Respostas de Cosme Massi em Vancouver, Canadá

Respostas de Cosme Massi em PDF

 

Respostas de Cosme Massi em Vancouver, Canadá

     Transcrevemos as respostas do professor Cosme Massi feitas ao final de sua palestra que ocorrera no Canadá, em dezembro de 2016. São quatro questões que aprofundam um pouco mais sobre os problemas da ética. Gostaríamos de ressaltar que o momento final da palestra, em que ocorre o diálogo com fins de esclarecimento, este momento foi tão enriquecedor e impulsionou à reflexão tanto quanto a própria palestra. Por isso, enfatizamos que esse modelo de diálogo e debate respeitoso deve de fato ser instituído nos eventos espíritas, nos grupos de estudos. O ensino espírita deve ter como meta também fomentar o exercício crítico e a análise rigorosa dos problemas da fé, e isso só se consegue fazendo. Modelos de palestras engessadas, reforçando muito mais a postura passiva e de espectador, muito pouco contribuem para à fé raciocinada. Raciocinar, analisar, investigar, questionar, refletir, tudo isso são atos da inteligência, mobilizações efetivas dos recursos cognitivos do Espírito. O ensino espírita necessita se afastar da mera memorização mecânica e introjeção passiva, subsidiado por um emocionalismo superficial e por vezes infantil.

     As perguntas realizadas abarcam alguns aspectos clássicos e principais da ética, podem ser sintetizadas nas seguintes proposições:

  1. A ética não dita regras absolutas de comportamento, no entanto, isso não quer dizer que qualquer comportamento possa ser ético, ou que “tudo vale”;
  2. A conduta ética é independente do comportamento geral dos outros, da sociedade; o indivíduo ético determina sua ação a partir do compromisso que têm com a própria consciência;
  3. Nas relações humanas temos o dever de educar os outros, mas principalmente a partir da autoeducação; o indivíduo ético têm o dever de intervir sobre o outro e, ao mesmo tempo, respeitar seu livre-arbítrio;
  4. O paradigma do Espírito, sustentado pela imortalidade e pelos atributos infinitos de Deus, se bem assimilado e refletido constantemente, garante um vigoroso impulso de transformação moral, é uma poderosa ferramenta para a educação da vontade;

     Por fim, relembramos que esta é uma transcrição de um pronunciamento oral e, portanto, queira o leitor considerar as repetições de vocábulos e as constantes reformulações das mesmas ideias como um recurso normal de quem utiliza da fala, mas que quando na escrita, não se faz tão necessário.

Perguntas:

  1. No Brasil, por exemplo, vamos colocar uma situação de trânsito, se tiver algum motorista fazendo alguma coisa errada, agente deixa porque não queremos que batam em nosso carro, que é isto que vai acontecer, só que sempre vai continuar acontecendo o errado, isso é só um exemplo. Como combater isso se agente não tem… por exemplo, se eu tivesse um trator, isso não iria acontecer porque o meu carro seria maior, então, assim, com o poder seria mais fácil, certo? Mas isso é certo pro Espiritismo ou não? 

Resposta:  – Boa questão! Quando agente está falando de uma situação prática, que são o que os filósofos chamam de ética prática, não há respostas que sejam formulas pré-fabricadas, por isso a ética ou a moral contém princípios que servem de guia e orientação, como um farol que ilumina o caminho, mas não contém regras precisas que pudessem ser aplicadas num determinado contexto prático, são princípios e não formulas rigorosamente aplicáveis.

     Para citar um exemplo, suponhamos que agente pegue o princípio ético do não matar, e se quisermos torná-lo um pouco mais preciso, poderíamos dizer – não matar os inocentes. Mesmo esse tipo de princípio ético, em determinado contexto prático, vai precisar de ajustes, por isso a ética não é uma ciência. É muito fácil elaborar contextos em que agente precise matar um inocente, e para que vocês não achem que estou inventando, imagine uma mulher grávida que recebe o diagnóstico de sua equipe médica: “ou você faz o aborto ou morrerá.” Se ela decidir por fazer o aborto, estará violando o princípio não matar? Esta questão que estou apresentando foi formulada por Allan Kardec em O Livro dos Espíritos, e os Espíritos superiores responderam para ele – “é preferível sacrificar a vida da criança que ainda vai nascer a sacrificar a vida da mãe” – , embora tenhamos um princípio de não matar inocentes, um princípio contra o aborto, mas é um princípio e não uma lei matemática ou científica que só pode ser aplicada de uma única forma.

