Metafísica da evolução na filosofia espírita

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A questão da evolução do princípio inteligente antes da individuação

     Nos debates e discussões entre os estudiosos do Espiritismo, ainda é ponto problemático a questão de onde se principia a evolução, do ponto de vista da gênese espiritual. A frase atribuída a Léon Denis, para muitos é polêmica e até arbitrária, diz ele:

                   “A alma dorme na pedra, sonha no vegetal, agitase no animal e acorda no homem.”(1) 

     O problema já se desponta desde o início, pois dentro dos rigores da terminologia espírita, o conceito de alma se define como um Espírito encarnado(2), portanto não como sendo o princípio inteligente, e sim a sua individuação, isto é, um saber de si originário que constitui a individualidade. Então, julga-se que Léon Denis compreende que o eu, enquanto unidade consciente, inicia sua evolução desde o reino mineral, passando para o reino vegetal, o reino animal e só então adentra nos domínios da humanidade.

     A problemática parece se acentuar mais quando observamos que Kardec se ocupa prioritariamente com o princípio inteligente individuado – o Espírito, precisamente nas condições elementares em que se dá a sua evolução, isto é, ao investigar o fenômeno da encarnação do ponto de vista ontológico, ou seja, não apenas seu aspecto empírico, mas sobretudo em como a encarnação é uma necessidade existencial determinada pelas exigências intrínsecas do ser que se projeta na matéria.

     Esta prioridade de Kardec é verificada claramente no capítulo II, intitulado Encarnação dos Espíritos, livro segundo de O Livro dos Espíritos. Após ter estabelecido as Causas Primárias, no livro primeiro, que são Deus, espírito e matéria, os elementos gerais dos Cosmos, Kardec então se lança na investigação do principio inteligente, mas individuado, de tal forma que delimita esta investigação como sendo sobre o Mundo Espírita ou dos Espíritos. Como esses Espíritos “povoam o Universo, além do mundo material”, Kardec verifica que estes seres inteligentes se desenvolvem no Cosmos por meio de um processo contínuo entre a realidade corpórea e a extracorpórea, de maneira que o fenômeno da encarnação é o epicentro da evolução, e a reencarnação é a lei que estabelece as condições gerais para a evolução do Espírito na totalidade do Cosmos, sempre em relação a suas prementes necessidades existenciais. Assim, parece que a evolução, do ponto de vista espiritual, se inicia com o advento da consciência no seio da Natureza, cuja distinção em face dos outros reinos não é apenas um saber de si originário e a inteligência, mas também o “senso moral” moral que lhe é intrínseco, bem como o afã de transcendência que se traduz nas formas de adoração.

     Entretanto, com base nos postulados estabelecidos na investigação das Causas Primárias, sabemos que a criação e todo o devir que se dá no Cosmos estão fundados na relação dialética entre espírito e matéria, e que todo o devir no Cosmos não é apenas quantitativo, mas também qualitativo, no sentido de que toda manifestação se orienta por uma finalidade de aperfeiçoamento da forma material e, simultaneamente, do princípio anímico (inteligente) que anima todas as formas. De maneira que, se a evolução espiritual só se dá realmente no reino humano, então a totalidade da criação não seria regida por uma unidade de leis e por uma unidade de desígnios – toda a manifestação que se dá aquém do reino humano, e o progresso que necessariamente lhe segue, seria só uma espécie de ensaio laborioso e frustrado da Natureza? Por que a Inteligência Suprema e causa primeira de todas as coisas regeria o Cosmos de forma parcial, isto é, o reino humano seria ordenado por leis distintas que não abarcam a totalidade da criação? Não seria, pelo contrário, o reino humano um dos momentos mais elevados de todo este trabalho cósmico do ser que se projeta na matéria, enquanto princípio inteligente que alcançou a individuação, de maneira que é uma mesma substância espiritual o fundamento do devir qualitativo do Cosmos? E o movimento qualitativo da substância espiritual não seria a realização da lei do progresso abarcando a totalidade e não parte da criação?

