Da impossibilidade de amar a Deus por meio do absurdo

O Espírito e o Tempo

“Consultai o vosso bom senso, a vossa razão e perguntai se uma condenação perpétua, em consequência de alguns momentos de erro, não seria a negação da bondade de Deus. Que é, com efeito, a duração da vida, mesmo que fosse de cem anos, em relação à eternidade? Eternidade! Compreendeis bem essa palavra? Sofrimento, tortura sem fim e sem esperança, apenas por algumas faltas. Não repugna ao vosso próprio critério semelhante pensamento?” – Santo Agostinho

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O Trabalho na Contemporaneidade

O Espírito e o Tempo

Esta época é de aviltamento e vulgarização das coisas mais importantes e que conferem dignidade à existência humana.

Assim, o trabalho foi encerrado em uma monotonia perversa, motivado por fins ridículos, e essa é talvez a pior das desgraças sociais.

Sim, a pior e mais horrenda, pois a vida é o processo de desenvolvimento do princípio espiritual que fundamenta todo o real, e a única condição do progresso efetivo dos poderes anímicos é justamente o trabalho.

Todavia, o trabalho se afasta cada vez mais do seu sentido ontológico e se reduz aos valores econômicos. A atividade humana se limita a uma agitação em que as forças se dissipam e a matéria domina. Não há estratagema mais perverso, abismo mais obscuro, do que tornar o trabalho, que é a condição do progresso, em elemento domesticador e alienante do Espírito.

Definitivamente, o trabalho precisa se tornar o espaço de contínua realização…

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Da união com o Absoluto

O Espírito e o Tempo

Considerações acerca da resposta de Paulo, o Apóstolo, à pergunta 1009 de O Livro dos Espíritos

“Gravitar para a unidade divina, esse é o objetivo da Humanidade.” – Paulo, o Apóstolo.

O supremo objetivo da humanidade é realizar a união com o Absoluto, assim esclarece o inesquecível apóstolo Paulo em sua mensagem. Como seria de fato tal união ainda não podemos compreender integralmente, uma vez que não vivemo-la, apenas sabemos que não é a desintegração da consciência do eu no seio do divino, pois isso equivaleria ao aniquilamento da individualidade e, assim, para nós, seres relativos, é o mesmo que o mergulho no nada, no reino do inconsciente. Ademais, o guia e modelo da humanidade, Jesus Cristo, também demonstra em caracteres concretos os indícios para a compreensão da natureza de tão grandiosa união: ele, Jesus, encarnado na terra já se encontrava unido ao Pai, como assinalou e demonstrou em toda…

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Filosofia viva e racional, sem o espírito de sistema

A posição filosófica de Kardec – Uma lição de
Cassirer – A moral espírita decorre dos ensinos do Cristo.

                                                                                     Por José Herculano Pires

Kardec foi ou não foi um filósofo? O Espiritismo é ou não é uma filosofia, um sistema filosófico? Essas indagações vêm sendo formuladas ultimamente, em alguns meios espíritas, diante da alegação de alguns adversários da doutrina, Continuar lendo

Da unidade da Doutrina Espírita

(Fundamentação IX, a partir da nona secção da conclusão de O livro dos Espíritos)

Dada a peculiaridade do objeto de estudo da Ciência Espírita, que é nada mais do que as almas daqueles que viveram outrora Continuar lendo

De que a moral espírita é a moral do Cristo

(Fundamentação VIII, a partir da oitava secção da conclusão de O Livro dos Espíritos)

O Espiritismo implica necessariamente em consequências morias, porque desvela parcialmente e de modo objetivo o mundo extracorpóreo Continuar lendo

Das oposições ao Espiritismo

(Fundamentação VII, a partir da sétima secção da conclusão de O Livro dos Espíritos)

O Espiritismo encontra vários opositores que se caracterizam em diferentes aspectos: os que negam apenas por presunção e orgulho, achando-se superiores Continuar lendo

De que o Espiritismo não é obra de um homem

(Fundamentação VI, a partir da sexta secção da conclusão de O Livro dos Espíritos)

“O Espiritismo não é obra de um homem. Ninguém se pode dizer seu autor porque ele é tão antigo quanto a Criação; encontra-se por toda parte, em todas as Religiões…” – Allan Kardec  Continuar lendo

Da força do Espiritismo

(Fundamentação V, a partir da quinta secção da conclusão de O Livro dos Espíritos)

A força do Espiritismo consiste precisamente no apelo que ele faz à razão, nos critérios lógicos com os quais ele alicerça uma visão geral do mundo, oferecendo a Continuar lendo

