O paradoxo da aflição

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 O paradoxo da aflição

Bem-aventurados os aflitos

 

 

“Sede como o militar, e não aspireis a um repouso que enfraqueceria o vosso corpo e entorpeceria a vossa alma.”  – Lacordaire

Introdução

     Deus existe e, entretanto, o “infortúnio é múltiplo; a infelicidade sobre a terra, multiforme…” como diria o poeta Poe.  Ao abordar a existência humana algo se destaca inevitavelmente e intensamente – é o sofrimento que permeia toda a vida e que marca de muitas formas todos os indivíduos.

     O Espiritismo, adentrando no período filosófico, tal como assinala Kardec, e portanto não se restringindo apenas a uma teoria das manifestações espirituais, tem então necessariamente de se ocupar com a existência humana e com os vários elementos destoantes que a compõem, a começar pela presença patente do sofrimento, que se multiplica de forma muito desigual por toda a existência na Terra.

     Dessa forma, um problema existencial se levanta diante da investigação kardeciana: a cosmovisão espírita tem seu fundamento supremo na existência de Deus revestido inclusive de atributos morais infinitos – tais como a justiça infinita e a bondade infinita; então como manter, sem inconsistência e sem contradição, uma relação entre Deus e o sofrimento multiforme e desigual espalhado por toda a terra?

     Na filosofia espírita, os atributos infinitos da divindade são também um criteriu maximus com o qual se pode aferir a legitimidade ou o valor de verdade de alguma teoria que busca dar razões aos problemas fundamentais da existência humana, tal como o inegável problema do sofrimento. Mas este critério de verdade, que mantém a coerência e coesão interna dos postulados da filosofia espírita, não possui nenhuma característica dogmática e de imposição arbitrária, pois estes atributos infinitos da divindade são deduzidos por meio de uma atividade metódica da razão. A única autoridade é a autoridade da razão. Para o exame da demonstração dos atributos divinos, bem como da existência de Deus, verifique o leitor estudioso os textos contidos na Gênese, que são: Da natureza divina e Existência de Deus.

     Assim, Kardec enfrenta o problema existencial do sofrimento sob à luz e às exigências do criteriu maximus, já demonstrando como deve proceder a filosofia espírita na abordagem da existência humana, isto é, o rigor da filosofia espírita consiste também em não contradizer em nada àqueles atributos do Absoluto que a própria razão deduziu; por isso, assevera Kardec:

      “(…) desde que admita a existência de Deus, ninguém o pode conceber sem o infinito das perfeições. Ele necessariamente tem todo o poder, toda a justiça, toda a bondade, sem o que não seria Deus. Se é soberanamente bom e justo, não pode agir caprichosamente, nem com parcialidade. Logo, as vicissitudes da vida derivam de uma causa e, pois que Deus é justo, justa há de ser essa causa. Isso o de que cada um deve bem compenetrar-se.”

     Kardec se impõe um verdadeiro desafio, que é: demonstrar efetivamente a causa justa do sofrimento humano que por sua vez faz parte de um Cosmos criado e regido por uma inteligência divina soberanamente justa e boa. Se o Cosmos fosse regido pelo absurdo ou por nada, então o problema do sofrimento humano não teria que ser entendido necessariamente em termos de justiça e muito menos de alguma consolação possível. Mas quando se admite racionalmente a existência de Deus, e com aqueles atributos infinitos, não há dois ou mais caminhos, mas o único caminho de se demonstrar necessariamente a justiça das aflições e suas consequentes consolações. Caso contrário, a ideia racional que se faz de Deus é insustentável.

     E o desafio que Kardec se impõe se torna ainda mais ousado, na medida em que ele busca demonstrar que além das aflições terrenas serem efetivamente justas, elas também encerram em si verdadeiros motivos de alegria e esperança – inversão paradoxal. Assim, Kardec busca justificar racionalmente o paradoxo da aflição contido neste ensino de Jesus: “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.”

     É possível ser feliz precisamente porque se sofre? O sofrimento não seria sim um obstáculo para que uma certa felicidade acontecesse? Como entender esse paradoxo – felizes os que sofrem? Pode a filosofia espírita demonstrar a justiça das aflições, sem cair na inconsistência ou no absurdo e respeitando invariavelmente os atributos infinitos do Absoluto? É possível mesmo que haja motivos de alegria e esperança no sofrimento que é vivido na Terra? Se o sofrimento for uma condição para a felicidade, onde a justiça e a bondade nisso?

