A reencarnação implícita no imaginário judaico

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Introdução

     No estudo do ensino moral de Jesus que Kardec desenvolve como uma das etapas de sua investigação, ele nos faz perceber a constatação histórica de uma tese simples mas muito importante: a verdade nunca é revelada abruptamente, há sempre os precursores que lançam os gérmens de novas ideias, de maneira que uma noção vaga sempre precede o conhecimento efetivo, ou pelo menos mais definido, daquilo que esta mesma noção se ocupa.

     A teoria espírita compreende a reencarnação como uma lei da natureza, e portanto passível de ser descoberta no processo histórico em que o conhecimento rigoroso se edifica lentamente. Assim, a tese de Kardec acerca dos elementos precursores, dos gérmens de ideias novas, pode ser aplicada na questão da reencarnação? Mais ainda: quais seriam os precedentes do conhecimento mais positivo da reencarnação, dentro do universo monoteísta do povo judeu, uma vez que este conhecimento não é adquirido de forma abrupta? É possível mesmo que houvesse alguns gérmens de ideias que indicasse a noção de reencarnação dentro da tradição religiosa do povo judeu?

     De início, só o fato de se levantar esta questão já parece que há um esforço tendencioso de enxertar uma noção reencarnacionista dentro de um universo religioso que, se não incompatível, é ao menos indiferente a tal ideia.

     Entretanto, é preciso considerar que o próprio imaginário do que seja essa tradição religiosa do povo judeu, e também os fundamentos do ensino de Jesus no seio dessa mesma tradição, que todo esse intrincado conjunto doutrinário tem sua representatividade cultural subsidiada pela hegemonia interpretativa de uma teologia milenar, que se embrenhou de tal modo nos textos ditos sagrados, que o significado teológico quase que instintivamente ressalta da simples leitura como portando o pleno sentido do texto ou o único sentido verdadeiro/possível.

     Mas Kardec não tem os critérios teológicos como referencial em suas investigações. Aliás, isso só seria uma das modalidades das ideias pré-concebidas e do espírito de sistema, que somente faria o esforço de enquadrar o texto numa moldura já estabelecida e convergir o sentido do texto a uma ordem extrínseca de significado. É preciso então revisitar os textos sagrados com um olhar não condicionado, e Kardec segue fiel nos princípios que que determinam o seu método. Por isso Kardec deixa o texto falar, isto é, se concentra em determinadas passagens bíblicas e as analisa, não para impor um sentido extrínseco, mas para destacar o sentido inerente ao texto, livre do imaginário teológico que paira como uma nuvem de significados que por vezes ofusca a luz própria, direta e concisa do texto.

     Neste sentido, a análise kardequiana dos textos bíblicos representa um retorno da livre razão às considerações e estudos em torno da narrativa bíblica, mas não como ao sabor da época, isto é, não para criar anedotas ou promover uma exagerada e tendenciosa humanização e secularização dos seus profetas e personagens, dentro de um paradigma historicista, e até mesmo antecipando algumas sentenças psicanalíticas.

     A livre razão em Kardec significa mesmo o pensamento investigativo livre do espírito de sistema, sendo guiado dentro de uma certa objetividade que ofereça as condições para que a verdade ou ao menos a evidência se manifeste de forma legítima e por si mesma, e não por intervenção ficcionista e tendenciosa do investigador.

     Assim, podemos dizer que Kardec não se limita à refutação do Cristo teológico por meio do Cristo histórico e demasiadamente humano e até mesmo medíocre. A exegética espírita alcança o Cristo espiritual devidamente inserido na dinâmica da natureza, porque esta também se funda no elemento espiritual, tal como demonstra a teoria espírita das manifestações espirituais. Todos os ensinos legítimos de Jesus são também leis da natureza, mas no tocante ao seu aspecto espiritual, por isso a Lei dos Renascimentos, apresentada como o “nascer de novo”, é um fundamento cosmológico, isto é, constitui o modo de ordenação do todo: a totalidade (conjunto de todos os seres) é também disposta segundo a necessidade da reencarnação.

     A reencarnação devemos entendê-la como o retorno do Espírito (princípio inteligente individuado) à matéria animalizada dentro dos padrões da espécie humana. Mas o princípio inteligente não individuado (espírito) também, e desde sempre, entra em contato com a matéria e a ela retorna inúmeras vezes, de modo que a este retorno propriamente dito podemos chamá-lo de paligenesia. É portanto a paligenesia que oferece as condições naturais para a modificação gradativa e qualitativa do princípio inteligente, que repercute diretamente na transformação das formas materiais. Assim a evolução da totalidade ocorre em virtude da lei dos renascimentos que é instituída como um fundamento cosmológico.