De que o progresso tem seu coroamento na realização moral da humanidade

(Fundamentação IV, a partir da quarta secção da conclusão de O Livro dos Espíritos)

“O dever se engrandece e esplende, sob uma forma sempre mais elevada, em cada uma das etapas superiores da humanidade. A obrigação moral da criatura Continuar lendo

De que a incredulidade também é causa da desordem social

(Fundamentação III, a partir da terceira secção da conclusão de O Livro dos Espíritos)

Já verificamos a impossibilidade do materialismo de se fundamentar na própria Natureza, uma vez que o Espiritismo vem desvelar o fator espiritual inerente Continuar lendo

Da impossibilidade do materialismo

(Fundamentação II, a partir da segunda secção da conclusão de O Livro dos Espíritos)

As doutrinas materialistas encontram naturalmente no Espiritismo o seu mais ferrenho adversário. O materialismo não admite que haja nada fora da matéria, reduzindo toda a realidade as modificações incessantes da matéria, que chegam mesmo Continuar lendo

De que os princípios espíritas estão na ordem das coisas

(Fundamentação I, a partir da primeira secção da conclusão de O Livro dos Espíritos)

“Eu me encontrava, pois, no ciclo de um fato inexplicado, contrário, na aparência, às leis da Natureza e que minha razão repelia. Nada tinha ainda visto nem observado; as experiências feitas em presença de pessoas Continuar lendo

O Reino de Deus e o Paraíso Perdido

Sendo o “´céu” ou “paraíso” a realização de uma elevada condição moral, segue-se daí que o Reino de Jesus está no coração daqueles que amam o Bem, pois o seu governo entre os homens tão somente determina o cultivo das virtudes, amando a Deus na pessoa do próximo. Por isso disse que seu julgo é suave, sua Continuar lendo

Da união com o Absoluto

Considerações acerca da resposta de Paulo, o Apóstolo, à pergunta 1009 de O Livro dos Espíritos

“Gravitar para a unidade divina, esse é o objetivo da Humanidade.” – Paulo, o Apóstolo.

O supremo objetivo da humanidade é realizar a união com o Absoluto, assim esclarece o inesquecível apóstolo Paulo em sua mensagem. Como seria de fato tal união ainda não podemos compreender integralmente, uma vez que não vivemo-la, apenas sabemos que não é a desintegração da consciência do eu no seio do divino, pois isso equivaleria ao aniquilamento da individualidade e, assim, para nós, seres relativos, é o mesmo que o mergulho no nada, no reino do inconsciente. Ademais, o guia e modelo da humanidade, Jesus Cristo, também demonstra em caracteres concretos os indícios para a compreensão da natureza de tão grandiosa união: ele, Jesus, encarnado na terra já se encontrava unido ao Pai, como assinalou e demonstrou em toda a sua vida missionária e, no entanto, sua individualidade foi conservada, era uma personalidade, acima de tudo era um eu indestrutível que permanecia, mesmo realizado o supremo objetivo a que toda a humanidade se destina: a união com o Absoluto.

Sendo Jesus na terra a representação daquela união a que todos os seres conscientes do universo se destinam, cabe, então, para uma investigação rigorosa, uma monótona e persistente observação de sua significativa passagem pelo mundo, observar quanto ao seu modo de vida, a qualidade de suas relações, os valores que fundamentaram toda a sua vida, a forma como enfrentou o ridículo, o sofrimento, o perigo, o martírio e tudo o mais que estremece o coração mais robustecido. Ora, mesmo num exame superficial, verificamos que Jesus não fora um místico, portador de práticas estranhas, de disciplinas severas ou fundador de algum novo ascetismo. Mesmo assim, conclamou os homens para a união com Deus, e ainda asseverou que ninguém chegaria ao Pai se não fosse por ele. Que caminho, então, ensinou Jesus e continua ensinando para a união com o Pai? Sua vida e sua doutrina demonstram: o caminho moral – que é a vivência dos valores eternos, das virtudes do Espírito, sendo o Amor o resumo, a síntese de todas; com efeito, quem vive o amor pratica todas as virtudes, e assim se inicia na inconcebível, para nós, união com o Pai. 

“Eu vos dou um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros. Assim como eu vos tenho amado vós deveis também amar uns aos outros. É pelo fato de vos amardes uns aos outros que todos conhecerão que sois meus discípulos”. – João 13:34, 35

 

Referência: 

Questão 1009 de O Livro dos Espíritos – VII Duração das Penas Futuras.

