O Ser e a Serenidade (1/20)

O Ser e a Serenidade (1/20) em PDF

Caderno de Estudos de Filosofia Espírita

 O Ser e a Serenidade (1/20)

Ontologia interexistencial no pensamento filosófico de Herculano Pires

 Introdução

 

     IpseidadeÉctipoArctipoÉcstaseArcstaseInterexistencial

 

  1. O que seria das palavras se não houvesse “algo” a se referir? Tudo indica que nem se quer seriam, pois as palavras são apenas a representação oral e gráfica das percepções do pensamento que apreende as “realidades” que se apresentam a ele.

    O conceito é o instrumento fundamental do pensamento para se apreender o real. Ele consiste no princípio de identidade (A=A) e na reunião das características gerais do objeto, sem as quais ele não seria. Quando reunida as características gerais, o conceito então apresenta a definição de algo. Por isso, as palavras, quando utilizadas corretamente, estão plenas de conceitos, e estes, bem delineados, se fundam no princípio de identidade e nas notas gerais do objeto com o qual o pensamento se ocupa.

    A representação conceitual da realidade não quer dizer que esgota aquilo que o real é, apenas que por meio dela se apreende o aspecto universal do real, no sentido de organização das impressões do real por meio das categorias do entendimento. Em virtude da razão ser comum a todos os homens, daí decorre a universalidade da percepção conceitual. Graças a essa universalidade da razão é possível que haja comunicação, do contrário não haveria referencial objetivo por meio do qual se estabelece um significado comum e a possibilidade das relações intersubjetivas.

     Por isso a terminologia surge como uma exigência básica de qualquer saber racional que se ocupa com alguma parte da realidade, e ao mesmo tempo inaugura esse saber. De tal forma que Herculano Pires esclarece a questão do pedantismo das “palavras difíceis:

                  “Os conceitos científicos e filosóficos não têm a carga psíquica da tradição oral comum. São formulações novas do pensamento, que exigem formas novas de tradução oral e escrita, para a clareza de sua compreensão, ou pelo menos a clareza possível. Não é por esnobismo ou por querer fingir profundidade que o cientista e o filósofo empregam aquilo que, pejorativamente, costuma-se chamar o seu jargão. É por necessidade.”

           2. Dessa forma, na investigação filosófica sobre o Ser e a Serenidade, empreendida por Herculano Pires, se faz uso de alguns conceitos fundamentais que necessitam serem assimilados para um melhor aproveitamento das reflexões. Herculano os expõem na seguinte ordem:

  • IpseidadeA existência implica o existente – o homem e o ser do homem. Em sendo na existência, o homem é um indivíduo, uma singularidade com a qual é o que é e não outro ser. A condição dessa individualidade é precisamente a ipseidade, que significa o processo de individualização, e não a própria individualidade. Ela é condição, porque se não houvesse o processo de individualização não haveria individualidade.
  • Éctipo e ArctipoHerculano considera o processo de individualização, isto é, a ipseidade “como uma espiral que se abre no éctipo em direção ao arctipo.” Esses dois polos da ipseidade representam o estado consciencial preponderante no ser no processo de individualização. O indivíduo têm como centro de sua subjetividade a consciência, mas só pelo fato de seu advento, ela não marca o ponto final de sua individualização, pois ao se projetar no mundo pelo fenômeno da encarnação, inicialmente o estado de consciência do indivíduo é caracterizado pelo éctipo, isto é, uma consciência demasiadamente centrada em si mesma, como uma “espécie de casulo psíquico em que o indivíduo se fecha no processo de relação”, de maneira que este peculiar estado de consciência (consciência ectípica) estabelece as exigência egocêntricas da existência e uma visão de mundo igualmente egocêntrica, onde tudo deveria convergir para os interesses temporários dessa rudimentar consciência. Arctipo é então o apogeu do processo de individualização; ele não é a eliminação da consciência propriamente dita, mas sim a superação do estado inicial do egocentrismo da consciência. O arctipo caracteriza o “eu” realizado na “forma individual da comunhão”, é o “eu” que se abre no cosmos para comungar a totalidade da vida, e não limitar mais a existência ao círculo das suas exigências egocêntricas.
  • Écstase e ArcstaseA ipseidade, enquanto processo de individualização, apresenta essas duas grandes etapas em que o indivíduo se desenvolve da consciência ectípica à consciência arctípica. Mas o desenvolvimento é gradativo, de maneira que o “éctipo tem a sua arcstase, como o arctipo a sua écstase.” Sendo a “écstase a permanência numa posição ectípica e a arcstase a permanência numa posição arctípica.” Portanto, mesmo o indivíduo arraigado num estado de consciência egocêntrica, vivencia lentamente uma abertura arctípica, sempre relativa e condicionada ao estado de consciência preponderante. Por isso se diz que o éctipo tem a sua arcstase, isto é, por mais egocêntrico que seja um indivíduo, é possível perceber algum nível de comunhão onde não seja tão dominante os seus interesses. Do mesmo modo o individuo que se caracteriza sobretudo pelo altruísmo, ainda vivencia certos estados ectípicos, por isso se diz que o arctipo tem a sua écstase, por exemplo, quando no caso do indivíduo místico, que por buscar obstinadamente o transcendente acaba se isolando na écstase do misticismo e por vezes do fanatismo.
  1.   Desse modo, Herculano estabelece o esquema essencial do ser, a estrutura do processo ontológico: o indivíduo (o ser que se individualiza ao se projetar na existência humana); o processo de individualização (a ipseidade) e os dois estados preponderantes dessa individualização ( o éctipo e o arctipo).