     A reencarnação é abordada por Kardec de modo muito complexo e vasto, e só um estudo minucioso para evidenciar tal abordagem. A demonstração de tal princípio realizada por Kardec pode ser compreendida em três grandes bases:

  • Factual
  • Lógico-argumentativa
  • Histórica/Interpretação textual

Elementos da ideia de reencarnação na tradição religiosa do povo judeu

     No presente estudo buscamos apenas pontuar algumas notas da demonstração de Kardec através da análise histórica do pensamento religioso do povo judeu com base na interpretação de alguns trechos dos textos sagrados do antigo e novo testamentos. Portanto, esta demonstração se caracteriza como a terceira grande base para a fundamentação da tese do princípio da reencarnação. É por meio dela que podemos verificar os elementos precursores da ideia de reencarnação, aquelas noções vagas que fomentam às condições para o advento de uma ideia mais precisa.

     Naturalmente, o termo reencarnação não é presente nos textos e no pensamento religioso do povo judeu. Kardec considera que o termo ressurreição é que trabalha com a ideia de reviver. Mas em alguns trechos do novo testamento é possível perceber que a ideia de reviver na carne ultrapassa o sentido estrito de retorno à vida no mesmo corpo em que se vivia. Portanto é possível destacar dois sentidos de retorno à vida corporal utilizados de modo ambíguo: a ressurreição propriamente dita e o retorno à carne, porém em um outro corpo.

     Os trechos do novo testamento analisados por Kardec podem ser considerados em duas classes:

  •           a) A reencarnação implícita no ponto de vista do povo e dos discípulos – Uma certa noção de retorno à vida corporal, mas em um novo corpo, é percebida como uma crença mais ou menos generalizada, quando Kardec destaca certo diálogo de Jesus com os seus discípulos acerca do que o povo andava pensando sobre ele, e os discípulos respondem algo muito curioso: “… uns dizem que é João Batista, mas outros que é Elias, e outros que Jeremias ou alguns dos profetas” (Mateus, XVI: 13-17). Isso ilustra muito bem as especulações do povo em torno da figura enigmática de Jesus, e que a ideia de reviver aqui ultrapassa o mero sentido de ressurreição.

     Especula o povo que Jesus seria o retorno de algum profeta, mas paralelo a isso, sabe-se de sua origem, que ele é um nazareno, filho de carpinteiro, nascido de mulher como todos os homens. Portanto, por mais que seja indireta e inconscientemente, a alusão ao retorno de uma personalidade religiosa importante é concernente ao Espírito que retorna em um novo corpo, e não propriamente ao mesmo corpo que viveu há séculos passados, como no caso dos profetas.

     Outra passagem que mostra como a noção de ressurreição é usada muito mais com o sentido de reencarnação, é quando Herodes, o Tetrarca, recebe notícias de Jesus e suas obras, e ele ouve os boatos que dizem: “… é João que ressurgiu dos mortos; e outros: é Elias que apareceu; e outros: é um dos antigos profetas que ressuscitou.” (Marcos, VI: 14-15; Lucas, IX: 7-9).

     Portanto, na narrativa evangélica, vista como um documento histórico, há elementos que corroboram a afirmação da existência de uma noção de reviver, de retorno à vida corporal mas não no mesmo corpo em que se vivera; e que esta noção, claro que vaga e imprecisa, não é algo isolado, pontual, ou mera interpretação de alguma seita sem muita repercussão, mas antes, tal noção faz parte do imaginário religioso do povo judeu.

     Por isso, Kardec sustenta sem receio esta tese, e diz, a respeito dos judeus:

               “As ideias dos judeus sobre essa questão, como sobre muitas outras, não estavam claramente definidas, porque só tinham noções vagas e incompletas sobre a alma e sua ligação com o corpo. Eles acreditavam que um homem podia reviver, sem terem uma ideia precisa da maneira porque isso se daria, e designavam pela palavra ressurreição o que o Espiritismo chama, mais justamente, de reencarnação.”

  •               b) A reencarnação afirmada por Jesus – Como é possível verificar, há uma noção generalizada entre o povo que uma pessoa pode retornar à vida corporal, mesmo depois de muito tempo de sua morte; que esta noção é utilizada pelo povo para tentar entender a figura enigmática de Jesus. Entretanto, isso pode ser avaliado pelos mestres dessa mesma tradição religiosa como uma superstição, como mera crendice popular, como uma inabilidade característica do povo para se penetrar no sentido profundo dos textos sagrados. Por isso cabe perguntar: sendo Jesus um rabi, um profundo conhecedor da lei e dos profetas, repudia ele tal noção expressa pelo povo? Kardec considera que:

               “Se essa crença fosse um erro, Jesus não deixaria de combatê-la, como fez com tantas outras.”