     Vejamos, pois, se a filosofia espírita se mantém rigorosa e consistente na abordagem da existência humana em face do sofrimento.

  1. Analítica do sofrimento em concordância com a justiça divina 

     Na investigação da problemática do sofrimento, Alla Kardec faz uso inicialmente de uma abordagem analítica, isto é, ele não recorre à concepções gerais ou a princípios a priori para se explicar o sofrimento humano, pelo contrário, ele se concentra inteiramente no todo da vida que se apresenta, no agora existencial. Mas este “agora existencial” não é o instante fugidio, por isso ele o denomina como “vida presente.” Portanto, “vida presente” é compreendida como o todo da vida atual na específica concomitância com a consciência de vigília, e não apenas uma parte ou o momento que se esvai.

     Por que Kardec se preocupa inicialmente em delimitar a “vida presente” em concomitância com a consciência de vigília? Esta pergunta pode ser respondida em duas partes: 1ª – porque no estudo analítico do sofrimento, isto é, partindo de sua intensa realidade existencial e nada mais, deve-se considerar o primeiro dado que se impõe inevitavelmente, e sem o qual de certo modo nada seria, ou seja, o eu que sofre, o “eu-sofredor”, e portanto, a consciência de vigília não neste ou naquele momento, mas na totalidade de sua ação nesta vida; e em 2ª, em decorrência rigorosa da primeira justificativa, se faz necessário investigar, dentro de uma abordagem analítica do sofrimento, em que medida este “eu-sofredor”, está consciência de vigília, em virtude de sua capacidade de ação deliberada, não veio então a determinar, a contribuir de modo fundamental para a sua própria condição sofredora.

     Assim, para Kardec não importa a vida instintiva, inconsciente e puramente pulsional, que também faz parte da vida humana; o fundamental, na analítica do sofrimento, é se concentrar inicialmente na “vida presente” em concomitância com a consciência de vigília, pois é nesta concomitância que surge um relativo espaço de liberdade onde uma ação específica da consciência de vigília elabora a condição futura do eu, que pode muitas vezes se tornar um “eu-sofredor” – um indivíduo numa condição de sofrimento.

     O primeiro escopo da abordagem analítica é delimitar a causa do sofrimento, o que o desencadeia, e se é possível entendê-la como uma “causa justa.” Esta consciência de vigília, a qual todos os indivíduos humanos tem uma experiência imediata e inconfundível, ela é como que o centro psíquico da personalidade, é a partir dela em relação com as experiências que o mundo oferece, que se forma a pessoa humana. Entretanto, ela não é apenas “um observar passivo” que recebe as impressões do mundo e por ele é moldada inteiramente; há um conjunto de faculdades cognitivas unidas à faculdade da vontade que permite que esta consciência aja sobre si mesma e sobre o mundo.

     A consciência pode agir, e não apenas perceber e saber que percebe; e essa atividade específica da consciência faz surgir no mundo novas circunstâncias e situações com as quais ela mesma contribuiu para que surgissem. As ações cuja causa está na atividade do eu de vigília são designadas como ações morais, não no sentido axiológico ou de que se segue esta ou aquela regra, mas no sentido mais geral de que são ações não mecânicas, não instintivas ou inconscientes tão somente.

     O eu de vigília apresenta no mundo uma conduta, isto é, um conjunto de ações que decorrem do caráter. O caráter é a qualidade moral em que persiste a consciência de vigília num tempo mais ou menos longo, quando não por toda a vida terrena. A qualidade moral é entendida num sentido axiológico, valorativo. Portanto, a partir do momento que a consciência de vigília pode agir e age por motivos intrínsecos, a sua ação é indissociável de uma qualidade moral, em virtude do caráter revelar as preferências, apegos e limitações intelecto-afetivas do eu de vigília.

     Tendo em vista que o eu de vigília contribui moralmente para o surgimento de novas circunstâncias no mundo, então Kardec busca delimitar a fonte dos males terrenos que decorrem como “consequência natural do caráter e da conduta daqueles que os sofrem”, de maneira que as preferências, os apegos, os egoísmos, as vaidades, as limitações intelecto-afetivas do eu de vigília, numa palavra, o caráter, são a causa fundamental de uma certa condição de sofrimento.

