A Virtude da Pureza

A virtude da pureza em PDF

 

A Virtude da Pureza

ou do acolhimento da luz no íntimo da alma

     A análise de Kardec em torno do evangelho visa explicitar sobretudo como Jesus apresenta um efetivo programa de desenvolvimento espiritual e moral da criatura, em plena concordância com a constatação da imortalidade da consciência individual, e como somente esta realização pode garantir a consumação de seu supremo destino. O Espírito, ser consciente do universo, deve ser artífice de si mesmo, em moralidade e intelectualidade, para poder viver a união com Deus na consciência de si que se encontra no Outro – na suprema Alteridade, no Absoluto.

     Assim, verificamos que Kardec adota uma ordem expositiva das virtudes imprescindíveis para o cultivo do Espírito que anseia por realizar o seus mais altos destinos, e esta ordem das virtudes tem uma relação íntima de solidariedade, no sentido de que uma prepara o advento da outra, ou que uma não pode se dar sem a outra.

     A primeira, na ordem das virtudes, é a humildade e, enquanto ela é também uma percepção lúcida das limitações, precariedades e imperfeições que constitui a consciência finita, esta típica autopercepção então fomenta mais decisivamente no Espírito uma importante inclinação para o cultivo da virtude da pureza. Ora, como desejar ser puro se não há o reconhecimento da própria impureza? A humildade mostra a realidade do que somos e a virtude da pureza se inicia na alma como oposição aos impulsos inferiores que brotam naturalmente do que somos, para muito depois se transformar em límpido e onipresente desejo do bem; inicialmente é constante esforço de limpeza moral da alma, só para muito depois ser espontânea expressão do estado imaculado da alma.

     Mas no que concerne às condições morais da humanidade terrestre, o importante e imperioso mesmo é considerar a virtude da pureza no seu característico esforço de limpeza moral, pois estamos muito aquém de conquistar a experiência da espontaneidade das virtudes. Com efeito, Jesus a apresenta como condição necessária para receber o “Reino de Deus”, ele diz:

     “Digo-vos, em verdade, que aquele que não receber o reino de Deus como uma criança, nele não entrará.”

     A criança, da qual Jesus fala, é um símbolo, não pode ser tomada ao pé da letra. Ora, o estado mental da criança é caracterizado como uma espécie de sonho acordado, em que fantasia e realidade facilmente se fundem, em que certa dispersão mental é quase que preponderante, enfim, não é no sentido psicobiológico que se deve entender o simbolismo da infância. Além disso, se a virtude da pureza é condição para receber o reino, então, mesmo na conturbada e intrincada vida moral da humanidade terrena, é possível vivê-la, conquistar suas primeiras expressões na alma, doravante impelida pela humildade, isto é, pela consciência de suas imperfeições; caso contrário, Jesus não ensiná-la-ia e, por outro lado,  estaríamos perdidos, ou então a salvação só seria possível em virtude do dogma da remissão dos pecados pela mediação de Cristo Jesus, por pura graça, sem nenhum merecimento da criatura degradada.

     Mas o evangelho, tal como ressalta Kardec, é um efetivo programa de desenvolvimento espiritual da criatura, com alto senso pedagógico, e isso só faz sentido porque a criatura é perfectível, passível de se melhorar, de superar a si mesma na infinitude do tempo, não em uma simples vida que se resume como um instante na eternidade.

     Desta forma, a parábola em que Jesus enfatiza a virtude da pureza como condição para o recebimento do reino é plena de significados, e Kardec nos oferece alguns elementos para apreendermos a lógica desta condição necessária.

     A expressão “reino de Deus” é dita em duas acepções. Quando se diz – receber o reino – isso é concernente ao ensino moral, aos princípios éticos que, quando plenamente vividos, levam ao reino; e quando se diz – nele não entrará – é concernente ao consumado, ao realizado na criatura, a consciência então está no reino de Deus porque ela se fez o reino em moralidade sublimada, se assim não o fizer, “nele não entrará.”

     Então, receber o reino não significa estar no reino, mas sim acolher no íntimo da alma os princípios éticos que permitem realizar o reino na própria criatura. No entanto, Jesus também assevera que o reino já está dentro de nós, qual grão de mostarda. Esta imanência, esta presença do reino na criatura é justamente a consciência, enquanto “guardião da probidade interior”, enquanto detentora dos princípios éticos universais que devem reger a criatura para a consumação da transcendência.

     Como receber o reino no caos dos impulsos inferiores? Como sentir de fato a delicadeza de seu chamado se a insensibilidade moral domina a alma? Como acolher as suas exigências éticas se somos insubmissos aos ditames da própria consciência? Como deixar o pensamento ser sutilmente impregnado pela luz serena da consciência se a atenção só é aplicada aos desejos mesquinhos, à manutenção do ressentimento, às vaidades sem fim, ao orgulho, à maledicência? Como ter um contato com a consciência se estamos afastados de nós mesmos, mergulhados nas fantasias, nas ilusões de um mundo psicológico perturbado e inculto?

