O primado da humildade

O primado da humildade em PDF

 

O primado da humildade

 

     A virtude da humildade não impõe a negação da inteligência, como se fosse uma exigência moral que determina a manutenção da ignorância, ou ainda que a ignorância é condição necessária para se acreditar em Deus. Um dos maiores estratagemas do orgulho é justamente esse: pressupor que a crença em Deus só é possível em virtude de uma incapacidade intelectual.

     Kardec aborda a virtude da humildade na relação com seu oposto, o vício do orgulho. Com efeito, o orgulho se caracteriza como vício porque é o exageramento da admiração de si, é um tipo de autopercepção que ao invés de mostrar a realidade do que somos, na verdade sustenta uma imagem dotada de atributos e competências que muitas vezes nem sequer existem, e quando existem, são apenas incipientes, mau desenvolvidas.

     Mas por que, na reflexão de Kardec, a virtude da humildade está necessariamente relacionada com a ideia de Deus?

     Em primeiro lugar, porque o orgulho mantém uma certa ignorância fundamental, ele é mesmo uma forma de pensamento dogmático, pois não critica severamente a si mesmo, aceita uma superioridade de si mesmo apenas por sentimentalismo exacerbado, o orgulhoso consegue ver as suas vitórias como fruto de seu tremendo esforço, mas mau consegue perceber como a vida lhe ofereceu inúmeros estímulos e recursos e lhe sustentou em toda a sua empreitada. Mesmo um crente em Deus, quando orgulhoso, não estabelece uma relação com Deus, pois o Deus do orgulhoso deve estar a serviço de seus caprichos e deslumbres, no fundo o orgulhoso, no plano psicológico, é um perfeito solipsista, o Outro Absoluto não existe em sua cadeia mental, e as outras pessoas são meios ou obstáculos para a sua auto-admiração.

     Em segundo lugar, porque a humildade é também uma autopercepção, mas que busca em tudo não ser corrompida pela autoestima exagerada. A humildade é uma questão de sanidade mental, previne simultaneamente a megalomania e o servilismo; ela é por excelência uma virtude intelectual, pois ela depende de um exame constante de nossa insuficiência e precariedade, tanto na ordem afetiva como na ordem intelectual, e de um constante reconhecimento lúcido de que, apesar do empenho e esforço próprios, a vida toda nos sustenta. E na percepção humilde da realidade, o pensamento equilibrado nos leva a reconhecer Deus, o Outro Absoluto, maior que o eu finito que se percebe e percebe o mundo. Nem o ateu está fora do benefício da humildade, pois o ateu que cultiva a humildade, mesmo não reconhecendo o Deus das tradições religiosas, é impelido a abraçar alguma causa humanitária, algo que dignifica a sociedade, algo ao qual ele se consagra e que não se restringe a um mero contentamento e apreciação de si mesmo.

     O benefício da humildade é uma verdadeira abertura para o mundo, onde o eu não se massifica na imersão no coletivo, e também não se fecha no individualismo esquizofrênico. Não se massifica porque a humildade é lúcida presença de si, consciência de si, vigilância de si; e não se prende no individualismo/subjetivismo porque se reconhece que não se basta, que é precário, que o mundo também lhe enriquece, e com o qual tem uma dívida de gratidão, de modo que também têm que concorrer para o enriquecimento do mundo, doando o melhor de si.

     Assim, a humildade é essa lúcida presença do eu que inclui o Outro, do eu que inclui o mundo no âmbito da sua própria autopercepção, não como algo que lhe pertence, não como algo que lhe deve isto ou aquilo, mas como algo que lhe doa, e disso nasce o feliz sentimento de gratidão. Pode o orgulhoso ser realmente grato, já que vê tudo se dispondo segundo sua superior capacidade, ou tudo lhe convergindo segundo os seus interesses?

     Desse modo, a humildade é uma submissão esclarecida, lúcida concepção da razão, porque reconhece a superioridade do Outro Absoluto, quando exercida radicalmente, ou a nobreza de um princípio que suplanta o eu, quando diligentemente exercida por um ateu; ao passo que o orgulho é uma rebeldia ignorante, porque não permite o conhecimento real dos limites e da precariedade do eu nem a sua dependência em relação ao todo e o auxílio que este lhe dá incessantemente. Para o crente orgulhoso, Deus é um mordomo; e para o ateu orgulhoso, ele é Deus:

“Tomando a inteligência que possuem para medida da inteligência universal, e julgando-se aptos a tudo compreender, não podem crer na possibilidade do que não compreendem. Consideram sem apelação as sentenças que proferem.”

     Assim, Kardec define a humildade como um dos atos mais lúcidos da consciência, dizendo:

“Em todas as circunstâncias, Jesus põe a humildade na categoria das virtudes que aproximam de Deus e o orgulho entre os vícios que dele afastam a criatura, e isso por uma razão muito natural: a de ser a humildade um ato de submissão a Deus, ao passo que o orgulho é a revolta contra ele.”

     Agora é importante considerar a lógica que determina o primado da humildade. Isso se dá porque Kardec a entende como condição de possibilidade para a aquisição efetiva de todas as outras virtudes. O livro o Evangelho Segundo o Espiritismo apresenta também a exigência ética da transformação moral da criatura, elaborando um programa de desenvolvimento das virtudes no Espírito.

     Com efeito, sem a humildade, como é possível o reconhecimento das imperfeições morais e intelectuais? Sem o conhecimento equilibrado de nossa atual condição de Espíritos imperfeitos, como elaborar um programa de aperfeiçoamento moral que atinja as verdadeiras deficiências que nos constituem e combata as causas e não apenas os efeitos? Sem a humildade, como se relacionar beneficamente com a vida a fim de que cada oportunidade possa nos ensinar? Como se submeter às exigências éticas da consciência? Como combater o orgulho, a vaidade, o ressentimento? Como se submeter ao superior, ao mais elevado do que nós, no mais eminente sentido moral? Como reconhecer a autoridade moral? Porque a humildade é também o conhecimento e o reconhecimento daquilo que nos é superior.

     Portanto, a humildade prepara continuamente o campo mental para que as sementes das demais virtudes possam florescer num conjunto harmônico. Por isso Kardec determina o primado da humildade no programa de aperfeiçoamento moral da criatura.

Referência:

Bem-aventurados os pobres de espírito, Cap. VII. O Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan Kardec.

Anúncios

2 respostas em “O primado da humildade

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s