Jesus anuncia o Espiritismo

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Jesus anuncia o Espiritismo

 

     De forma bem sintética, podemos dizer que o ensino moral do Cristo apresenta três princípios fundamentais, sobre os quais tudo o mais se desenvolve: Deus, Espírito e o Amor.

  • Jesus liberta a concepção de Deus do antropomorfismo judaico, evidenciando sobretudo o atributo da bondade infinita e a universalidade, de modo que não é mais o Deus de um povo, mas da humanidade; o apresenta como efetivamente transcendente, o Outro, não podendo ser comparado com a criatura; mas Ele também é imanente à totalidade dos seres, pelas suas leis que a tudo presidem sempre para o bem. Deus como o Outro, não sendo projeção humana, instaura na cultura uma exigência ética que realmente espiritualiza o homem, em sendo vivida, pois o liberta do subjetivismo ou do espelho mental onde se julga conhecer Deus, mas na verdade está apenas a adorar uma imagem aumentada de si mesmo. O monoteísmo, a partir de Jesus, se reveste da sua mais alta expressão;
  • A humanidade não se restringe à experiência da carne, todos são essencialmente Espíritos imortais chamados a adentrar no reino espiritual de Deus. Assim, Jesus estabelece um efetivo referencial transcendente, na medida em que opõe à vida transitória na carne, a vida futura e imortal do Espírito. A noção de vida futura (espiritual) é um princípio que norteia todos os ensinos de Jesus. O destino dos Espíritos é alcançar o Reino de Deus, e isso se faz possível por meio de inúmeros nascimentos, tal como é dito a Nicodemos;
  • As vidas sucessivas oferecem as condições para o progresso dos Espíritos, mas elas podem se tornar quase infindáveis se não houver uma realização radical no amor. Com efeito, o amor, no ensino de Jesus, é o sentimento mais puro e sublime, que começa por humanizar o homem, e termina por divinizá-lo, tal como o próprio Jesus. Não é desejo, como falta, nem simpatia, como amizade, é um querer o bem sem limites, a se irradiar no todo e incessantemente. Por isso o amor exige a sua expressão na universalidade dos homens, isto é, Jesus ensina que o próximo só pode ser a totalidade dos homens, incluindo, portanto, o inimigo, o malfeitor, o invasor; todos. Tal concepção do amor está condizente, decorre mesmo da ideia do Absoluto portador do atributo da bondade infinita e da universalidade da sua ação sobre a totalidade da criação;

     Este é o cerne da doutrina moral de Jesus; simples, mas de imensa profundidade, de maneira que, se levado até as últimas consequências, geraria uma transfiguração incomensurável da sociedade. No entanto, o próprio Jesus considera o seu ensino como incompleto, e anuncia um outro advento presidido por ele, com a finalidade de ampliar o ensino e relembrar o que já foi dito; assim, anuncia:

                  “Porém, o Consolador, que é o Santo Espírito, que meu Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas e vos fará recordar tudo o que vos tenho dito.”

     As diretrizes pelas quais o “outro consolador” deve se orientar em seu trabalho na Terra já estão delineadas: relembrar e ampliar os ensinos apresentados por Jesus. Do que se conclui, segundo Kardec, que:

“Se, portanto, o Espírito de Verdade tinha de vir mais tarde ensinar todas as coisas, é que o Cristo não dissera tudo; se ele vem relembrar o que o Cristo disse, é que o que este disse foi esquecido ou mal compreendido.”

     Primeiro há a atitude pedagógica do Cristo em relação a condição evolutiva da humanidade, à sua capacidade de assimilação de verdades transcendentes; e em segundo, há a atitude dos homens em face dos ensinos de Jesus, que ao longo do processo histórico e das relações de poder, o revestiram de um intrincado simbolismo, tanto pagão como judaico.

     Com efeito, a noção do Absoluto como realidade essencialmente amorosa não repercutiu com todo o seu esplendor na formação da mentalidade cristã entre as massas, igualmente a espiritualidade cristã popular, que é vivida com toda uma suntuosidade e minúcias ritualísticas, mas muito pouco fomenta no espírito da massa a revolução da ética do amor, exigindo exclusivamente a adoração através da caridade – única que forma o homem interior e espiritual, despojado do egoísmo, dos vícios e das más intenções; e é esta mesma ética do amor que garante a realização suprema da criatura, uma vez que só a pureza do coração permitirá ver a Deus. E, por último, a noção de vida futura, que Kardec entende como fundamento de todos os ensinos de Jesus, tal noção é revestida de terror, sadismo divino e justiça burguesa. A imortalidade da alma não traz nenhuma consolação real quando pressupõe um Deus de justiça inclemente e misericórdia limitada, punindo um conjunto de atos restritos no tempo com a… eternidade! Eternidade de sofrimentos! Portanto, fica claro porque se faz necessário – “recordar tudo o que vos tenho dito.”