     Eis porque a virtude da pureza, representada no simbolismo da infância, é a condição necessária para se receber o reino, pois ela é ao mesmo tempo oposição aos impulsos inferiores e às futilidades impregnadas na vida interior e acolhimento da luz da consciência nesta mesma vida interior. O homem interior, em oposição ao homem velho, da tradição paulina, nasce então com a percepção sincera e comedida de si mesmo infundida pela virtude da humildade, e doravante se esforça por acolher no íntimo o chamado viril da consciência por meio da virtude da pureza, tentando superar a inferioridade que constitui seu pensar, seu sentir, seu imaginar e seu desejar, isto é, a totalidade de seu mundo íntimo.

     O simbolismo da infância tem aspectos relevantes para se entender em que consiste a virtude da pureza e sua importância como exercício espiritual. Kardec realiza uma análise do fenômeno da infância em relação à consciência encarnada, e expõem as seguintes considerações:

  •      Sendo o Espírito anterior ao corpo, toda criança que nasce não é necessariamente pura, pois o Espírito nela encarnado já traz em si tendências por vezes perversas;
  • Entretanto, logo no início do desenvolvimento fetal, o corpo impõe severas limitações às faculdades do Espírito, de modo que seu passado moral fica aparentemente anulado, adormecido;
  • O contato com o novo corpo, pela encarnação, oferece então ao Espírito um “novo ponto de partida”, pois estando o caráter, com seus vícios e imperfeições, adormecido, mesmo que temporariamente, há um estado de inocência, no sentido de que nenhum impulso perverso ou inferior está a determinar o mundo íntimo da alma encarnada; nisto consiste o assemelhar-se a uma criança, e não ser igual (idêntico) a uma criança, como Jesus muito bem distingue;
  • Então, neste momento específico, a infância está de fato revestida com a “roupagem da inocência;”

     Para Kardec, pureza e inocência estão igualadas num mesmo significado quando se considera que elas representam o exercício virtuoso de acolher e cultivar apenas os bons sentimentos e pensamentos. É esta qualidade da inocência que se deve perpetuar ao longo da vida na carne e que não é inerente apenas à psicobiologia da infância.

     Se na infância a roupagem da inocência transitória se dá por determinismo psicobiológico, todavia, no programa de desenvolvimento moral da criatura, tal roupagem da inocência deve ser conquistada como qualidade intrínseca à manifestação da consciência, de maneira que ela venha a se caracterizar como um estado moral permanente. Isso está em franca contradição com a psicologia materialista, pois ela entende que os elementos inferiores da psique são como marcas essenciais da condição do fenômeno humano, mas este pressuposto só vem reproduzir, ironicamente, na concepção materialista do homem, o dogma teológico da condição fatalmente degradante da humanidade, como herdeira do pecado e sempre propensa ao erro, ao mal e às imperfeições.

     Entretanto, em face da imortalidade da consciência, Kardec também descobriu que na imensidade da população espiritual presente na erraticidade existe o que ele classifica como Espíritos bons, que caracterizam justamente um estado de consciência em que na plenitude de sua manifestação só há o “desejo do bem”, isto é, uma vida interior onde maus pensamentos e maus sentimentos nem se quer despontam, inclusive no que é denominado de inconsciente –  a totalidade do ser goza da pureza. E estes Espíritos bons muito comumente nem sequer passam pelo estado de Espíritos imperfeitos, de modo que, na ordem universal, eles seguem “o caminho reto”, e portanto o mal, tal como nós o produzimos e sofremos, não é inerente ao fenômeno humano.

     Então nós, enquanto humanidade terrena, enquanto o conjunto dos Espíritos imperfeitos que encarnam na Terra, devemos entender a virtude da pureza como um dever, se realmente almejamos a transcendência. Jesus a apresenta como uma forma específica de receber o reino, isto é, desviar todo o nosso ser de qualquer impulso inferior, de qualquer sentimento perverso, para torná-lo cada vez mais sensível às impressões sutis da consciência, ao chamamento das exigências éticas. Dessa forma, a pureza promove uma ruptura com o passado moral que pesa sobremodo na alma e fomenta, interiormente, um novíssimo espaço de determinação do ser. Uma nova natureza é engendrada, não mais pelo pecado, mas pela luz, e, mesmo que tênue, ela deve se firmar para, numa longínqua transcendência total, extinguir toda escuridão que porventura persiste na interioridade.

     Assim, Kardec faz entender que se o homem em seu estado inferior pode receber o reino é principalmente porque ele também pode realizar plenamente o reinado de Deus em si mesmo.

Referência:

Bem-aventurados os puros de coração, Cap. VIII. O Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan Kardec.

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