A fé que a razão não despreza

Efetivamente, a ideia da eternidade das penas é uma das fontes da incredulidade, pois essa ideia causa aversão ao ser que assim rege.

Sendo tal ideia uma contradição em relação a justiça e bondade infinitas de Deus, então os meios de combatê-la é tão somente pela via da fé raciocinada, ou seja, não mais pela contradição, onde as ideias que se relacionam à fé não se conciliam com os critérios da razão. O estágio cultural em que a humanidade terrena se encontra, já iniciada no lento esclarecimento de si mesma, reclama, inevitavelmente, uma visão geral do mundo, e dos problemas concernentes à vida e ao Espírito, baseadas em princípios racionais. Agora, instintivamente o homem repele as ideias dogmáticas, cuja consistência está na suposta autoridade escriturística, divina e burocrática. Portanto, só há um meio de combater os últimos vestígios do dogmatismo religioso e indicar a via mais coerente e sintética dos problemas da fé: o desenvolvimento da fé raciocinada entre os homens, a iniciação na religião natural. Esse é o combate que o momento cultual, que já abarca muitos anos, reclama.

Desse modo, a ação do Espiritismo no mundo tem por finalidade promover uma imensa revolução cultural, começando por uma renovação dos princípios fundamentais que determinam a ideia da natureza humana, rompendo definitivamente com a concepção organocêntrica, em que o corpo é direta ou indiretamente o elemento principal para a compreensão do homem; e trazendo para a análise dos variados problemas humanos o fator espiritual com suas necessárias implicações morais. Essas ideias, como uma meditação rigorosa e profunda do Espiritismo demonstra, não estão fundamentadas, por sua vez, em algum conjunto de pressupostos arbitrários ou fruto de alguma tradição dogmática, mas sim baseadas nos fatos, na realidade, são deduzidas de inúmeras observações de fenômenos. Os princípios espíritas estão na natureza, não são frutos da imaginação.

Assim, o homem de razão encontra nele a serena aceitação da razão, sem seu abaixamento até o absurdo. Pode possuir a fé que a razão não despreza e se libertar por definitivo da autoridade dogmática e dos formalismos ritualísticos, encontrando na vivência da caridade o culto supremo à Divindade. 

Que a densa névoa das ideias confusas acerca de Deus e de seus meios de ação se dissipem ante a luminosidade da fé que se baseia na razão para poder compreender parcialmente a suprema bondade divina. Que essa certeza racional nasça e permaneça no coração dos homens: de que Deus é bom, infinitamente bom; e que a poesia de sua bondade possa se fazer sentida no sofrido coração da humanidade. Se abrigar ao sol da bondade divina, sentindo o efetivo contentamento de ser criado por Ele, que todo coração assim possa se refazer sob o influxo de tão doce sentimento.

 

Referência: 

Questão 1009 de O Livro dos Espíritos – VII Duração das Penas Futuras.

Da impossibilidade de amar a Deus por meio do absurdo

“Consultai o vosso bom senso, a vossa razão e perguntai se uma condenação perpétua, em consequência de alguns momentos de erro, não seria a negação da bondade de Deus. Que é, com efeito, a duração da vida, mesmo que fosse de cem anos, em relação à eternidade? Eternidade! Compreendeis bem essa palavra? Sofrimento, tortura sem fim e sem esperança, apenas por algumas faltas. Não repugna ao vosso próprio critério semelhante pensamento?” – Santo Agostinho

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Do arrependimento estéril

 

“A perda de um dedo, quando se presta um serviço, apaga maior número de faltas do que o cilício suportado durante anos, sem outro objetivo que o bem de si mesmo. O mal não é reparado senão pelo bem, e a reparação não tem mérito algum se não atingir o homem no seu orgulho ou nos interesses materiais.”

 O arrependimento não exclui a necessidade da expiação, ele é o início da compreensão que ilumina o indivíduo para o bem, mas o mal que ele praticou deve ser reparado, de modo que a expiação tem as suas duas faces: em sentir o que se fez sofrer e fazer o bem aquele que se fez o mal. O segundo aspecto é absoluto, pois o bem é lei universal que domina todas as coisas, de maneira que dependendo de como ele é cumprido, o primeiro aspecto pode em muito ser remediado. Nisso vemos o poder da ação humana que renova seu destino, a aparente fatalidade que lhe espera, pela continuidade de seus esforços tanto para o bem como para o mal.