     Por que estou dizendo tudo isso para a sua pergunta? É que quando estamos numa vida prática no dia a dia, precisamos utilizar um conjunto de princípios éticos para encontrar a melhor resposta possível, não a única e verdadeira resposta. Não há única e verdadeira resposta em ética; ética não é ciência, na ciência nós temos respostas únicas e verdadeiras, pelo menos naquelas ciências que estão muito bem elaboradas e precisas, na ética não é assim.

     A nossa maior dificuldade na vida ética prática é combinar os princípios éticos de forma a fazer a melhor escolha, e a melhor escolha depende daquele contexto e do conhecimento que eu tenha daquele contexto. Por isso, na sabedoria de Kardec e dos Espíritos, é a consciência que nos julga. A consciência nos julgará a partir do conhecimento que temos do contexto em que estamos vivendo, por isso Allan Kardec vai dizer que é muito menos responsável um aborígene antropófago do que um homem comum que mata outra pessoa.

     Então, você tem que olhar, numa situação de trânsito, os diversos contextos que estão à sua disposição, se você tem a boa intenção, o bom desejo, você vai buscar a melhor solução, que provavelmente não vai ser aquela que você tenha um trator a sua disposição, mas uma [solução] que leve a educar-se e a educar o outro, de tal maneira a construir uma situação melhor para todos.

     Quando disse que em ética não há uma solução única e verdadeira, não significa que vale tudo. Alias a frase “vale tudo” não tem nenhum sentido, porque se tudo vale, nada vale. Em ética nós fazemos escolhas, só que ela contém princípios, orientações que mudam na sua aplicação de acordo com o contexto em que você está vivendo.

     Assim, podemos adotar e devemos dotar o princípio de não matar, de não matar um inocente, por exemplo, e portanto de não cometer aborto. Mas isso não entra em choque com o contexto em que o aborto seja permitido. Veja bem o que estou dizendo, não é que tudo vale – vale não matar, vale não praticar o aborto, embora num determinado contexto você tenha que violar este princípio, porque o contexto assim o exige.

     A razão humana é fundamental para essa análise e pessoas de bom senso, ao fazerem o uso da razão, saberão utilizar estes princípios éticos para construir uma sociedade melhor, sem necessidade de que a ética seja uma ciência, o que ela não é, são domínios distintos. A ética e a ciência podem conviver com absoluto equilíbrio, mesmo tratando de domínios diferentes. A verdade é o domínio da ciência; o valor é o domínio da ética, não posso fazer confusão entre elas, se faço confusão, fico imaginando regras absolutas de comportamento, que certamente não darão certo na vida prática.

     Quando nós acompanhamos os grandes pensadores da ética, o maior deles, o nosso Jesus, vamos encontrar em seu pensamento a formulação de princípios extraordinários que nos orientam na vida prática, e não são princípios científicos, não são verdadeiros ou falsos, são princípios éticos que nos orientam e nos guiam, mas que cada um deve aprender a utilizar.

     Então nunca posso dar uma resposta precisa para um contexto prático, só a própria pessoa que esteja vivendo aquele contexto, que tenha a posse de todas as variáveis e que esteja bem intencionada, para encontrar uma solução que seja a melhor para todos, é que será responsável pela escolha que fizer. Por isso cada um é julgado pela própria consciência.  Essa é a sabedoria que todos os grandes filósofos modernos da ética concordam, sabedoria que está no pensamento do próprio Cristo.

2. Eu lembrei de uma boa pergunta sobre ética, de uma menina de doze anos, ela é espírita e faz evangelização, e ela diz assim: Eu acho meio estranho essa coisa de ética, eu sou ética, mas os meus amigos na escola não são, eu fico meio boba se for ética. Como eu posso ser uma boa espírita assim?”