     Individualizar é realizar as potencialidades do ser, por isso o ser se projeta na existência, porque esta o insere no tempo/espaço onde se pode elaborar experiências que desenvolvam a sua natureza. A existência é a manifestação do ser, no sentido de que ele se projeta na matéria para realizar o seu potencial ontológico.

     Herculano considera que a manifestação da consciência por meio de um arcabouço fenomênico, o corpo, só configura um dos momentos existenciais da consciência, pois ela existe antes, durante e depois do corpo. Respeitando as exigências de uma terminologia rigorosa, Herculano elabora então o termo interexistencial, por representar de forma mais efetiva a realidade do ser.

     Desta forma, a existência humana é investigada sob à luz dos postulados ontológicos da filosofia espírita. Dada a prova fenomênica e filosófica da imortalidade da consciência, instituída pela investigação de Alla Kardec, Herculano compreende que a filosofia espírita só pode ampliar, aprofundar e complementar as contribuições advindas do existencialismo.

     A ideia de uma ontologia interexistencial está mesmo implícita nos postulados da Doutrina Espírita. Podemos estabelecer o fenômeno da encarnação como o epicentro da interexistência, por exemplo: a consciência antes da encarnação está numa determinada condição existencial e é premida por exigências intrínsecas à se precipitar na existência material, essa condição existencial anterior a encarnação permite uma analogia com o “em-si” sartreano; durante a encarnação a consciência está numa nova condição existencial, em analogia com o “para-si” sartreano; e após a encarnação uma terceira e nova condição existencial, pois se a consciência continua a existir, e portanto há a permanência da subjetividade com todas as suas faculdades e experiências, é então impossível que o retorno seja à volta para a região ontológica do “em-si”, o retorno é portanto a síntese do “em-si-para-si.”

     Estas três condições existenciais caracterizam a interexistencia, isto é, o mesmo ser, a mesma consciência em três diferentes condições existenciais no seu processo de individualização, que significa o mesmo que – realização de seu potencial ontológico.

     Assim, Herculano empreende uma investigação filosófica para se entender o processo de relação interexistencial e de como a interexistência, que é inerente a manifestação do ser, pode contribuir para a realização da serenidade, e, assim, ele explica:

        “…confirmando a tese heideggeriana de que o Ser é o único problema filosófico, a reflexão romântica sobre a serenidade levou-nos naturalmente ao problema ontológico. Percebemos que não era possível tratar da serenidade sem abordar alguns aspectos do Ser. Assim uma série de cogitações serenistas transformou-se numa tentativa existencial de abordagem do Ser, no plano espirítico do interexistencial.”

                                                                          (Continua…)

Referência:

Questões de terminologia. O Ser e a Serenidade, Herculano Pires. Ed. Paideia, São Paulo, 2008.

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