     Por isso, para se entender a causa do sofrimento e assim lutar por superá-lo, Kardec convoca a uma atitude realmente séria, sensata e autocrítica, dizendo:

                     “Interroguem friamente suas consciências todos os que são feridos no coração pelas vicissitudes e decepções da vida; remontem passo a passo à origem dos males que os torturam e verifiquem se, as mais das vezes, não poderão dizer: Se eu houvesse feito, ou deixado de fazer tal coisa, não estaria em semelhante condição.”

     E, mais a frente, conclui:

            “(…) a má estrela é apenas a sua incúria.”

     A analítica do sofrimento estabelece então uma primeira resposta: o sofrimento existe, isto é certo, e não menos certo é que a consciência de vigília também age no mundo por determinações que partem de si mesma, e estas ações participam de uma qualidade moral, uma vez que elas tem relação íntima com a natureza moral do indivíduo ou caráter. Portanto é possível verificar que muitos dos sofrimentos vividos na Terra tem a sua causa fundamental nas imperfeições do caráter. Para se aperceber desta causa se faz necessário examinar friamente a própria consciência, e, logicamente, no próprio exercício deste exame efetivamente frio e rigoroso, já se inicia o processo de superação da condição de sofrimento.

     Mas a constatação de que a causa do sofrimento decorre muitas vezes do próprio indivíduo, de sua incúria, de sua negligência e imperfeições morais, é realmente suficiente para se estabelecer a “causa justa”? A “causa justa”, que a filosofia espírita deve sustentar sem inconsistência e sem contradição, é aquela que respeita perfeitamente os atributos da justiça e bondade infinitas do Absoluto.

     Em parte, o sofrimento é determinado sim pelo próprio indivíduo, mas a realidade do sofrimento humano transcende as ações da consciência de vigília na “vida presente”, ou o sofrimento não se explica apenas pela causa moral atual. Kardec não foge a esta observação, seu ponto de partida é a realidade do sofrimento, e não elucubrações mentais, e a realidade lhe impõe a necessidade lógica de se estabelecer analiticamente uma outra causa do sofrimento que venha complementar a causa fundada nas ações da consciência de vigília na “vida presente.”

     Por isso, Kardec continua lucidamente na sua abordagem analítica do sofrimento humano, avançando para a outra causa do sofrimento; diz ele:

               Mas, se há males nesta vida cuja causa primária é o homem, outros há também aos quais, pelo menos na aparência, ele é completamente estranho e que parecem atingi-lo como por fatalidade.”

     Eis então a multiplicidade do infortúnio humano sobre a Terra, que não pode escapar de modo algum a uma analítica rigorosa. Se há uma causa circunscrita à vontade e ao caráter, o que dizer dos fatos abundantes que transcendem o indivíduo atual e se apresentam sob o signo da fatalidade? Sofrimentos como:

      “…os acidentes que nenhuma previsão poderia impedir; os reveses da fortuna, que frustram todas as precauções aconselhadas pela prudência; os flagelos naturais, as enfermidades de nascença, sobretudo as que tiram a tantos infelizes os meios de ganhar a vida pelo trabalho: as deformidades, a idiotia, o cretinismo, etc.”

     Esses sofrimentos se impõe a existência humana independente das qualidades morais dos indivíduos, de modo que a noção de fatalidade se apresenta como inerente a existência, é como se o indivíduo falasse para si mesmo: “independente do que eu faça, uma certa condição de sofrimento me acompanha quase que invariavelmente por toda a existência, quando não desde o berço até o túmulo.”

     Entretanto, se uma certa fatalidade se apresenta como inerente à existência, como pode ela estar de acordo com os atributos morais do Absoluto? Se Deus cria todos os indivíduos e já os lança numa condição de sofrimento, antes mesmo que se manifeste a qualidade moral de seu caráter, isto é, que venham a ser pessoas, então isso seria mesmo “a negação da bondade, da justiça e da providência de Deus.” Dentro da perspectiva de um teísmo natural e racional, que é o da filosofia espírita, a fatalidade do sofrimento, se não for explicada natural e racionalmente, invalida diretamente a prova racional da existência de Deus revestido de atributos morais infinitos. O Absoluto, também enquanto critério de verdade, é o que sustenta a coerência da filosofia espírita na investigação dos problemas existenciais, de maneira que Kardec interroga sempre dentro da perspectiva do teísmo natural e racional:

                 “(…) Que fizeram essas almas, que acabam de sair das mãos do Criador, para se verem, neste mundo, a braços com tantas misérias e para merecerem no futuro uma recompensa ou uma punição qualquer, visto que não hão podido praticar nem o bem, nem o mal?” 