     Esta problemática não escapa à lucidez de Allan Kardec, por mais que ele tenha delimitado as suas investigações acerca da evolução no âmbito da “alma humana”, em verdade, ele estabeleceu prioridades e focou todas as suas energias e pouco tempo no campo da existência humana. Porém, seu recorte metodológico, algo extremamente necessário para uma investigação rigorosa, não isolou em absoluto esta questão da evolução do princípio inteligente antes da individuação, de tal forma que é possível já encontrar no pensamento kardeciano o esclarecimento desta questão. Assim, Kardec esclarece:

                         “Na opinião de alguns filósofos espiritualistas, o princípio inteligente, distinto do princípio material, se individualiza e elabora, passando pelos diversos graus da animalidade. É aí que a alma se ensaia para a vida e desenvolve, pelo exercício, suas primeiras faculdades. Esse seria para ela, por assim dizer, o período de incubação. Chegada ao grau de desenvolvimento que esse estado comporta, ela recebe as faculdades especiais que constituem a alma humana. Haveria assim filiação espiritual do animal para o homem, como há filiação corporal. Este sistema, fundado na grande lei de unidade que preside à criação, corresponde, forçoso é convir, à justiça e à bondade do Criador; dá uma saída, uma finalidade, um destino aos animais, que deixam então de formar uma categoria de seres deserdados, para terem, no futuro que lhes está reservado, uma compensação a seus sofrimentos.”(3)

     Este período de “incubação” da “alma” nos “diversos graus da animalidade”, já demonstra que Kardec aceita como uma necessidade lógica e ontológica que a evolução se dá nos primórdios da atividade do princípio inteligente unido à matéria. Entendemos que neste contexto, o termo alma se refere ao princípio inteligente propriamente dito, que não deixa de ser um princípio anímico, mas não individuado – portador da consciência de si, do livre-arbítrio e do senso moral. Fica claro também que Kardec não abrange ostensivamente o reino mineral, pois suas cogitações avançam até os limites dos “diversos graus de animalidade”, todavia, ele assevera que estas cogitações, também sustentadas por outros filósofos, tem a sua necessidade lógica e ontológica intensificada justamente porque elas correspondem com “à justiça e à bondade do Criador.” Ora, na filosofia espírita, os atributos do Absoluto, deduzidos pela razão, são também um critérium de verdade, de forma que se pode aferir a legitimidade de certas teorias sobre o ser na correspondência ou não com àqueles atributos – no caso a justiça e a bondade infinitas do Absoluto.

     Portanto, se  Kardec, ao abordar a questão da gênese espiritual, prefere se concentrar no advento do homem no seio da natureza, todavia ele indica que se considerarmos a questão a partir da lei da unidade, ela é necessariamente conforme à justiça e à bondade do Criador. Ora, se tudo se encadeia no Universo, não podemos, pois conceber uma real separação entre os reinos da natureza. Se buscamos uma compreensão filosófica da totalidade da criação, a lei metafísica da unidade implica necessariamente uma manifestação e evolução contínua do ser desde a mais rudimentar e elementar organização da matéria. Por isso, levando o princípio da lei da unidade até as últimas consequências, em face da questão da evolução do principio inteligente, individuado ou não, deduzimos necessariamente que o reino mineral também também está compreendido no processo da evolução da substância espiritual, e caso haja reinos na Natureza que desconhecemos, diremos então de forma mais concludente: A evolução da substância espiritual se dá na totalidade da criação. A lei da unidade está em perfeita concordância com os atributos do Absoluto:

                   “Assim, tudo no Universo se liga, tudo se encadeia; tudo se acha submetido a grande e harmoniosa lei da unidade, desde a mais compacta materialidade, até a mais pura espiritualidade.” (4)

    Ora, “tudo no Universo”, em termos fundamentais, é espírito e matéria, e na criação nada se dá sem a união desses dois elementos metafísicos. Portanto, diante do exposto, concluímos rigorosamente que:

      O Espiritismo inicialmente fundamenta a existência do Espírito através do conjunto das evidências empíricas oriundas da fenomenologia mediúnica; nisso se caracteriza o raciocínio indutivo – parte sobretudo do exame dos particulares para uma posterior formulação de conclusões gerais. Porém, o raciocínio dedutivo também faz parte da investigação e elaboração do conhecimento espírita. A dedução se dá a partir de princípios gerais, axiomas, dogmas de razão.

     Dessa forma, podemos verificar que toda a estrutura didática de O Livro dos Espíritos é de natureza dedutiva, pois: ele estabelece os princípios gerais, no livro primeiro, apresenta as Causas Primárias, que são os fundamentos de todos os fenômenos, isto é, da Criação. Assim, os elementos gerais do Universo são espírito/matéria – e Deus como a Causa Suprema. Fora disto, não há criação.