     Então, analisando a questão também com base nos mestres desta tradição religiosa, vemos que Jesus não repudia tal crença, e muito menos a ela fica indiferente, pelo contrário, em muitas passagens evoca esta noção de retorno à vida corporal em um novo corpo e faz de tal noção um princípio fundamental que corrobora para a realização suprema do homem – isto é, “ver o reino de Deus.” De uma noção vaga e generalizada entre o povo para uma afirmação categórica e ocupando uma posição de princípio elementar em um conjunto de ensinos, isso demonstra que Jesus se esforça mesmo em delimitar esta noção específica de “reviver” e oferecê-la o devido tratamento. Kardec conclui que:

                      “…Ele a sancionou com toda a sua autoridade, e a transformou num princípio, fazendo-a condição necessária quando disse: Ninguém pode ver o Reino dos Céus, se não nascer de novo.”

     Como já dissemos, Kardec se afasta da interpretação que é orientada pelo referencial teológico, que, no caso, compreenderia o “nascer de novo” por meio do simbolismo do batismo, da remissão dos pecados e do Espírito Santo. Assim, Kardec se concentra em três passagens dos evangelhos para demonstrar a afirmação do princípio da reencarnação por parte do próprio Jesus:

  • 1) O diálogo com Nicodemos, em João III: 1-12, onde Kardec, após uma análise do sentido simbólico da água na tradição religiosa e na antiguidade em geral, conclui que: “(…) Essas palavras: ‘se o homem não renascer da água e do Espírito’, ou ‘na água e no Espírito’, significam, pois: ‘Se o homem não renascer com o corpo e a alma.’ Nesse sentido é que foram compreendidas no princípio.” Nesta última afirmação, Kardec faz alusão aos primeiros entendimentos em torno dos evangelhos, mais livres e diretos, sem a impregnação de camadas de significados teológicos, que se impuseram no processo de institucionalização do cristianismo.
  • 2 e 3) A afirmação categórica de que João Batista é Elias que retornou, contidas em Mateus, XVII: 10-13 e XI: 12-15. Kardec conclui enfaticamente:

                     “(…) Aqui não existe figura, nem alegoria; trata-se de uma afirmação positiva. ‘Desde o tempo de João Batista até agora, o Reino dos Céus é tomado pela força’, que significam estas palavras, pois João ainda vivia nos momentos em que foram ditas? Jesus as explica, ao dizer: ‘E se vós o quereis bem compreender, ele mesmo é o Elias que há de vir.’ Ora, João tendo sido Elias, Jesus alude ao tempo em que João vivia com o nome de Elias.”

Conclusão

     Kardec mais uma vez superou o espírito de sistema. Analisou algumas passagens da narrativa evangélica, sem se basear no dogmatismo teológico e sem se restringir no historicismo materialista. Antes de impor o princípio da reencarnação, se esforçou por deixar o texto falar, por evidenciar a lógica interna do próprio texto.

     O sentido intrínseco do texto convergiu naturalmente para o princípio da reencarnação postulado pela Doutrina Espírita. O texto, considerado como documento histórico e relato da visão de mundo e da tradição religiosa de um povo, não apresenta bem delineada a ideia de reencarnação, mas sim a noção vaga e generalizada da possibilidade de um retorno à vida corporal em um novo corpo, noção esta tratada de modo ambíguo pelo termo ressurreição.

     Tal noção vaga é justamente o “elemento precursor” que se insinua no horizonte cultural do povo judeu, isto é: tal noção vaga vem corroborar a tese kardequiana de que uma ideia muito importante para a humanidade é sempre precedida por uma noção imprecisa, cuja finalidade é preparar as mentalidades, fomentar as condições para o efetivo advento do novo.

     Assim, podemos concluir que:

  •    No imaginário religioso do povo judeu há certos elementos que constituem uma imprecisa noção de reencarnação; no ensino de Jesus há a afirmação categórica do princípio da reencarnação; e, por fim, no Espiritismo há a afirmação e a demonstração factual (fenomênica), lógica e histórica (cultural) do princípio da reencarnação.

Referência:

Ninguém pode ver o reino de Deus se não nascer de novo, cap. IV. O evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec. Tradução José Herculano Pires.

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