     Nesta pergunta já se evidencia alguns pontos importantes:

Para se estabelecer a “causa justa”, a noção de fatalidade do sofrimento:

  • Não pode se fundar num simples querer arbitrário de Deus, pois isso negaria o atributo da justiça;
  • Não pode decorrer de um estado de inocência na origem do ser, muito menos de um estado de culpabilidade como herança moral advinda de antecessores, uma vez que tais pressupostos são flagrantemente ilógicos e absurdos em face do teísmo natural e racional;

     Portanto, Kardec conclui rigorosamente que a fatalidade do sofrimento humano só pode ser determinada também por uma causa moral, porém não fundada na ação divina, isto é, novamente na condição moral do indivíduo e nas ações que daí decorrem. Mas esta causa moral não sendo nem sequer atuante no início da “vida presente”, é, pois, necessariamente uma causa moral anterior à “vida presente”. Então, o indivíduo existe antes da manifestação da consciência de vigília, e por ações morais anteriores, bem como por necessidades existenciais, determinou as linhas gerais das condições da “vida presente.” Portanto, a analítica do sofrimento, na perspectiva do teísmo natural e racional, implica a pluralidade das existências. 

     É necessário atentar para o rigor da argumentação kardeciana: “vida presente” e vidas anteriores formam uma unidade que representa os diferentes “momentos existenciais” da manifestação da consciência no tempo, mas como unidade, é forçoso concluir que a totalidade da vivência da consciência está invariavelmente a determinar o agora existencial, isto é, a presente vida encarnada e circunscrita ao epifenômeno da consciência de vigília. É somente considerando a totalidade da consciência, bem como suas ações morais em vidas anteriores, que pode se explicar a fatalidade do sofrimento humano, uma vez que o todo da consciência transcende a personalidade atual, permitindo estabelecer, de forma natural e racional, o que Kardec designa como “causas anteriores das aflições.”

     Desta maneira, a “causa justa” é estabelecida por meio de uma analítica do sofrimento empreendida rigorosamente por Allan Kardec.

  1. Analítica do sofrimento em concordância com a bondade divina

     Kardec, assim, demonstra efetivamente a justiça das aflições humanas, seja como consequência das ações morais na “vida presente”, ou até como fatalidade, que na verdade é determinada por ações morais em vidas anteriores, de modo que a liberdade do Espírito é, em ambos os casos, o fator condicionante e mais decisivo da condição sofredora.

     Mas o paradoxo do sofrimento, que diz – felizes aqueles que sofrem – , ainda continua como um pleno desafio existencial, porque mesmo a justiça das aflições sendo estabelecida de forma natural e racional, este entendimento puramente intelectual dificilmente causa um efeito consolador e apaziguador àquele que sofre.

     Por isso, Kardec avança em sua investigação evocando também um outro atributo fundamental do Absoluto –  a bondade divina. O sofrimento, investigado sob a perspectiva da bondade divina, suscita uma compreensão complementar à justiça das aflições, e desse modo contribui para o amadurecimento de um vigoroso sentimento de consolação ante às amarguras da vida.

     Agora o foco não é determinar a origem do sofrimento, e sim a sua finalidade existencial, quais as suas consequências morais para a totalidade da consciência que se manifesta no tempo.

     Sofrimento apenas pelo sofrimento, punição apenas pela punição é uma ideia muito restrita da justiça divina atuando na existência humana. Mas Deus não é apenas justiça, é também bondade, segundo a análise racional e ontológica da existência divina. No plano do discurso humano, somos naturalmente impelidos pela razão a seccionar as qualidades divinas, porém, Deus é uma unidade simples, uma totalidade sem partes, de modo que seus atributos estão impregnados uns nos outros, por isso, na ordem do ser, e não na ordem do discurso, podemos perguntar: é possível a justiça não ser boa, e a bondade não ser justa; pode alguma ação divina não gerar somente o bem? Impossível, caso contrário Deus não seria Deus. Isto está fundado rigorosamente na proposição seguinte: Os atributos de Deus são infinitos e a expressão desses atributos na criação se dá por meio de uma unidade infinita. Isso quer dizer, por exemplo, que Deus agindo na existência humana, age com a totalidade da sua natureza, que não se resume na justiça e na bondade. O esforço legítimo da razão na enumeração dos atributos divinos, posto que necessário, será sempre precário, pois, em virtude da sua natureza, ela é incapaz de apreender a unidade divina em si mesma e a unidade divina na interação com a criação. Reconhecer as limitações do conhecimento metafísico que a razão edifica é algo imprescindível na filosofia espírita.

