A ética cristã para além do aspecto jurídico

A ética cristã para além do aspecto jurídico em PDF

A ética cristã para além do aspecto jurídico

A proporcionalidade entre injúria e assassinato segundo o ensino ético de Jesus

 

     Na análise moral do ensino de Jesus a abordagem de Kardec revela uma eficácia interpretativa precisamente porque ela se sustenta em três grandes fatores: o referencial transcendente instituído por Jesus; a verdade ontológica da imortalidade do ser e a descoberta das leis que regem as relações entre o mundo corpóreo e o mundo espiritual.

     O referencial transcendente já contém os demais fatores, mas na antiguidade a cultura geral não poderia compreendê-los em termos naturais e racionais. A lucidez interpretativa de Kardec se revela então na compreensão primordial do ponto de gravidade do ensino de Jesus, que consiste, numa perspectiva hierárquica, na noção referencial de vida futura, ou vida espiritual. Dizemos, de um ponto de vista hierárquico, porque a noção de vida futura é um referencial máximo em direção ao qual todos os ensinos se concentram e, portanto, é somente a partir desse referencial que se pode apreender o efetivo sentido e coerência interna das exigências éticas marcantes no ensino de Jesus e do consequente programa de desenvolvimento espiritual da criatura, de tal maneira que Kardec assevera lucidamente já no segundo capítulo de O Evangelho Segundo o Espiritismo, na dissertação intitulada “A vida futura”, que:

     “(…) todas as máximas se referem a esse grande princípio. Sem a vida futura, com efeito, a maior parte de seus preceitos de moral não teriam nenhuma razão de ser. É por isso que os que não creem na vida futura, pensando que ele apenas falava da vida presente, não os compreendem ou os acham pueris. Esse dogma pode ser considerado, portanto, como o ponto central do ensinamento do Cristo. Eis porque é colocado entre os primeiros, no início desta obra, pois deve ser a meta de todos os homens. Só ele pode justificar os absurdos da vida terrestre e harmonizar-se com a justiça de Deus.”

     Desta forma, falar de Jesus ou buscar compenetrar-se do signo de Cristo, significa, antes de mais nada, ter como compreensão radical que a razão de sua atividade missionária na Terra está toda em instituir na cultura e, portanto na visão de mundo, uma finalidade transcendente para a totalidade do existir humano. Sem a compreensão de que a ética cristã visa forjar um indivíduo que possa se inserir na plenitude da vida espiritual e divina e, portanto, que todas as suas máximas e preceitos se dirigem para esta suprema finalidade, sem a posse desse magno princípio regente, o signo de Cristo não é assimilado, o vigor da sua ética não é respeitado, e o essencial de seu projeto de desenvolvimento espiritual não é assumido pelo indivíduo. A ética cristã não tem nada haver com uma acomodação burguesa no mundo, não visa formar cidadãos, meros pagadores de impostos, cumpridores de leis com alto senso de indignação ante os direitos afrontados. A ética cristã é a ética da transfiguração do animal-homem, ela não quer acomodá-lo ao mundo, ela quer inseri-lo no reino de Deus, que transcende todos os mundos.

     Por isso, Jesus sempre ensina segundo a necessidade da transformação total da criatura para uma inserção definitiva na suprema realidade espiritual. Sendo a vida moral o meio pelo qual se dá esta transformação total, ela não pode ser jamais reduzida a uma mera vivência normativa, onde se busca seguir formalmente as leis e prescrições da moral vigente, na verdade a vida moral deve ser uma purificação de todo o mundo íntimo da alma, passando inicialmente pela vivência normativa, mas se consolidando na plenitude de uma vivência virtuosa. Seguir os mandamentos não insere o indivíduo no reino, se o seu mundo íntimo ainda está repleto de sentimentos inferiores e intenções perversas. Jesus combate precisamente a forma estacionária em que a vivência normativa da moral divina apresentada por Moisés e os profetas acabou se consolidando entre o povo judeu. Esse é o perigoso paradoxo da moral – pois ela fomenta um espaço de realização espiritual da criatura, mas quando passa a ser entendida e vivida como mero cumprimento normativo, no automatismo do costume e da rotina, esta mesma moral se torna então um obstáculo à realização espiritual e um meio de asfixia cultural dos poderes do Espírito.

     Para romper com o marasmo da vivência normativa superficial e já estéril para o Espírito, Jesus busca então evidenciar a extrema importância da qualidade moral do mundo íntimo, da vivência virtuosa do ensino moral e como somente a plenitude desta vivência pode de fato inserir o indivíduo no reino. Sendo esta questão de magna importância, Jesus então faz inúmeras comparações do seu ensino com o da tradição profética, comparações que parecem desproporcionais e exageradas, por exemplo, quando faz comparações entre a injúria e o assassinato, dizendo que o ato de injuriar ou ofender alguém é tão grave quanto o de matar alguém, diz ele:

     “Ouvistes o que foi dito aos antigos? Não matarás, e quem matar será réu no juízo. Pois eu vos digo que todo o que se ira contra o seu irmão será réu no juízo; o que disser ao seu irmão: raca [palavra injuriosa], será réu no conselho; e o que disser: és louco, merecerá a condenação do fogo do inferno.”

     De um ponto de vista meramente jurídico a comparação entre assassinato e injúria é desproporcional, mas, como ressalta Kardec, Jesus sempre ensina a partir de um ponto de vista absolutamente transcendente, de forma que a plenitude da vida espiritual radicada em Deus exige, para ser realizada na criatura, que não apenas o ato de matar seja evitado, mas também que todo e qualquer sentimento inferior seja suplantado e extinto da totalidade da existência do indivíduo. De início a lei divina é apresentada por Moisés e os profetas sobretudo como interdição ao ato mau, e com Jesus ela é complementada como sublimação do mundo íntimo onde se dá a determinação de todos os atos. Alcançando a purificação do mundo íntimo, o indivíduo então se expressa na espontaneidade do bem, que é a plenitude da vivência virtuosa, muito além da simples vivência normativa.

     A abordagem interpretativa de Kardec, portanto, nos ajuda a entender a coerência interna do ensino ético e metafísico de Jesus e o seu diálogo igualmente coerente com a tradição profética do povo judeu. Os projetas e Jesus são como potentes diretrizes a orientar a história espiritual do homem vinculado à Terra que necessita seguir o rumo à transcendência total.

Referência:

Bem-aventurados os mansos e pacíficos, Cap. IX. O Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan Kardec.

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