Os sofistas e a relatividade do conhecimento

Objetivo: Demonstrar a formação da ideia de lei natural e lei humana, assim como a concepção da relatividade do conhecimento e a perspectiva da Filosofia Espírita entorno da problemática sofística.

1- Em que consistia a lei natural e a lei humana à época dos sofistas?

A physis é a totalidade das manifestações que são regidas por uma lei (nomos) que garante a ordem e a harmonia do todo. Essa lei é entendida como natural, isto é, própria da physis, cuja a regulação abrange todas as instâncias da natureza, incluindo nisso a regulação dos agrupamentos humanos. De tal modo, que a ordem social estabelecida, bem como os valores inerentes a essa organização, é também uma ordem natural, ou seja, sua estrutura segue as determinações da própria physis. Então, as diferentes castas da sociedade são determinações de uma lei natural, que não só ordena a sociedade humana, como estrutura todo o Cosmos. Está identidade entre ordem social e ordem cósmica, determinadas pela lei (nomos), é o que sustentava a hegemonia da aristocracia na liderança e administração das cidades-estado – tal casta está ali pela ordem das coisas e ali deve continuar.

Os sofistas vem precisamente por em questão a origem da lei (nomos) e consequentemente de toda uma estrutura social, que supostamente é determinada por uma ordem divina, por uma ordem cósmica, e sustentam que a lei (nomos) é antes convenção humana, que se impõe pelo poder e pelo costume, pela tradição, e não uma determinação divina intrínseca a manifestação da physis.

Colocando a lei (nomos) no âmbito humano e retirando sua roupagem natural e divina, então ela pode ser discutida, reelaborada. E, uma vez que a lei (nomos) tem um caráter extremamente flexível, pois é dependente da medida humana, consequentemente a estrutura social também é passível de infinitas reelaborações, bem como os valores acerca do bem e do mal, belo, útil, dever e etc. Desse modo, as especulações políticas e as ambições sociais ganham peso irreversível na Grécia antiga e os sofistas se pretendem mestres da juventude que deve se impor e renovar os quadros sociais segundo, em última instância, seus interesses pessoais. Com os sofistas a sociedade humana se desprende do suposto determinismo cósmico, para se reelaborar constantemente, segundo as medidas e interesses humanos.

2- Em que esse conceito difere da Lei Natural para a Filosofia Espírita?

Dizer que há lei natural é antes sustentar que há um princípio objetivo, independente das relações entre os homens e que garante a origem da ordem, do bem e de todos os valores que os homens mais ou menos compreendem.

O Espiritismo sustenta que há a lei natural, porque há um princípio absoluto do qual provém toda a ordem e todos os valores para a manifestação da vida. Esse princípio é Deus.

Assim, a Lei Natural é o conjunto das leis divinas estabelecidas por Deus e a sua finalidade última é manter a soberana Justiça em todas as manifestações da natureza, diferente da concepção grega de lei natural que por ela justifica as desigualdades sociais e a predominância abusiva de uma casta e por isso mesmo foi passível da crítica sofística.

3- O homem é a medida de todas as coisas, afirma Protágoras. Explique essa frase com suas palavras.

O homem é o centro das reflexões dos sofistas, que se distanciam das questões da natureza e da cosmologia para se preocuparem com o homem inserido na cidade e na sua formação para atuar nessa cidade. Ele é a medida porque a sua percepção da realidade está condicionada aos sentidos, de modo que as coisas são ou não são em virtude de como ele as percebe. Assim, o conhecimento é subjetivo, no sentido de que as coisas, para serem percebidas, se adequam aos meios de percepção humana.

Desse modo, a natureza e a sua possível verdade está sujeita ao homem, aos seus critérios humanos, que podem variar ao infinito. E os sofistas se ocupam de oferecer as melhores técnicas da retórica para que os homens consigam fazer prevalecer suas percepções particulares acerca de qualquer assunto, objeto, problema. Pois, sendo o homem a medida de todas as coisas, não existe “a verdade” acima de sua medida particular, mas apenas opiniões verdadeiras que se destacam pela aplicação da melhor técnica oratória.

4- Em que sentido a Filosofia Espírita admite o relativismo do conhecimento?

Para a Filosofia Espírita o relativismo do conhecimento é concernente a condição evolutiva do sujeito cognoscente e não ao objeto do conhecimento. Por exemplo:

O homem é um Espírito encarnado que sofre inúmeras influencias do seu condicionamento, tais como a organização do corpo físico e a disposição dos órgãos que servem para a captação das impressões do real, assim, a precisão e qualidade de sua percepção do real depende dos instrumentos do seu corpo físico. Por isso que seu conhecimento é sempre relativo e a causa da relatividade está no seu condicionamento e no grau de evolução em que estagia, e não no objeto a ser conhecido. Sendo assim, independente da percepção relativa do homem, há uma realidade objetiva, em si mesma e com sua dinâmica própria, para além da medida humana.

Assim, é do mesmo modo passando dos fatos aos valores. Por exemplo:

Os sentimentos morais, as noções de Justiça, Beleza, Verdade, são a priori no Espírito, constituem sua estrutura consciencial. Mas a compreensão desses princípios morais e estéticos é relativa e também gradativa. A razão se desenvolve no tempo e assim o homem se aproxima progressivamente do sentido intrínseco desses princípios. Todas as culturas e as civilizações são uma materialização ou concretização, por assim dizer, da compreensão relativa dos princípios inatos da consciência. Portanto, não são as relações e os costumes humanos que engendram variadas concepções de Verdade, Justiça e Beleza, pelo contrário, essas concepções relativas são simples consequências de um nível de compreensão que um determinado agrupamento humano alcançou, por isso há concepções que variam do grotesco ao sublime, dependendo isso unicamente do desenvolvimento racional e espiritual.

Desse modo, os sentimentos e valores morais e estéticos são em si mesmos, constituem uma realidade própria e, portanto, não são relativos, isto é, dependentes tão somente da medida humana. Sua origem não é histórica nem antropológica, pois independem do ser humano para existirem e se manifestarem na criação, pois sua origem está na realidade divina, única causa da Justiça, do Bem e do Belo.

Bibliografia

IEEF. Princípios da filosofia espírita. São Paulo: IEEF, 2012.

KARDEC, ALLAN . O livro dos Espíritos. São Paulo: Lake, 2010.

KARDEC, ALLAN. A Gênese. São Paulo: Lake, 1999.

MORENTE, M. G. Fundamentos de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

PIRES, J. HERCULANO. Introdução à filosofia espírita. São Paulo: Paidéia, 2005.

About these ads

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s