem metódica inteiramente outra, e não aquela vulgarizada pela ciência ortodoxa, academicista, materialista. E assim, num minucioso e monótono trabalho intelectual, deduziu os princípios e as leis dos fenômenos, dialogou com as inteligencias que os determinavam, e organizou a Doutrina Espírita.

Portanto, o Espiritismo está em a Natureza, mas foi necessário o labor do gênio de Allan Kardec para extrair a sua sabedoria e apresentá-la aos homens. O mérito de Kardec é, pois, o do trabalho intelectual próprio do investigador consciencioso; o do esforço de síntese, de encontrar o comum, o universal e racional no diverso e esparso dos fenômenos mediúnicos; de estabelecer uma criteriologia fundada nos atributos de Deus; de demonstrar a possibilidade da pesquisa no campo espiritual e estabelecer um método para tanto; enfim, Kardec é a própria representação do trabalho da razão no tempo, que vai desvelando as leis da Natureza e se integrando lentamente na posse da verdade:

“O que faz a moderna Ciência Espírita? Reúne em um todo, o que estava disperso; explica em termos próprios o que só se conhecia em linguagem alegórica; poda tudo aquilo que a superstição e a ignorância haviam criado para deixar somente o que é real e positivo: eis o seu papel. Mas não lhe cabe o papel de fundadora. Ela revela o que existe, coordena mais não cria nada, porque as suas bases estão em todos os tempos e em todos os lugares.” – Allan Kardec

Referência:

Sexta secção da conclusão de O Livro dos Espíritos.

Das oposições ao Espiritismo

(Fundamentação VII, a partir da sétima secção da conclusão de O Livro dos Espíritos)

O Espiritismo encontra vários opositores que se caracterizam em diferentes aspectos: os que negam apenas por presunção e orgulho, achando-se superiores em saber e os únicos realmente capazes de desvendar os mistérios da Natureza, estes se encerram em si mesmos, não conseguem perceber as próprias limitações, pois se comprazem em sua suposta superioridade intelectual, de modo que quase nada é digno de os instruírem, não admitem que não sabem de algo, e assim sustentam a temerária atitude de indiferença ou de supor que sabem, instituindo uma rápida e falsa imagem do Espiritismo; os que negam já por antever as consequências das ideias espíritas, e como se sentem prejudicados em seus interesses, o tratam como um inimigo; e os que são propriamente indiferentes ao Espiritismo, por acharem a sua moral demasiadamente severa para as suas conivências ao vício e aos desregramentos dos apetites e das paixões, que bem lhes agradam, então, se afastam, para não despertar a consciência e se sentirem incomodados.

Essas são as formas gerais de negação do Espiritismo, as causas que determinam a sua oposição. Contudo, o caráter dessas oposições nada tem de consistente, nada oferecem para se repudiar um princípio ao menos do Espiritismo, isso porque tais oposições são meramente atitudes psicológicas, ou seja, se estribam apenas em disposições subjetivas que nada provam e demonstram algo contra os fenômenos dos quais se deduz os princípios em que se fundamenta a Ciência Espírita. Por isso Kardec questiona: onde a quarta oposição? Como refutar uma ciência sem a contra prova dos fatos que determine sua causa material? É preciso que se demonstre que não são os Espíritos que agem através dos fenômenos mediúnicos e, por conseguinte, que esses fenômenos não são de caráter inteligente, mesmo quando se responde a uma pergunta apenas feita mentalmente por um dos pesquisadores; mesmo quando se dita textos inteiros que tratam de graves problemas da cultura por intermédio de um camponês iletrado, que não sabe sequer o alfabeto; mesmo quando ocorre o fenômeno de psicofonia direta, onde a “voz” dos Espíritos se fazem ouvir e se estabelece então franco diálogo entre o mundo corpóreo e o extracorpóreo; mesmo quando a clarividência, o sonambulismo e a telepatia demonstram a capacidade de emancipação da alma e que as faculdades perceptivas do homem não se limitam ao sensório físico, os cinco sentidos; e, enfim, mesmo quando, a par de todos os cuidados para se evitar o embuste e o charlatanismo, em reuniões específicas, os Espíritos se materializam, demonstrando a sua capacidade de tangibilizar-se e assim, oferecem uma ideia mais positiva de sua natureza, que não é algo abstrato, mas envolto por um corpo fluídico e imperecível, superior ao corpo de carne.