A expiação sobrevém ao indivíduo mesmo que ainda não haja o arrependimento, não há uma ordem necessária, de modo que o sofrimento pode despertar uma reflexão que levará ao arrependimento. Entretanto, é muito importante que o indivíduo se arrependa, pois só assim ele reconhece o mal que o domina e tem meios de combater a causa de sua inferioridade. Assim, a expiação é um processo geral da justiça universal e só ela não basta que o indivíduo se repare, é necessário o movimento interior de conscientização em que o indivíduo se despoje do pensamento do mal que o domina. Portanto, o movimento substancial de mudança consiste no arrependimento sincero, isto é, quando há uma abertura, nos limites mentais, para as perspectivas de realização da bondade e se persegue essa realização, se afastando continuamente do mal. Assim, pode-se sofrer muito, mas nada compreender, permanecendo ressentido e magoado, pronto também para fazer sofrer.

Do que se expôs, há o seguinte desenvolvimento:

    • a) expiar, de forma geral, é sofrer as consequências da má conduta, dos prejuízos causados a outrem, assim, na esfera da ação humana há a legislação da justiça divina que nada deixa impune ou sem reconhecimento – a providência divina não é causa das ações humanas, mas as reconhece sendo boas ou más, pelos efeitos que elas provocam no destino dos homens. Desse modo, a expiação é determinada pela justiça divina, é a sentença que recai sobre um modo de vida que se manifestou prejudicial ao próximo e a sociedade – nenhuma ação humana escapa da ordenação das leis universais, sua causa é livre, mas as suas consequências são presididas pela sabedoria divina.

    • b) o que emerge desse problema é que o sofrimento só alcança resultados consideráveis quando desperta o verdadeiro arrependimento, ou seja, quando o indivíduo não só percebe que está fazendo o mal, mas que não quer mais praticá-lo. E dependendo do seu esforço de mudança, o caráter da expiação pode se transformar radicalmente, pois o sofrimento só está a serviço do melhoramento do Espírito, de modo que se ele consegue se melhorar pelo trabalho que emprega no seu desenvolvimento moral, já não tem a necessidade de passar por rudes sofrimentos. Pois a justiça divina também concorre para o progresso geral das criaturas e em nada se assemelha a mera e superficial ação punitiva, mas antes, pedagógica. Entretanto, a consecução desse desenvolvimento moral do Espírito inferior não significa o caminho mais fácil, e esse empreendimento não se realiza tão somente por calculo egoísta e por barganha, onde o indivíduo tenta tranquilizar sua consciência com práticas superficiais e de verniz de moralidade. O resgate das faltas cometidas só se dá mediante a prática do bem, é na luta moral, na vivência das virtudes cristãs que a reparação se efetiva. Este é o arrependimento fecundo, isto é, que gera a inteira renovação do comportamento, os atos impregnados de valor moral, os frutos da humildade e da bondade. Portanto, as práticas individuais de penitência ou de mera aparência moral caracterizam o arrependimento estéril, que não renova o comportamento e não traz beneficio algum nas relações entre os homens.

Assim, o princípio que sustenta tais afirmações é: o mal só pode ser reparado com o bem, e para que o bem seja vivido é necessário eliminar tudo o que entretém no coração o orgulho e o interesse egoísta, uma vez que são o fundamento do mal. Portanto, quem se arrepende tem por meta preponderante abafar e destruir seus interesses egoístas e seu orgulho, se esforçando por fazer uma verdadeira revolução em seu intimo, fora disso, o arrependimento é estéril, de aparência, não gera os frutos do desenvolvimento moral:

 “De que serve, como justificação, restituir após a morte os bens mal adquiridos, que foram desfrutados em vida e já não lhe servem para nada? De que lhe serve a privação de alguns gozos fúteis e de algumas superficialidades, se o mal que cometeu para outro continua o mesmo? De que lhe serve, enfim, humilhar-se diante de Deus, se conserva o seu orgulho diante dos homens?”

 Nisso tudo há uma radical reprovação das práticas ascéticas e dos empreendimentos salvacionistas de cunho individualista: a obra de “salvação” é obra de educação, ou seja, o esforço do indivíduo em aprender a viver o amor no seio da sociedade em que está inserido. Só isso o livra das consequências funestas do orgulho e do egoísmo, e não a prática estéril de rituais e macerações do corpo. É necessário compreendermos a profundidade deste problema, pois em sua solução repousa o efetivo progresso da Humanidade.

 

Referências:

 Questões 999, 999-a e 1000 de O Livro dos Espíritos – VI Expiação e Arrependimento.