Resposta:  – Boa questão! Alguns filósofos materialistas modernos, da área de ética, tem uma frase sobre ética muito interessante: “Na ética, nós podemos aplicar a seguinte expressão: sozinhos universalmente.” Porque a ética é sempre em primeira pessoa, cabe a cada um de nós ser ético e mesmo desejar que todos o sejam, mas mesmo que ninguém seja, cabe a mim ser ético. Por isso a ética é sempre em primeira pessoa, ela nos diz o que eu devo fazer, não o que vocês devem fazer. Nunca podemos olhar para um princípio ético como se ele fosse orientações para os outros; por isso eu serei responsável exclusivamente pela minha conduta ética, não pela conduta dos outros, a não ser que eu tenha provocado essas condutas.

     Então essa criança, esse jovem, que está preocupado que ele é ético e seus amiguinhos não o são, ele deveria ficar feliz, porque se ele está sendo ético, é o que importa, o que os outros são, eles responderão por isso. Claro que a gente deve desejar a universalidade da ética, por isso a frase que citei – sozinhos universalmente. Mas esse desejo de universalidade não deve ser o móvel de minha conduta; eu devo me comportar eticamente, independente da conduta do outro. Claro que em uma filosofia materialista fica mais difícil para você justificar essa conduta ética, mas para o espírita é fácil justificar, porque como a vida continua mesmo, ele responderá por sua conduta ética, a cada um segundo a suas obras, é a lei da justiça divina que se cumpre sempre para o Espírito.

     Então, se você é espírita, o compromisso de conduta ética é um compromisso que você assume com a própria consciência, mesmo que o mundo lá fora seja uma barbárie, você responderá por sua própria conduta. Não esqueça disso, a justiça divina sempre acontecerá. Ser justo depende de você, a justiça divina não depende de você, é Deus quem a aplica. Por isso costumo explicar  diferença entre a virtude da justiça e a justiça divina. A virtude da justiça é um compromisso seu, só depende de você ser justo, mas quer você seja justo ou não, a justiça divina acontecerá sempre.

     Então, vale a pena ser ético.

3. No começo da sua palestra você fala sobre a questão de, certa forma, se intrometer em educar o outro. Até que ponto eu educar o outro é eu não interferir no livre-arbítrio dele? Qual é o limite?

Resposta:  – Muito boa a pergunta, uma pergunta que só você vai ser capaz de encontrar a resposta, por uma razão muito simples, todo processo educativo é um processo de intervenção na vida do outro, o problema é saber exatamente até onde eu devo ir, esse é o maior desafio de todo mundo, de pais para com filhos, de professores para com alunos. Mas o que você não pode perder de vista é o seu dever de educar-se, em primeiro lugar, e de desenvolver ambientes e situações que o processo educativo possa acontecer. É um exercício constante de aprendizado em que, quem quer aprender acaba encontrando a resposta para como ensinar.

     Este é o grande desafio; o que tem muitas vezes acontecido é a atitude oposta da omissão, ou de lavarmos as mãos, como se aquilo não nos disse respeito. Mas nós temos um contexto que vai ter implicações para toda a sociedade, que é o contexto da educação de nossos filhos, das nossas crianças, onde ainda, graças a Deus, nós temos a liberdade de exercer este papel. No contexto da família, a responsabilidade dos pais é muito grande.

     Em o Evangelho Segundo o Espiritismo, ao tratar exatamente do papel dos pais no processo educativo, Santo Agostinho vai observar que este é o principal dever dos pais e que responderão, quando recebemos em nossa família esses Espíritos imperfeitos – e creiam, nossos filhos são Espíritos imperfeitos… há muita gente que acha que os seus filhos são anjos, como acabei de dizer ainda pouco, Espíritos bons encarnados na Terra são muito raros, não vou nem falar em anjo, que seria os Espíritos puros; Espírito puro na Terra encarnou apenas um até hoje – ; então, nossos filhos serão, com alta probabilidade, Espíritos imperfeitos como nós, que sentem ciúmes, inveja, mágoa, raiva, ódio, que são preguiçosos, malevolentes, maledicentes, esses vícios morais que os pais também cultivam. É nossa responsabilidade de ajudá-los, por meio de uma educação moral, a evoluírem na escala espírita; seremos responsáveis se não fizermos a parte que nos compete.

     Então, precisamos aprender como agir, como fazer. Recomendo para aqueles que querem e que gostam da educação de crianças, um texto de Allan Kardec, que se encontra na Revista Espírita, que vocês podem colocar lá no “buscar” do site Kardecpedia, o seguinte texto: Primeiras lições de moral da infância, onde Kardec traça orientações precisas de como educar moralmente nossas crianças, e vocês vão descobrir no texto que a postura que Kardec apresenta não tem nada de omissão ou paternalismo.