Desse modo, perguntamos com Kardec: Onde, de fato, a quarta oposição que apresente novos conjuntos de fatos, que acrescente observações mais aprofundadas e mais comedidas, verificando que há uma causa material naquilo em que se deduzia uma causa espiritual? Onde essa crítica profunda e superior, e não apenas a indiferença e o ridículo que lançam ao Espiritismo. De fato, como os espiritas são antes amantes da verdade, e não sistemáticos e fanáticos, então se acaso surgir esta crítica profunda, que demonstre que incorríamos em erro, rapidamente se abandonará o Espiritismo, porque seguiremos um dos seus maiores mandamentos: buscar sempre a verdade, o coerente, o racional:

“Compreende-se que essas causas de oposição, nada tendo de sólidas, devem desaparecer com o tempo, pois em vão procuraríamos uma quarta classe de antagonistas, ou seja, aquela que se apoiasse em causas contrárias evidentes, demonstrando um estudo consciencioso e laborioso do problema. Todos não lhe opõem senão a negação, nenhum deles apresenta uma demonstração séria e irrefutável em contrário.” – Allan Kardec

Porém, as ideias espíritas, por falarem à razão, são continuamente mais aceitas do que repudiadas, e suas influências no seio da sociedade são infinitamente mais benéficas do que as influências das ideias materialistas que, em suma, destroem a noção do futuro opondo a perspectiva do nada.

Pois no Espiritismo o futuro se torna uma noção positiva, suplantando as conjecturas particulares e as metafísicas do nada. O otimismo é inerente ao Espiritismo filosófico, mas não um otimismo entusiasmado e, por vezes, embasbacado; ele é antes sereno, comedido e imperturbável, porque é fruto do labor da razão que dilata a perspectiva humana para além dos umbrais do túmulo, contemplando a imortalidade do ser e reunindo e organizando os dados que se pode captar do mundo extracorpóreo, para tecer o mapa do conhecimento, que nunca é definitivo e fechado, das coisas invisíveis, próprias do Espírito. Portanto, infundi no coração daquele que o investiga seriamente, sem a intenção prévia de desfigurá-lo, a esperança fundada na razão; uma visão de mundo que o convoca para a realização de toda a perfectibilidade possível; que amplia o horizonte da vida ao infinito, fazendo das pertubações e futilidades que se dão tanta importância na Terra, coisas mais dignas de menosprezo e indiferença do que de preocupação; que ínsita os homens a se libertarem de todas as suscetibilidades e melindres, uma vez que concorrem apenas para a feiura e mesquinhez do caráter, pois a obra que exige é de embelezamento moral da criatura ao infinito.

Portanto, para que haja oposição consistente e conscienciosa ao Espiritismo, é necessário que tais possíveis ideias de negação também promovam uma nova ordem de influências e consequências práticas mais superiores e tão significativas do que as que exercem as ideias espiritas, quando, claro, assimiladas por seus adeptos com rigor, continuidade, seriedade e senso de aplicabilidade, apreendendo sobretudo o seu eminente e essencial caráter filosófico, isto é, sua lógica e serena visão do ser, do destino e da dor.

Referência:

Sétima secção da conclusão de O Livro dos Espíritos.

De que a moral espírita é a moral do Cristo

(Fundamentação VIII, a partir da oitava secção da conclusão de O Livro dos Espíritos)

O Espiritismo implica necessariamente em consequências morias, porque desvela parcialmente e de modo objetivo o mundo extracorpóreo, se ocupando, então, dos problemas fundamentais da Religião, quais sejam: a alma, o seu destino e Deus. Compreende que o homem é essencialmente um ser moral, isto é, livre, e portanto, responsável; que deve orientar o seu comportamento segundo as exigências da consciência, impregnado sua vida de moralidade. Desse modo, o cerne da Filosofia Espírita é a moral, pois não postula apenas princípios metafísicos, mas demonstra suas relações diretas com o aspecto moral da criatura.

Entretanto, o Espiritismo não cria uma nova moral, e sim reconhece e reverência a moral de Jesus contida nos evangelhos, uma vez que ele é o Paráclito da Verdade prometido pelo próprio Jesus, a fim de restabelecer tudo o que ele havia ensinado, porque sabia que os homens desfigurariam os seus ensinos, e completá-los, porque não pôde ensinar todas as coisas, uma vez que a revelação é contínua, pois está em relação com o estado de adiantamento da Humanidade.