Do arrependimento como expansão do Espírito

 

O verdadeiro arrependimento desperta o desejo de querer melhorar, porque é o efetivo reconhecimento de uma imperfeição que constitui o caráter. Ele também consiste no exercício da razão que se ocupa dos princípios éticos, uma vez que é acompanhado do esclarecimento acerca do bem e do mal: para arrepender-se é necessário um exame racional do comportamento, ponderar e avaliar o valor das escolhas e da conduta, percebendo os valores que as motivaram e, assim, julgar o bem e o mal que expressaram. O arrependimento não é tão somente um ato de contrição, mas expansão do Espírito que compreende os erros que cometeu por meio do exercício de sua razão – é o início de seu esclarecimento, uma vez que compreende a distinção entre o bem e o mal. O arrependimento é a iniciação para o enobrecimento moral do indivíduo, e ele só é legítimo pelo desejo que desperta de querer melhorar.

Desse modo, ao contrário do que se pensa, o arrependimento como uma das virtudes cristãs não é uma espécie de força negativa que diminui a potência de vida do indivíduo, lançando-o num mar de lamentação e de fraqueza. Pela compreensão que traz do bem que não se fez e do mal que se praticou, já arranca o indivíduo do domínio de alguma ilusão, e pelo caminho de melhoramento que indica, convoca as forças do Espírito para a realização moral imprescindível. Fora disso, não há arrependimento, só há pusilanimidade e dormência da razão.

Quando o arrependimento sobrevém depois da morte do corpo físico, ele é uma das causas que impelem o Espírito a escolher uma determinada encarnação recheada de dificuldades e sobressaltos, pois a vontade de querer melhorar-se e aprender a trilhar definitivamente o bom caminho é a chama mais viva que ele acende. Quando envolvidos pelo véu da carne, os homens tem a compreensão que os empolgavam mais ou menos obliterada, dependendo da sua condição evolutiva, de modo que muitas vezes não entendem o porquê de uma existência tão dolorosa. Todavia, se houver o exercício do recolhimento necessário para a saúde da mente, poderão ouvir a voz de sua consciência profunda que desvela, numa intuição viva e legítima, a necessidade de suportar com grandeza moral as tormentas da vida: não abafar e não se afastar da voz inarticulada da consciência profunda é a condição para se evitar a revolta e a pertubação da mente em face do sofrimento.

A questão de não se saber a razão do sofrimento, em virtude do esquecimento das vidas passadas quando em uma nova encarnação, pode ser solucionada quando a vida interior é bem cultivada e o indivíduo permite ser instruído continuamente pela sua consciência profunda, bem como pela inspiração de seu mentor espiritual: o problema é de educação da vida mental. Isso não quer dizer que necessariamente a memória espiritual bloqueada venha à tona, e sim que o indivíduo é cumulado de intuições mais vivias e presentes que fundamentam a certeza de que ele colhe no presente doloroso as lágrimas e a dor que plantou no passado delituoso.

 

Referência:

 Questão 990, 991 e 992 de O Livro dos Espíritos – VI Expiação e Arrependimento.

 

 

 

 

Primícias da Felicidade

“Bem aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus.” (Mateus, V:8)

A felicidade se inicia e se intensifica à medida que a influência da inveja, do orgulho e do egoísmo se enfraquecem até o completo desaparecimento. Essas paixões, quando dominam os homens, são as causas do aborrecimento e da infelicidade humana, desencadeando o ódio, a discórdia e todo o cortejo da desgraça. Para superar essas paixões, só a preocupação e o esforço de realização dos valores do Espírito. Então, todas as questiúnculas que tais paixões podem provocar, e que aborrecem em muito a vida, são percebidas em sua verdadeira realidade – de misérias da inferioridade.

Essa é a liberdade e a pureza que Jesus vem ensinar, de estar livre das misérias dos sentimentos inferiores que só perturbam a mente e atrapalham no progresso. Em se distanciando deles, o homem já pode sentir o quanto a vida se torna mais amena, sem o colorido irritante das intrigas e da revolta, do escândalo e do ressentimento.

Dessa forma, podemos cogitar bem palidamente acerca da felicidade dos Espíritos puros, que só se ocupam com o Bem e com o Belo, em nada se afinando com as miseráveis paixões humanas. Essa visão se aviva mais na razão em que o coração se faz portador de mais nobres sentimentos, conquistando paulatinamente a pureza.

Referência:

 Questão 985 de O Livro dos Espíritos – V Penas temporais.

As influências materiais na concepção da ideia de felicidade

“O homem que se crê feliz na terra porque pode satisfazer suas paixões é o que faz menos esforços para se melhorar.”