     Quanto ao – “vos ensinará todas as coisas” – é especificamente a demonstração e o desenvolvimento do ensino que é apresentado através de parábolas e alegorias. Kardec esclarece que o “outro consolador:”

       “…ensina todas as coisas fazendo compreender o que Jesus só disse por parábolas. Advertiu o Cristo: “Ouçam os que têm ouvidos para ouvir.” O Espiritismo vem abrir os olhos e os ouvidos, porquanto fala sem figuras, nem alegorias; levanta o véu intencionalmente lançado sobre certos mistérios. Vem, finalmente, trazer a consolação suprema aos deserdados da Terra e a todos os que sofrem, atribuindo causa justa e fim útil a todas as dores.”

     Por que seria o Espiritismo o “outro consolador”?

     Precisamente porque relembra e faz compreender os ensinos do Cristo. O Espiritismo oferece uma “chave natural” para se compreender os problemas da fé e é nessa compreensão natural e racional da fé que consiste o “ensinar todas as coisas.” Portanto, ele cumpre as duas diretrizes já delineadas no anúncio profético do Cristo.

     O Espiritismo apresenta mesmo uma íntima relação com os fundamentos do ensino moral do Cristo. Para se verificar isso, basta analisar mais detidamente o seu objeto de investigação, o seu programa de pesquisa, que é: o Espírito, suas leis e os meios de relação com o mundo corporal. Esta pesquisa é possível em virtude da fenomenologia mediúnica, estudada mais exaustivamente mediante método adequado e estabelecido por Kardec.

     Assim, em posse de uma efetiva constatação da imortalidade da alma, todo um conjunto de conhecimentos espirituais se descortina e a relação íntima com o pensamento de Jesus se faz evidente, nítida, espontânea, pois: sendo a alma imortal e absolutamente distinta da matéria, só pode ter a sua causa em uma inteligência suprema, e a bondade e o amor infinitos desta inteligência suprema se revelam nas próprias leis que regem o destino e a vida moral da alma imortal, leis igualmente apreendidas pela observação metódica do fato mediúnico. Deus, o Espírito e o amor, tais como os concebem Jesus, são igualmente os fundamentos da mundividência espírita e agora também explicados e fundamentados na dinâmica da natureza, no modus operandi do real, dentro das possibilidades racionais do homem e, por conseguinte, da cultura.

     Essas consequências filosóficas e morais/religiosas só foram possíveis de ser desenvolvidas porque Kardec não cultivou um espírito de sistema, circunscrevendo a investigação apenas ao modus operandi da fenomenologia mediúnica. As consequências filosóficas já estavam implícitas no próprio programa de pesquisa, em virtude da específica natureza do objeto de estudo – as inteligências extracorpóreas. Graças a essa postura intelectual não sistemática de Kardec, foi possível romper com os esquemas rígidos da prática científica orientada pelo positivismo, e então adentrar nos domínios do Espírito imanente à natureza, garantindo objetividade, consistência e rigor, mas com um método que lhe seja próprio.

     Desse modo, a consolação do Espiritismo consiste numa visão filosófica que explica o problema do ser, do destino e da dor, que faz compreender o drama humano e os meios pelos quais se pode superá-lo:

               “Disse o Cristo: “Bem-aventurados os aflitos, pois que serão consolados.” Mas, como há de alguém sentir-se ditoso por sofrer, se não sabe por que sofre? O Espiritismo mostra a causa dos sofrimentos nas existências anteriores e na destinação da Terra, onde o homem expia o seu passado. Mostra o objetivo dos sofrimentos, apontando-os como crises salutares que produzem a cura e como meio de depuração que garante a felicidade nas existências futuras. O homem compreende que mereceu sofrer e acha justo o sofrimento. Sabe que este lhe auxilia o adiantamento e o aceita sem murmurar, como o obreiro aceita o trabalho que lhe assegurará o salário. O Espiritismo lhe dá fé inabalável no futuro e a dúvida pungente não mais se lhe apossa da alma. Dando-lhe a ver do alto as coisas, a importância das vicissitudes terrenas some-se no vasto e esplêndido horizonte que ele o faz descortinar, e a perspectiva da felicidade que o espera lhe dá a paciência, a resignação e a coragem de ir até ao termo do caminho.

Assim, o Espiritismo realiza o que Jesus disse do Consolador prometido: conhecimento das coisas, fazendo que o homem saiba donde vem, para onde vai e por que está na Terra; atrai para os verdadeiros princípios da lei de Deus e consola pela fé e pela esperança.”

Referência:

O Cristo Consolador. Cap. VI. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Allan Kardec.

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