Qual, então, a utilidade do Espiritismo, se aquilo que ele considera mais importante já foi ensinado por Jesus? Ora, sua ação na contemporaneidade é instituir os elementos para o desenvolvimento da fé raciocinada, possibilitando o entendimento racional e baseado nas leis da Natureza que ele desvê-la com base no princípio espiritual que a constitui. Portanto, para as alegorias e simbologias contidas nas narrativas evangélicas, o Espiritismo oferece a chave natural para apreender o seu sentido real, para os dogmas que obscurecem os ensinos de Jesus, opõem àquelas leis e princípios naturais que o fundamentam, de modo que ele vem cumprindo todos os pormenores da missão da qual Jesus já o revestira, antevendo a necessidade de seu advento depois que transcorresse alguns séculos.

Com efeito, o Espiritismo é a consequência necessária do Novo Testamento, porque ali Jesus já estabelecera seus princípios elementares, quais sejam: que só o amor redimi e salva a criatura; que a reencarnação possibilita o progresso constante da alma, renascendo da água (matéria) e do Espírito para adentrar no reino de Deus (onde o amor é a única Lei a determinar a criatura); de que o valor da ação está na intenção, de modo que a aparência não é nada e a verdadeira adoração a Deus decorre da pureza de coração e, assim, as práticas religiosas e os complexos rituais perdem todo o sentido quando se compreende que só os sentimentos elevados que embalam o coração aproximam a criatura do seu Criador. Tudo isso ele não vem apenas afirmar, mas demonstrar na prática, através das manifestações ostensivas dos Espíritos, que ocorre em toda parte, analisando os diferentes estados em que eles se apresentam após a destruição do corpo físico, desde os miseráveis e infelizes de muitos matizes aos que já conquistaram relativa serenidade e se preparam para mais amplas e proveitosas realizações. Verifica, nestes diferentes estados dos que se manifestam, as consequências diretas de um determinado tipo de vida que mais infringiu ou reverenciou as leis morais que Jesus legou à Humanidade, porque são leis naturais que regem a vida da alma, daí a universalidade de seus ensinos, porque se fundamentam nas causas primárias da Natureza, independente das concepções arbitrárias e condicionada ao desenvolvimento intelecto-moral de cada época.

“Não, o Espiritismo não encerra uma moral diferente daquela de Jesus; mas perguntaremos, por nossa vez, se antes do Cristo os homens não dispunham da lei de Deus revelada a Moisés. Sua doutrina não se encontra no Decálogo? E por isso se dirá que a moral de Jesus foi inútil? Perguntaremos ainda, aos que negam a utilidade da moral espírita, porque a do Cristo é tão pouco praticada e porque até mesmo aqueles que proclamam a sua sublimidade são os primeiros a violar a primeira de suas leis: a caridade universal. Os Espíritos vêm não somente confirmá-la, mas também mostrar-nos a sua utilidade prática; eles tornam inteligíveis e patentes as verdades que só haviam sido ensinadas sob a forma alegórica e ao lado da moral vêm definir-nos os mais abstratos problemas da psicologia.” – Allan Kardec

Referência:

Oitava secção da conclusão de O Livro dos Espíritos.

Da unidade da Doutrina Espírita

(Fundamentação IX, a partir da nona secção da conclusão de O livro dos Espíritos)

Dada a peculiaridade do objeto de estudo da Ciência Espírita, que é nada mais do que as almas daqueles que viveram outrora na Terra e que por meios próprios determinam fenômenos entre os encarnados, revelando assim a sua inteligência e a sua capacidade de se comunicar, então, os dados acerca do mundo extracorpóreo que esses Espíritos comunicantes fornecem variam em muito. Isso é perfeitamente aceitável, porque os indivíduos em morrendo não passam imediatamente à categoria de sábios, de ilustrados e amplamente esclarecidos, como se a morte lhes apropriassem de conquistas intelectuais e virtudes das quais não se esforçaram por tê-las. Pelo contrário, os Espíritos, que são a alma dos que viveram na Terra, avançam pouco a pouco no conhecimento e na moral, de modo que quando ocorre o fenômeno da morte (desprendimento definitivo) muitos se apresentam exatamente como foram na vida terrena, permanecem com as mesmas ideias e com os restritos pontos de vistas, se libertando deles e ampliando os horizontes da compreensão por meio de um trabalho sucessivo de aprimoramento de si mesmos.