     Ora, se o Universo repousa num fundamento que consiste no movimento dialético das oposições que não se anulam, mas se integram – espírito/matéria – então como conceber que a evolução só se dá após uma sucessão de movimentos que organizam a matéria elementar, quando só se alcança um determinado reino da natureza? A lei da unidade só pode ser concebida quando compreendemos que o devir universal em sua totalidade, não apenas em alguns de seus momentos, consiste na evolução criadora gerada pela união metafísica das substâncias que o constitui de modo fundamental e sem as quais ele não é – espírito/matéria.

     Então, a frase poética atribuída a Léon Denis, representa a presença imanente da alma, enquanto princípio inteligente, no seio da matéria que por si mesma é amorfa e inerte; representa o princípio do movimento ordenado onde já se esboça a evolução criadora. Portanto, o Universo, enquanto matéria em movimento, é apenas o arcabouço fenomênico da manifestação do ser-princípio-inteligente no tempo; e o Espírito –  o saber de si do princípio inteligente, a individuação, enquanto unidade consciente. Eis os indicativos para uma metafísica e ontologia espíritas da evolução.

     A filósofa Astrid Sayegh, na sua brilhante tese Ser para conhecer… Conhecer para Ser, aprofundando a temática da ontologia espírita, esclarece:

                      “Se tudo se encadeia no universo, como admitir que o princípio espiritual salte o reino mineral? Se a lei é a unidade, conforme afirma Kardec, como admitir um intervalo no ser que é em si e, portanto indivisível? Eis aqui um falso problema. Na unidade não há espaço, e portanto não há vazios. Por outro lado, os céticos extremados confundem o existir com o manifestarse à consciência sensível. Não é porque os precários sentidos não apreendem a manifestação da inteligência nas formas minerais que ela não existe, ou não está ali latente. Como explicar os movimentos das partículas e dos átomos se a matéria enquanto tal é inerte e passiva? O fato de não se admitir a presença do ser no reino inorgânico devese, mais uma vez, ao desconhecimento da metodologia científica. Eis um trabalho necessário à autoridade do Espiritismo, e só a filosofia lhe pode prestar este serviço.  

                      A própria mitologia grega exalta a presença do ser latente já no mineral, através da lenda de Decalião e Pirra. No Evangelho encontramos afirmações que evidenciam esta verdade: Deus é poderoso para suscitar dessas pedras filhos de Abraão(5). O sensível e o inteligível não são mundos antípodas, mas fundidos e interpenetrados. Não existe no universo matéria que não esteja impregnada por inteligência, mesmo que latente ou invisível aos nossos olhos. A verdade filosófica é muito maior que a medida de nossos olhos sensíveis, segundo expressão de Protágoras.  

                    Em seu estágio no reino mineral o ser encontrase em delíquio profundo, sem sonhos, pois que manifestase em momentos repetitivos e instantâneos. No vegetal ele já interage com o meio ambiente, e nessa interação diante de um estímulo já existe uma certa sensibilidade inconsciente, ou seja, durante o sono;  o princípio começa a sentir a si mesmo, mas não se sabe. No animal já se manifestam mais explicitamente as tendências do ser, porém apenas em função das estratégias para conservar a vida. Estas tendências inconscientes são o próprio instinto. Agitarse é automobilizarse, o que já revela um início de liberdade e ao mesmo tempo uma certa capacidade de escolha. Dormir… sonhar… agitarse são imperativos da vida onde o ente ainda sofre o determinismo que a condição natural lhe impõe. Acordar, porém é o voltar a si do princípio espiritual, o conscientizarse de sersimesmo, e, portanto o despertar da subjetividade enquanto consciência do existir. Não lhe faltaria, ainda, recordarse?”(6)

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 (1) – Denis, Léon. Apud Pires, Herculano. O mistério do ser ante a dor e a morte, p. 22. 

 (2) – Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, cap. II, pergunta 134.

(3) – Kardec, Allan. A Gênese, cap. XI, item 23.

(4) – Kardec, Allan. A Gênese, cap. XIV, item 12 (grifo nosso).  

  (5) – Mt, 3:9.

 (6) – Sayegh, Astrid. Ser para conhecer… Conhecer para ser, cap. VI, A estrutura ontológica da vida, p. 121.

Bibliografia:

Kardec, Allan. A Gênese. 19. ed. São Paulo: LAKE, 1999.

———. O Livro dos Espíritos. 67. ed. São Paulo: LAKE, 2010.

Sayegh, Astrid. Ser para conhecer… Conhecer para ser. 1. ed. São Paulo: IEEF, 2010.

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