 

O corpo é também instrumento da dor, das impressões dolorosas que a matéria pode oferecer. Ele sente o abalo de tais impressões, mas o sofrimento do Espírito não é propriamente material, e sim de ordem moral. As impressões materiais, que variam ao infinito, são sempre as mesmas, mas o modo de recebê-las e de por elas ser influenciado depende da condição do Espírito encarnado. Assim, as impressões mais comuns que acompanham a sensação da fome, do sono, da necessidade do coito, e suas respectivas satisfações, são, em princípio geral, as mesmas. Mas dependendo da identificação que o Espírito tem com a matéria, elas podem oferecer uma experiência muito mais viva e dominante sobre ele. Desse modo, um Espírito já mais desenvolvido, em sofrendo quase a total privação de recursos para saciar a sensação da fome que seu corpo transmite, encontra nessa circunstância motivação para aguçar mais ainda a prudência e meditar na melhor estratégia para superar tal dificuldade, ao passo que um Espírito mais materializado sente os momentos de privação como uma experiência demasiadamente penosa, vê nela também a frustração do desejo de fruir as delícias de bons pratos, suas ideias restritas só conseguem conceber o bem-estar oriundo das coisas materiais, de forma que, ver nas dificuldades materiais meios eficazes de desenvolver o Espírito é algo de difícil compreensão, e assim, a sua experiência da fome é muito mais dolorosa e perturbadora do que a do Espírito mais desenvolvido, porque as impressões materiais lhe agradam muito mais do que as delicadas e sutis satisfações do Espírito.

O prazer material está intimamente ligado a satisfação das paixões: as sensações que provocam a fome, o sono, a necessidade do coito, quando satisfeitas, proporcionam uma agradabilidade inconfundível. E nisso vemos a sabedoria da providência na dinâmica da natureza, ou seja, todas as atividades extremamente importantes para a conservação de todo e qualquer organismo, bem como das espécies, estão atreladas ao prazer, proporcionam considerável prazer em sendo satisfeitas; do contrário, se a nutrição, a reprodução e o repouso fossem atividades em si mesmas fatigantes, entediantes, por vezes dolorosas, facilmente os organismos se descuidariam, uma hora ou outra, de praticá-las, custando-lhes a própria vida, uma vez que são indispensáveis para a conservação e porque nada na natureza procura a dor, tenta-se evitá-la o quanto puder.

Portanto, em verificando a imediates do prazer material; que o corpo pode ser explorado em suas zonas prazerosas para proporcionar mais altos níveis de agradabilidade e euforia; então, o indivíduo relaciona a sua ânsia de felicidade, que é muito natural, aos prazeres que descobriu na vida com o corpo, e a eles se vincula desesperadamente.

Em certa medida, é necessário aprender a não se entregar tão facilmente ao que é só agradável, mas que não contribui para o desenvolvimento do Espírito, e até o entrava no demasiado desperdício de tempo. Nossa sociedade aprendeu a explorar as sensações agradáveis e fazê-las permanecer por meio de um tipo de vida muito medíocre.

 

Referência:

 Questão 983 de O Livro dos Espíritos – V Penas temporais

O menino Jesus no meio dos doutores

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Revista Espírita, junho de 1862

Último quadro do Sr. Ingres.

A senhora Dozon, nossa colega da Sociedade, recebeu em sua casa, em 9 de abril de 1862, a comunicação espontânea seguinte:

“O Menino Jesus encontrado por seus pais pregando no Templo, no meio dos doutores. (São Lucas, Natividade.)

Tal é o assunto de um quadro inspirado a um dos nossos maiores artistas. Nesta obra do homem se mostra mais do que o gênio; ali se vê brilhar essa luz que Deus dá às almas para esclarecê-las e conduzi-las às regiões celestes. Sim, a religião iluminou o artista. Essa claridade é visível? O trabalhador viu o raio partindo do céu e descendo nele? Viu se divinizar, sob seus pincéis, a cabeça do Menino-Deus? Ajoelhou-se diante dessa criação de inspiração divina, e exclamou, como o santo velho Simeão: Senhor, vós deixareis morrer em paz o vosso servidor, segundo a vossa palavra, uma vez que meus olhos viram o Salvador, que nos dais agora, e que destinastes para ser exposto à visão de todos os povos.”

“Sim, o artista pode se dizer servidor do Mestre, porque vem executar uma ordem de sua suprema vontade. Deus quis que, no tempo em que reina o ceticismo, a multidão se detenha diante dessa figura do Salvador! e mais de um coração se afastará levando uma lembrança que o conduzirá ao pé da cruz, onde esse divino Menino deu sua vida para a Humanidade, para vós, multidão negligente.