Desse modo, a população espiritual diretamente ligada à Terra também apresenta indivíduos em condições que variam da ignorância, perversidade aos mais ou menos esclarecidos e sábios. Assim, essas diferenças de adiantamento espiritual poderiam concorrer para a impossibilidade da unidade da Doutrina Espírita, porque os Espíritos comunicantes apresentariam diferentes interpretações da realidade em que estão inseridos, se baseariam em princípios contraditórios, cada um criaria a sua teoria da natureza da alma e do mundo invisível e suas leis.

Entretanto, esse problema real foi superado pelo trabalho de Allan Kardec que estabeleceu critérios para a análise das diferentes mensagens dos Espíritos, critérios que permitem apreender os princípios que se expõem pelas observações das manifestações. Com efeito, como o Espiritismo está em a Natureza, sempre ocorreram tais manifestações e intercâmbios com o mundo invisível, contudo não se possuía um referencial criterioso e objetivo para sintetizar numa ordem lógica o conhecimento acerca do mundo extracorpóreo.

Esse referencial criterioso e objetivo Allan Kardec estabelece para o desenvolvimento da Ciência Espírita:

  • De que apreende-se a condição moral de um Espírito pela qualidade de sua linguagem, o conteúdo que expressa, a clareza com que se faz entender e, sobretudo, pelos princípios morais que se deixam aperceber no conjunto de suas ideias. Esse critério está baseado na ideia de que nenhum conhecimento verdadeiro, que revele algo do ser ou da Natureza, pode estar em contradição com os princípios éticos da consciência; que só uma condição moral elevada permite ao Espírito uma penetração mais profunda no conhecimento da realidade em que está inserido, porque a influência da matéria já não é tão preponderante sobre a natureza espiritual, porque as faculdades espirituais estão mais cultivadas e, por último, que os Espíritos que querem realmente esclarecer os homens, e não fazer doutrina particular por orgulho e vaidade, falarão antes à razão, pois a finalidade é se fazerem entendidos e não subjugar os homens, por isso a clareza é inseparável dos Espíritos elevados e conscienciosos, que dão mais importância ao fundo, ao sentido, do que a forma.

Desse modo, o estudioso espírita não se compraz na mera aceitação das mensagens dos Espíritos, mas antes pesa, avalia, analisa, tenta descobrir o desencadeamento lógico das ideias, os pressupostos, as consequências, enfim, realiza um efetivo exercício da razão, para apreender seu justo valor. Assim, Allan Kardec analisava diferentes mensagens sobre um único problema, reunindo as de cunho mais nobre, coerente, cuja profundidade e clareza eram notáveis (qualidades que são difíceis de se aplicarem simultaneamente na exposição de ideias para a abordagem de questões filosóficas, religiosas e etc.), e, conquanto de origem e formas diferentes, verificava que sustentavam os mesmos pressupostos, se baseavam nos mesmos princípios, de forma que a unidade dos ensinos edificava-se pouco a pouco pelo trabalho de notáveis inteligências do mundo extracorpóreo.

Assim, mesmo que a população espiritual diretamente ligada a Terra é constituída por diferentes graus de adiantamento intelecto-moral, decorrendo disso um número variado de interpretações da realidade espiritual, Allan Kardec estabelece critérios para se filtrar os ensinos dos Espíritos e apreender os que são de fato os mais elevados, oriundos da elite espiritual do mundo extracorpóreo, ou que estão sob sua vigilância e orientação.

Portanto, o homem sempre esteve em contato com o invisível. E é por esse meio que se dá a revelação, mas ela não o isenta do labor da razão, pois o homem deve contribuir pelo seu próprio adiantamento, participando de seu esclarecimento, inclusive das coisas espirituais, e não apenas esperar que tudo se lhe apresente pronto. Na dinâmica da Revelação há a síntese entre o trabalho dos homens e o trabalho divino.

Referência:

Nona secção da conclusão de O Livro dos Espíritos.

Fim

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