4. De que forma o Espiritismo pode nos ajudar há sentir mais vontade do que desejo pra seguir no caminho do bem? 

Resposta:  – Que plateia maravilhosa, só boas questões! Principalmente, o Espiritismo pode nos ajudar pela prova científica que nos apresenta de que somos uma alma imortal. Agente, às vezes, não pára para pensar neste resultado: somos realmente uma alma imortal. Já paramos para pensar em todas as consequências disso? Não se trata de uma hipótese, de uma conjectura, de uma ideia de alguém, se trata de uma verdade. Da mesma forma que não ponho o dedo na tomada porque é verdade que tomarei um choque, se é verdade que sou uma alma imortal, e os textos de Allan Kardec, construídos de uma forma científica, demonstram isso de forma clara, pra todos aqueles que mergulham no seu texto; ao sabermos disto, toda a vida moral passa a ser muito mais importante, você não vai olhar para você julgando que você é isto, nós não somos um corpo que pensa e que certamente vai morrer daqui a pouco, nós somos uma alma imortal e prosseguiremos por toda eternidade, mais ainda, sabemos pela ciência espírita, que as condições de infelicidade e felicidade futuras dependem fundamentalmente de nossa vida moral, isso é tão verdadeiro, no Espiritismo, quanto dois mais dois é igual a quatro na aritmética clássica.

     Na hora que guardo em mim esta certeza, passo a levar a sério o esforço de mudança moral. Santo Agostinho, para encerrar, na pergunta 919a de O Livro dos Espíritos, ele nos convida a esta transformação moral, justificando para cada um de nós exatamente dizendo que somos uma alma imortal. Por isso vale a pena esse esforço, porque se fossemos um corpo que vai desaparecer daqui a pouco, pra que me preocupar com o progresso moral? Cada um, se for materialista de fato, deveria viver a vida só pra si, nem mesmo para seus filhos ou amigos, afinal de contas seus filhos e amigos vão desaparecer também, alias ele só deveria cuidar de seus filhos e amigos durante o tempo que seus filhos e amigos lhe dão algo que lhe faça bem. O verdadeiro materialista, para ser coerente, deveria se ocupar apenas com seu próprio prazer e felicidade, uma vez que a vida acaba com a morte. Pra que fazer esforço para vencer o ciúmes se isso me dá prazer? Pra que fazer esforço para vencer a maledicência se isso me dá prazer? Se vou desaparecer daqui a pouco, é melhor sentir prazer agora e sempre, enquanto estou vivo, depois de morto não tem mais nada. Veja que o materialista tem boa justificativa para sua vida egoísta, mas o espírita não, porque ele sabe que a vida continua e que ele vai responder, em contexto de dor ou felicidade, por tudo aquilo que ele fizer em cada momento da sua vida, que cada instante que ele está vivendo na Terra, ele prestará contas a Deus, tudo aquilo que ele é, tudo aquilo que ele faz, tem consequência para a sua vida futura… e tem mesmo, quer ele goste quer não; quer ele acredite quer não. Como disse anteriormente, a justiça divina se faz sempre, porque é Deus quem faz, cada um de nós terá que fazer a sua própria parte, porque somente aquilo que ele faz gerará consequências para a sua felicidade ou infelicidade futuras.

     Por isso, Allan Kardec vai dizer em O Livro dos Espíritos que a mais importante tarefa do Espiritismo é matar o materialismo, porque o espírita convicto não pode ter a mesma vida de um materialista, Para concluir, digo a você, não conheço nenhuma ciência mais importante do que o Espiritismo para nos dar todos os elementos para nossa transformação moral. Por isso eu costumo dizer, que é preciso compreender Kardec, para viver Kardec.

     Muito obrigado, uma boa noite.

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Uma resposta em “Respostas de Cosme Massi em Vancouver, Canadá

  1. Em relação a última pergunta também gosto de refletir sobre a mensagem “O Ponto de Vista” presente em “O Evangelho Segundo o Espiritismo”. É muito importante termos a consciência de que somos espíritos imortais e perfectíveis e pautar toda nossa vida segundo esse ponto de vista, que nos dá força, vontade e consciência para vivenciar o amor, a caridade, a ética, todas as virtudes.

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