“Contemplando o quadro de Ingres, a visão se afasta, com pesar, para retornar a essa figura de Jesus, onde há uma mistura de divindade, de infância e também alguma coisa da flor; essas roupagens, essa veste de cores frescas, jovens, delicadas, lembram esses suaves coloridos sobre os caules perfumados. Tudo merece ser admirado na obra-prima de Ingres. Mas a alma ama, sobretudo, nela contemplar os dois tipos adoráveis de Jesus e de sua divina Mãe. Ainda uma vez, sente-se a necessidade de saudá-la pelas angélicas palavras: “Eu vos saúdo, Maria, cheia de graças.” Mal se ousa levar o olhar artístico sobre essa nobre e divinizada figura, tabernáculo de um Deus, esposa de um homem, virgem pela pureza, mulher predestinada às alegrias do paraíso e às agonias da Terra. Ingres compreendeu tudo isto e não se passará diante da Mãe de Jesus sem dizer-lhe: “Maria, muito doce virgem, em nome de vosso filho, orai por nós!” Vós a estudareis um dia; mas eu vi as primeiras pinceladas dadas sobre essa tela bendita. Vi nascer uma a uma as figuras, as poses dos doutores; vi o anjo protetor de Ingres lhe inspirando para fazer cair os pergaminhos das mãos de um desses doutores; porque ali, meu Deus, está toda uma revelação! essa voz de criança destruirá também, uma a uma, as leis que não são suas.

“Não quero fazer aqui da arte como ex-artista; eu sou Espírito, e, para mim, só a arte religiosa me toca. Também vi nesses ornamentos graciosos das cepas de vinha a alegoria da vinha de Deus, onde todos os humanos devem chegar a se consolar, e disse a mim com uma alegria profunda que Ingres vinha de fazer amadurecer um de seus belos cachos. Sim, mestre! teu Jesus vai falar também diante dos doutores que negam sua lei, diante daqueles que a combatem. Mas quando se encontrarem sós com a lembrança do Menino divino, ah! mais de um rasgará seus rolos de pergaminho sobre os quais a mão de Jesus terá escrito: Erro.

“Vede, pois, como todos os trabalhadores se reencontram! uns vindo voluntariamente e por caminhos já conhecidos; outros conduzidos pela mão de Deus, que vai procurá-los sobre os lugares e lhes mostra onde devem ir. Outros ainda chegam, sem saber onde estão, atraídos por um encanto que lhes faz semear também as flores de vida para levantar o altar sobre o qual o menino Jesus vem, ainda hoje, para alguns, sob a roupagem de cor de safira ou sob a túnica do crucificado é sempre um mesmo, o único Deus.

“DAVID, pintor.”

A senhora Dozon nem seu marido haviam ouvido falar desse quadro; tendo nós mesmos dele nos informado junto a vários artistas, nenhum tinha conhecimento, e começamos a crer numa mistificação. O melhor meio de esclarecer essa dúvida era dirigir-se diretamente ao artista, para se informar se tratara esse assunto; foi o que a senhora Dozon fez. Entrando no atelier, viu o quadro, terminado há somente alguns dias e, consequentemente, desconhecido do público. Esta revelação espontânea é tanto mais notável quanto a descrição que dela dá o Espírito é de uma exatidão perfeita. Tudo está ali: cepo de vinha, pergaminhos caídos no chão, etc. Este quadro está ainda exposto na sala do bulevar dos Italianos, onde fomos vê-lo, e ficamos, como todo mundo, admirados diante dessa página sublime, uma das mais belas, sem contradita, da pintura moderna. Do ponto de vista da execução, é digna do grande artista que, o cremos, nada fez de superior, apesar de seus oitenta e três anos; mas o que dela faz uma obra-prima, fora de linha, é o sentimento que a domina, a expressão, o pensamento que faz jorrar, de todas esses rostos sobre os quais lê-se a surpresa, a estupefação, a emoção, a dúvida, a necessidade de negar, a irritação de se ver abater por um menino; tudo isto é tão verdadeiro, tão natural, que se põe a colocar as palavras em cada boca. Quanto ao menino, é de um ideal que deixa longe, atrás dele, tudo o que foi feito sobre o mesmo assunto; não é um orador que fala aos seus ouvintes: não os olha mesmo; adivinha-se nele o órgão de uma voz celeste.

