Da impossibilidade de amar a Deus por meio do absurdo

“Consultai o vosso bom senso, a vossa razão e perguntai se uma condenação perpétua, em consequência de alguns momentos de erro, não seria a negação da bondade de Deus. Que é, com efeito, a duração da vida, mesmo que fosse de cem anos, em relação à eternidade? Eternidade! Compreendeis bem essa palavra? Sofrimento, tortura sem fim e sem esperança, apenas por algumas faltas. Não repugna ao vosso próprio critério semelhante pensamento?” – Santo Agostinho

Verdadeiramente, um homem de razão antes sente aversão do que amor a um Deus que determinasse uma eternidade de sofrimentos, pois a um ser desse gênero é impossível que as belas virtudes se manifestem em sua natureza. O homem só pode amar a Deus quando a ideia que faz dele não repugna seu bom senso, do contrário, sente um temor muito grande ou se lança na indiferença pela incredulidade. É impossível que o amor floresça em uma relação de subjugação, de pavor e absurdidade, quando ainda o amor surge palidamente em alguns crentes não é por influência dos aspectos antropomórficos que ensombram a ideia de Deus entre os homens, e sim porque tal crente conseguiu algo vislumbrar entre a névoa do absurdo e do terror – alguns elementos luminosos que representam sentidos mais elevados acerca da divindade, fora do sentido dogmático.

Portanto, a perspectiva do futuro espiritual da humanidade depende sensivelmente da ideia que se faz de Deus ou da indiferença pela incredulidade, circunscrevendo o pensamento tão somente à vida material. Nem a perspectiva dogmática, que apresenta um futuro espiritual elitista e de grande terror para os pecadores, nem a perspectiva materialista, que encerra o futuro espiritual no conceito ilógico do nada, podem fazer brotar no coração da humanidade o respeito e o amor a um possível Deus. Entretanto, quando tal futuro espiritual se apresenta como uma via infinita de desenvolvimento intelecto-moral de todas as criaturas; na certeza que a dinâmica da vida se fundamenta no esforço ininterrupto de engrandecimento e embelezamento da obra universal; que ninguém está fadado à torturas eternas; que tudo pode ser renovado e melhorado mediante o necessário dispêndio de energias; enfim, que o homem é perfectível e seu maior dever é realizar sua perfeição possível, relativa, e, que para a realização de tal dever, ao invés de se impor uma eternidade de sofrimentos, é lhe oferecido o infinito do tempo – o tempo que acolhe o ser para a manifestação da epopeia do progresso. Analisada essa perspectiva do futuro espiritual da humanidade, tal concepção só pode estar fundamentada numa superior ideia de Deus, cujas virtudes e perfeições inerentes à sua natureza em nada se assemelham aquela projeção antropomórfica. Tal futuro espiritual só pode ser sustentado por um Ser cuja bondade é infinita e nunca se aparta da justiça, para que não seja demasiadamente severa.

Desse modo, o homem começa a amar a Deus, e não a temê-lo e sentir pavor ou indiferença por causa de absurdos, quando percebe que seus verdadeiros atributos não ferem a razão, que não se assemelham a certas paixões humanas, quando vê que Deus não é uma imagem aumentada de si mesmo, mas verdadeiramente o Outro, o Absoluto, fonte perene do Bem, do Belo, do Justo, uma realidade que é idêntica a si mesmo e nada lhe compara, porque é o Único, a Perfeição.

É em direção a esta Religião que o homem caminha no seu processo evolutivo – a religião natural, ou seja, a indicada pela própria razão, contida na própria consciência que encerra em si a unidade das leis divinas; a religião da fé raciocinada, que em nada se assemelha à fé dogmática. Tal religião é o Espiritismo, pois este repousa nas leis naturais que determinam o real e a consciência.

“(…) Que os antigos tivessem visto no Senhor do Universo um Deus terrível, invejoso e vingativo, compreende-se; na sua ignorância emprestaram à divindade as paixões dos homens. Mas não é esse o Deus dos cristãos, que coloca o amor, a caridade, a misericórdia, o esquecimento das ofensas no plano das primeiras virtudes: poderia ele mesmo não ter as qualidades que exige como um dever? Não há contradição em se lhe atribuir a bondade infinita e a vingança infinita? Dizeis que antes de tudo ele é justo e que o homem não compreende sua justiça. Mas a justiça não exclui a bondade e Deus não seria bom se destinasse às penas horríveis e perpétuas a maioria de suas criaturas. Poderia fazer da justiça uma obrigação para seus filhos, se não lhes desse os meios de a compreender? Aliás, não é sublime a justiça unida à bondade, que faz a duração das penas depender dos esforços do culpado para se melhorar? Nisto se encontra a verdade do preceito: A cada um segundo a suas obras.” – Santo Agostinho

Referência:

Questão 1009 de O Livro dos Espíritos – VII Duração das Penas Futuras.

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