     Portanto, estando a justiça divina impregnada igualmente de bondade, esta determina sempre o “benefício do sofrimento”, isto é, no seio da experiência de sofrimento há a possibilidade educativa, onde o indivíduo pode superar as causas que determinam este mesmo sofrimento, pode se despojar das imperfeições morais que sempre redundam em infelicidades.

     O paradoxo da aflição só pode ser entendido naturalmente pela perspectiva da vida futura. A “vida presente” está em função da vida futura, que é a vida espiritual. É na vida futura que a totalidade da consciência se apresenta ao indivíduo de forma integral, e por vezes ele contempla o cortejo de misérias em que viveu em vidas anteriores. O sofrimento já se inicia nesta constatação consciencial, pois sendo as leis divinas intrínsecas à consciência, as exigências de reparação e melhoramento decorrem do conflito íntimo instituído pelo tribunal da consciência.

     Assim, o paradoxo da aflição fica muito claro, porque felizes são realmente os que sofrem na Terra para se libertarem definitivamente das misérias morais que corrompem a sua alma e só perpetuam uma certa condição de sofrimento tanto na existência espiritual como na existência corporal. Porém, há sempre o perigo de se perder o “benefício do sofrimento”, através da revolta irrefletida e da persistência na insensatez – a liberdade do Espírito pode determinar um ciclo aparentemente interminável de sofrimentos nas vidas sucessivas. Portanto, o determinismo das leis divinas não anula a liberdade de escolha, a responsabilidade e o consequente merecimento.

     Assim, o paradoxo da aflição fica legitimamente entendido da seguinte maneira:

     A bondade divina determina que na própria experiência de sofrimento se apresente os meios de liberação das causas do sofrimento, se iniciando, por assim dizer, a cura das imperfeições morais. Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados, somente na precisa medida em que não se revoltam e reconhecem no sofrimento uma caminho legítimo de superação das suas próprias imperfeições.

     Kardec evidencia esta lógica da pedagogia do sofrimento dizendo:

             “(….) Deveis considerar-vos felizes por sofrerdes, visto que as dores deste mundo são o pagamento da dívida que as vossas passadas faltas vos fizeram contrair; suportadas pacientemente na Terra, essas dores vos poupam séculos de sofrimentos na vida futura. Deveis, pois, sentir-vos felizes por reduzir Deus a vossa dívida, permitindo que a saldeis agora, o que vos garantirá a tranqüilidade no porvir.”

Conclusão

     Aquilo que comumente é designado como sofrimento na vida terrena não decorre de qualquer espécie de vontade caprichosa da divindade. Por meio de uma abordagem analítica, Kardec demonstra as causas do sofrimento e as condições de emancipação que ele mesmo fomenta. No indivíduo que sofre estão as causas e as soluções, mas este indivíduo é considerado na sua integridade ontológica, que transcende a personalidade atual circunscrita ao corpo e a consciência de vigília. Dentro de uma concepção teísta fundada na razão, a analítica kardeciana deduz necessariamente a pluralidade das existências implícita na facticidade do sofrimento humano.

     A categoria do tempo está sempre presente incisivamente nas considerações de Kardec. Insiste ele que devemos entender e sentir profundamente a brevidade da vida corpórea, considerando-a como um “ponto no infinito.” Se sentirmos de fato a realidade existencial do infinito da vida do Espírito, então a felicidade de uma vida com vicissitudes não soará absurda, pois a vida corpórea, por mais intensa que seja, é um “relâmpago na eternidade.”

 

Bibliografia:

Bem-aventurados os aflitos, cap. V. O evangelho segundo o espiritismo, Allan Kardec. Tradução de José Herculano Pires. Ed. Lake, São Paulo, 2011.

 

 

 

 

 

 

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