Em toda esta concepção, sem dúvida, há do gênio, mas há, incontestavelmente, da inspiração. O Sr. Ingres, ele mesmo, disse que não havia composto esse quadro nas condições comuns; começou, disse ele, pela arquitetura, o que não é de seus hábitos; em seguida vieram os personagens, por assim dizer, colocarem-se eles mesmos sob seu pincel, sem premeditação de sua parte. Temos motivos para pensar que esse trabalho se prende a coisas das quais ter-se-á a chave mais tarde, mas sobre as quais devemos ainda guardar o silêncio, como sobre muitas outras.

Tendo o fato acima sido narrado na Sociedade, o Espírito de Lamennais, ditou espontaneamente, nessa ocasião, a comunicação seguinte.

Sobre o quadro do Sr. Ingres.

(Sociedade Espírita de Paris, 2 de maio de 1862. – Médium, Sr. A. Didier.)

Falei-vos, recentemente, de Jesus menino no meio dos doutores, e fazia ressaltar sua iluminação divina no meio das sábias trevas dos sacerdotes judeus. Temos um exemplo a mais de que a espiritualidade e os movimentos da alma constituem a fase mais brilhante na arte. Sem conhecer a Sociedade Espírita, pode-se ser um grande artista espiritualista, e Ingres nos mostra, em sua nova obra, o estudo do artista, mas também sua inspiração mais pura e a mais ideal; não esse falso ideal, que engana tanta gente e que é uma hipocrisia da arte sem originalidade, mas o ideal haurido na natureza simples, verdadeira e, consequentemente, bela em toda a acepção da palavra. Nós outros, Espíritos, aplaudimos as obras espiritualistas tanto quanto censuramos a glorificação dos sentimentos materiais e do mau gosto. É uma virtude sentir a beleza moral e a beleza física nesse ponto; é a marca certa de sentimentos harmoniosos no coração e na alma, e quando o sentimento do belo está desenvolvido nesse ponto, é raro que o sentimento moral não o esteja também. É um grande exemplo o desse velho de oitenta anos, que representa, no meio da sociedade corrompida, o triunfo do Espiritualismo, com o gênio sempre jovem e sempre puro da fé.

LAMENNAIS

Da continuidade do sentimento de culpa

 

A medida que o Espírito se aperfeiçoa, a consciência integral das várias existências materiais já vividas se torna mais nítida, a ponto de vislumbrar os mais remotos e obscuros atos do pretérito. Essa consciência integral que se aclara não poderia ser fator constante de aflições, uma vez que no início fomos bárbaros e mais claudicantes do que corretos e ponderados?

Os Espíritos Superiores ensinam que não, pois a serenidade que se conquista consiste na harmonização da conduta com os princípios éticos da consciência, por um processo existencial denominado: provas e expiações.

O passado delituoso é resgatado no presente, que exige, pelas dificuldades que apresenta, a harmonização do indivíduo com os princípios éticos da própria consciência. Respeitando as exigências conscienciais, se liberta da ligação afetiva de caráter doloroso com o passado. Os tormentos da consciência não visam o sofrimento pelo sofrimento, mas sim a educação do ser que ora transviou a sua própria lei imanente, de forma que, se redimindo perante a si mesmo, os comportamentos desequilibrados outrora vividos não se apresentam mais como uma pesada carga afetiva, mas como difíceis etapas, já superadas, da evolução.

Ademais, por mais que o Espírito se demore na maldade e perversidade, quando desperto e evoluindo, tem diante de si a eternidade para tão somente praticar a bondade e viver integralmente a vontade de Deus, de modo que um infinito de uma existência vivida na luz e na caridade suplantam em tudo algum limitado tempo persistido na maldade.

De fato, isso não justifica o mal, todavia, como compreendemos, a consciência exige o Bem, e não o tormento incessante por meio de um sentimento de culpa que jamais se desvanece, mesmo em face das mais duras expiações.

Além do mais, o Espírito evoluído, quer dizer, que já se encontra quase completamente isento da influência da matéria, pode conhecer mais precisamente as condições e os pormenores que contribuíram para seus desequilíbrios, verificar que em muitas vezes agiu mais por fraqueza moral do que por efetiva maldade ou perversidade, enfim, pode julgar a si mesmo com mais justiça, pois vislumbra a totalidade das causas que engendraram as circunstâncias do declínio moral.

A responsabilidade dos atos é sempre proporcional ao nível de consciência que se tem; isso, até a justiça humana tenta medir pelos processos de verificação comportamental que são julgados por um critério de normalidade instituído pelas ciências psicológicas e pelo discurso filosófico vigente ou silenciosamente implícito.

 

Referência:

 Questão 978 do Livro dos Espíritos – IV Natureza das penas e gozos futuros.